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PF apura transações com ações e dólar

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A Polícia Federal (PF) de São Paulo instaurou inquérito para apurar se Joesley e Wesley Batista, sócios da J&F, holding que controla JBS, Eldorado e Alpargatas, entre outras empresas, cometeram crime de insider trading (obtenção de informação privilegiada) ao lucrarem na Bolsa de Valores de São Paulo e no mercado de câmbio com a divulgação do acordo de delação premiada que ambos fecharam com a Procuradoria-Geral da República (PGR). A informação foi apurada pelo Valor com fonte a par do caso. A JBS nega, e diz que "gerencia de forma minuciosa e diária sua exposição a moeda estrangeiras e commodities".

A investigação tramita em segredo de Justiça na Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros (Delefin) da PF paulista. Um procurador da República do Ministério Público Federal (MPF) de São Paulo também atuará no caso.

De acordo com as investigações, os Batista adquiriram grande quantidade da moeda americana em 17 de maio, quando o câmbio comercial fechou a R$ 3,14 na venda. No dia seguinte, a cotação do dólar disparou com a divulgação das gravações de conversas mantidas por Joesley com o presidente Michel Temer e com o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG), chegando a ultrapassar R$ 3,40 na venda.

Conforme apurou o Valor, o inquérito, ao menos por ora, não deverá considerar a hipótese de manipulação do mercado por parte dos irmãos Batista e deverá ficar concentrado apenas na hipótese criminal de obtenção de vantagem financeira a partir de informação privilegiada. A investigação foi aberta em São Paulo obedecendo ao critério da territorialidade dos fatos.

O inquérito também está restrito à apuração de eventual conduta criminosa praticada por sócios e dirigentes da JBS, na pessoa física. As responsabilizações de pessoas jurídicas do grupo, na hipótese de que ocorreram, se darão em momento posterior e no âmbito de uma ação civil.

As responsabilizações também dependerão do fechamento ou não de acordo de leniência pela J&F com o MPF do Distrito Federal. A procuradoria quer o pagamento de R$ 10,99 bilhões, e a empresa, até agora, ofereceu R$ 8 bilhões.

Na esfera administrativa, a delação dos controladores e executivos da JBS continua a ensejar novas investigações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Na sexta-feira, o órgão regulador instaurou o oitava apuração diretamente relacionada à empresa. O site da CVM não dá detalhes, limitando-se a informar que se trata de "Supervisão: notícias, fatos relevantes e comunicados".

Na B3, o pregão de ontem foi mais calmo para a JBS, e suas ações fecharam a R$ 7,70 na B3, leve queda de 0,13%. Na semana passada, os papéis da companhia oscilaram bastante devido aos desdobramentos das delações, como as negociações do acordo de leniência da J&F, controladora da JBS, e o destino dos irmãos Batista. Joesley renunciou ao comando do conselho de administração da JBS e deixou o colegiado. Wesley, por sua vez, renunciou ao cargo de vice-presidente do conselho, mas segue como membro do colegiado e como CEO global, ainda que sob pressão de minoritários. (Colaborou Luiz Henrique Mendes, de São Paulo)

     

    Por André Guilherme Vieira e Juliana Schincariol | De São Paulo e Rio

    Fonte : Valor