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Pratini de Moraes pede a revisão do Mercosul

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FREDY VIEIRA/JC

O mundo precisa do Brasil para comer, afirmou o palestrante

O mundo precisa do Brasil para comer, afirmou o palestrante

Ao traçar as perspectivas para a agropecuária no Rio Grande do Sul, o ex-ministro da Agricultura Marcus Vinícius Pratini de Moraes apelou aos parlamentares gaúchos que se engajem em uma revisão do Mercosul. “O bloco precisa ser repensado, está ficando muito caro, e não dá para ficar brincando de bonzinho ou patrocinando os problemas políticos e comerciais dos vizinhos”, disse ele.
A declaração foi feita durante a palestra promovida pela iniciativa Radiografia da Agropecuária Gaúcha, quando Pratini de Moraes mostrava projeções de queda no consumo per capita de cereais, tubérculos e proteína vegetal no mundo até 2050. Com base no mesmo estudo, ele indicou que o consumo per capta de carnes deve dobrar no mesmo período – o que significa um aumento ainda maior de demanda ao se considerar o crescimento esperado da população. “O mundo precisa do Brasil para comer, e a produção de alimentos tem que crescer, em escala global, entre 60% e 70% até 2050”, afirmou.
Segundo Pratini de Moraes, a demanda crescente por proteína animal deve ser atendida por mercados como o do Rio Grande do Sul – que concentram a produção de carnes e grãos. Com isso, o ex-ministro apontou que qualquer política agrícola deve ter o único objetivo de aumentar a renda do produtor ou recuperar essa renda, já que com dinheiro o homem do campo influencia positivamente toda a economia e produz mais.
Para Pratini, a demanda global por alimentos está colocando o País em uma posição privilegiada no âmbito da produção agrícola e da pecuária. O ministro destacou os setores da produção que estão crescendo e sugeriu que o Estado tem muito a ganhar se souber investir. “O Rio Grande é o quarto Estado no ranking da produtividade no Brasil. Vem caindo, mas ainda está bem. São 3.900 kg/ha área de produção”, apontou. Pratini explicou que o Estado vem perdendo área plantada e produtividade em razão das secas recentes.
Ao citar as vantagens competitivas do Estado, o palestrante destacou o empreendedorismo e a tecnologia como os fatores mais relevantes. Pratini de Moraes lembrou que a Embrapa foi criada em 1973, em uma reunião na fazenda Cinco Cruzes, de Bagé. Lá, os militares, que administravam a propriedade, decidiram unir os institutos de pesquisa e criar a empresa pública.
Segundo ele, a série de inovações que deu condições para que a produtividade brasileira crescesse em velocidade muito superior à da expansão da área (e que incluem o plantio direto e a manipulação genética das cultivares) chegou a um novo paradigma, a integração lavoura-pecuária e floresta. Esse modelo, detalhou ele, já está sendo usado pela empresa em que trabalha (Frigorífico JBS), no Mato Grosso, e abre as portas para a redução de área dedicada exclusivamente à pecuária. Pratini defende que, no Brasil, se adote um sistema em que os animais vivam no campo até oito ou dez meses e, depois, passem para o semiconfinamento.
Com essas mudanças, ele acredita que será possível ter ganhos significativos de produtividade sem que seja preciso avançar na área disponível – segundo ele, o Brasil tem 10% do território, ou 80 milhões de hectares, prontos para a atividade agrícola, e usa 8,5%. “O desafio é manter o ritmo de 4% de crescimento da produtividade ao ano com o consumo de menos água, além de diminuir a quantidade de adubo usado por hectare”, afirmou. Para Pratini de Moraes, o avanço do agronegócio nos demais estados brasileiros é “fruto do empreendedorismo gaúcho” e “o desmatamento da Amazônia pelos fazendeiros não é bem assim”. O ex-ministro lembrou que políticas de fomento (da Sudam e do Banco da Amazônia) incluíram áreas que não eram originalmente de floresta, no Maranhão e no Mato Grosso, e que hoje o suposto desmatamento dessas regiões é usado comercialmente contra o Brasil.
“Mas a Floresta Amazônica é um desastre em termos de produção. O primeiro exemplo foi o Ford (Henry Ford, da montadora Ford) tentando produzir seringueiras, depois veio o Daniel Ludwig com a fábrica de celulose, mas o eucalipto não aguentou o sol. Perderam tudo”, disse ele ao enumerar diversos casos de projetos que não prosperaram na região. “O nosso diferencial para dar certo em outras regiões é a tecnologia criada e atualizada pela Embrapa e outras instituições.”
Pratini de Moraes mostrou como, estatisticamente, o Estado vem perdendo posições na produção brasileira e defendeu que o caminho (que, segundo ele, será trilhado pelo JBS nas operações compradas da Doux Frangosul no Estado) é a agregação de valor. “A empresa onde trabalho investe para agregar valor à produção, e vamos fazer marketing muito intenso”, anunciou.

Fonte: Jornal do Comércio | Clarisse de Freitas