Política da empresa prevê aquisição de leite diretamente do produtor

A Lactalis está há pouco tempo no Brasil, mas já enfrentou algumas vicissitudes em sua trajetória por aqui. Em março, os empregados da unidade da Lactalis em Barra Mansa (RJ), adquirida da LBR-Lácteos Brasil, fizeram greve. E neste mês a francesa viu seu nome citado como empresa que adquiriu leite supostamente adulterado em mais uma etapa da Operação Leite Compen$ado no Rio Grande do Sul.

Patrick Sauvageot, o CEO da companhia para a América Latina, diz que o sentimento em relação à paralisação dos funcionários da unidade fluminense foi de "frustração", já que, segundo ele, a "greve foi por algo equivocado".

Os funcionários da planta pararam por 18 dias em março, reivindicando o dissídio coletivo da categoria e o depósito de parcelas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) em atraso. As obrigações tinham de ter sido pagas pela LBR. Mas, em recuperação judicial, a empresa deixou de fazê-lo.

"Quando chegamos, todas as pessoas que não foram pagas pela LBR caíram sobre nós dizendo: vocês têm que nos pagar. E a Lactalis foi bem clara: não vamos pagar o passivo [da LBR]", afirma o executivo. Na operação de venda de unidades da empresa de lácteos, dentro do processo de recuperação judicial, os compradores adquiriram unidades e marcas da LBR, sem os passivos da companhia, estimados em R$ 1 bilhão.

Depois da greve foi a vez da operação do Ministério Público do Rio Grande do Sul, que investiga casos de adulteração de leite no Estado. Conforme a investigação, houve casos de adição de água e produtos como sal, açúcar e amido de milho no leite cru entregue pela Transportadora Odair à Coopasul, que fornecia, entre outros, para a unidade da Lactalis em Fazenda Vila Nova (RS).

Segundo Sauvageot, a cooperativa teve cargas de leite rechaçadas e não fornece mais para a Lactalis. "A obsessão da Lactalis é fazer tudo o que se pode fazer para lutar contra essas práticas".

A empresa está implantando no Brasil os mesmos protocolos de qualidade para recepção do leite que usa em outras regiões onde atua, conforme o executivo. Ele afirma, sem dar detalhes, que a companhia desenvolveu, junto com alguns fornecedores "equipamentos que nos dão algumas medidas que nos ajudam a reforçar o controle de qualidade, que não existiam no Brasil antes".

A política que a Lactalis adota em relação ao produtor pode evitar problemas como os registrados no Rio Grande do Sul. Nos países onde atua, a empresa prioriza as compras diretas do produtor. O volume atinge 80% do total comprado. "Há sempre interesse em desenvolver relação direta com o produtor porque é um compromisso", diz o executivo.

Trabalhando dessa forma, a empresa acompanha como o leite está sendo produzido e tem controle da qualidade do produto. As compras diretas não eram política da LBR, então será necessário tempo "para construir uma relação" com os produtores, diz. No caso da BRF, já existe política muito similar à da Lactalis.

A empresa está fazendo contratos com os produtores que formaliza as obrigações e o pagamento de bônus por qualidade do leite. No total, entre diretos e indiretos, a Lactalis deve ter 15 mil fornecedores, sendo 13 mil que entregam leite à BRF.

Fonte: Valor | Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo