Plantio de algodão converge para a safrinha

O plantio de algodão de segunda safra deverá bater um novo recorde na safra 2014/15 em Mato Grosso, que responde por mais da metade da produção nacional da fibra. Na tentativa de diluir custos e elevar a receita proveniente da mesma área, os produtores do Estado tendem a deslocar ao menos 90% do cultivo da pluma para a "safrinha", plantada após a colheita da soja, em janeiro.

A estratégia vai "amortecer" a queda do plantio no Brasil na temporada, desestimulado pelos preços depreciados no mercado internacional – as cotações da commodity já recuaram mais de 20% na bolsa de Nova York neste ano A Abrapa, associação que representa os produtores brasileiros da fibra, prevê que o algodão ocupará 990 mil hectares no ciclo atual, uma queda de 12% sobre 2013/14.

"Não fosse a 2ª safra, a área no Brasil cairia mais, para entre 800 mil e 820 mil hectares", afirma o presidente da Abrapa, Gilson Pinesso. Até agora, o percentual máximo que Mato Grosso havia "deslocado" para a segunda safra foi de 65%, na temporada passada.

Parte da produção em Goiás e Mato Grosso do Sul também sai da safrinha, mas, segundo Pinesso, esse percentual já está no limite, calculado em 30%. "Por conta do regime climático, apenas Mato Grosso e algumas poucas regiões de Goiás e Mato Grosso do Sul conseguem plantar a soja precoce, colhida em até 100 dias, para em seguida destinar a terra para cultivo do algodão. Os outros Estados têm que escolher o que plantar no ano: ou soja ou algodão. Não conseguem cultivar os dois".

O presidente da Abrapa lembra que também pesa na decisão do produtor sobre reduzir pouco ou ao menos manter a área o fato de que esse tipo de cultura demanda investimentos altos em maquinário para colheita e beneficiamento. Portanto, deixar de plantar significa deixar máquinas paradas.

Pinesso estima que, até agora, apenas 15% da colheita total esperada em 2014/15, de 1,45 milhão de toneladas, foi vendida antecipadamente. "Quando o produtor foi ao mercado vender a pluma para o ano que vem, os preços já estavam mais baixos, na casa de 74 centavos de dólar por libra-peso".

Eraí Maggi Scheffer, dono do grupo Bom Futuro, de Mato Grosso, vai plantar nesta temporada a mesma área de algodão de 2013/14 (100 mil hectares). Toda ela será cultivado na segunda safra, após a colheita da soja. A disputa na safrinha é com o milho, cuja rentabilidade neste ano está mais baixa do que a esperada com algodão. "Pesa, ainda, o fato de a produtividade da fibra na segunda safra estar muito elevada e com uma janela de plantio maior", afirma ele.

Além das vantagens operacionais de produzir na entressafra, Scheffer destaca que sua decisão de manter a área também é motivada pelo fato de a empresa já ter vendido antecipadamente dois terços da produção esperada, a preços médios de 85 centavos de dólar por libra-peso – bem acima, portanto, do patamar atual de 61 centavos de dólar na bolsa de Nova York. Nos cálculos do produtor, a rentabilidade líquida do grupo com a cultura em 2014/15 tende a ficar em 20%.

Estudo realizado pela consultoria FCStone a pedido do Valor indica que a rentabilidade para os produtores de Mato Grosso que beneficiam a própria pluma deverá ser negativa em 6,38%. Esse cálculo considerou os custos a um dólar de R$ 2,27, nível no qual a moeda americana estava antes da disparada da semana passada. O levantamento também considerou preços recebidos pelo produtor de 60,7 centavos de dólar a libra-peso da pluma e de US$ 177 no caso da tonelada do caroço de algodão.

Embora negativa, a margem da produção de algodão representa um prejuízo menor que a do milho. O levantamento indica que a margem do cereal deverá ser negativa em 34,76% caso o produtor consiga vender a saca a R$ 15 para 2015.

Toda a redução de plantio de algodão da Vanguarda Agro, uma das principais produtoras de grãos e fibras do país, será feita na área de primeira safra. A área de 2014/15 cairá 15%, a 32,5 mil hectares. O corte deverá ocorrer, em sua maior parte, em Mato Grosso. No Estado, a empresa plantou, no ciclo passado, 11,1 mil hectares da pluma na primeira safra e 15,2 mil na segunda. "Agora, vamos substituir toda a área da safra principal de algodão por soja", disse Arlindo de Azevedo Moura, presidente da companhia.

Ele explicou que o corte só não será maior porque a Vanguarda acredita que, entre as três culturas principais (soja, milho e algodão), a pluma é a única cujas cotações têm chances de se recuperar no ano que vem. "Outros países produtores devem reduzir área em 2015. Calculo que, no mundo, essa retração poderá chegar a 12%", afirmou Moura.

As vendas antecipadas a patamares de preços mais elevados foram cruciais na decisão de Walter Horita, um dos maiores produtores de algodão do oeste da Bahia, de manter sua área em 2014/15 em 37 mil hectares. "Já vendi 65% da produção esperada a 77 centavos de dólar por libra-peso. Meu custo está em 65 centavos", disse. Segundo ele, é preciso ter estrutura para "aguentar" até o mercado mudar de direção. "Acredito que 60 centavos é o piso".

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Fonte: Valor | Por Fabiana Batista e Camila Souza Ramos | De São Paulo