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Perspectivas positivas para a Basf no Brasil

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Prestes a se tornar a mais nova "player" de peso no mercado global de sementes, a alemã Basf terá no Brasil uma das frentes com maior potencial de crescimento quando a compra de parte dos negócios da rival Bayer CropScience for aprovada pelas autoridades antitruste. Anunciada no dia 13, a aquisição, fechada por € 5,9 bilhões, inclui praticamente todos os negócios de sementes da Bayer e a operação global da empresa com o herbicida glufosinato de amônio.

Depois do sinal verde dos órgãos regulatórios, a Basf será líder do mercado brasileiro de sementes de algodão e terá ampla possibilidade de avançar rapidamente na área de sementes de soja. Isso porque já terá nas mãos a tecnologia transgênica LibertyLink, cuja presença nos campos é pequena mas já está licenciada e presente nas prateleiras das distribuidoras de insumos.

Em sementes de algodão, a Basf herdará uma liderança folgada, já que a fatia da Bayer CropScience é cerca de três vezes maior que a da segunda colocada, a Tropical Melhoramento & Genética (TMG). Segundo a consultoria Kleffmann, esse mercado movimentou, no total, US$ 162 milhões na safra 2016/17.

O mercado de sementes de algodão era uma das maiores preocupações do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para aprovar e compra da americana Monsanto pela Bayer no Brasil. Em parecer, a Superintendência Geral do Cade ponderou que a Monsanto era é a terceira principal player do ramo e que a participação conjunta, caso o negócio prosperasse sem restrições, chegaria a entre 60% e 70% do faturamento e do volume vendido de sementes da cultura.

Em sementes de soja – que movimentaram US$ 2,35 bilhões no último ciclo no país -, a participação da Bayer é incipiente, mas o peso da Monsanto nesse mercado poderia ser um empecilho para a concretização da negociação no Brasil.

Segundo Leonardo Machado, secretário-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja (Abrass), 95% das lavouras brasileiras de soja são semeadas com variedades transgênicas. Dessas, 50% têm resistência a herbicidas, e 99% desse mercado é dominado pela Monsanto – a ínfima fatia restante é dividida por outras empresas, e no rol está a Bayer. A outra metade das lavouras transgênicas é semeada com tecnologia Intacta, também da Monsanto, que confere resistência a lagartas.

"Com a aquisição, a Basf já tem um evento de biotecnologia aprovado e pode dar continuidade ao programa de melhoramento", explicou Marcio Farah, diretor executivo da Kleffmann para Brasil e América Latina. E ter alguma vantagem no Brasil não é pouca coisa, sobretudo para uma companhia que estava ficando para trás como a Basf. O país tem o terceiro maior mercado de sementes do mundo e, segundo a consultoria, movimentou cerca de US$ 4,8 bilhões na safra 2016/17.

No tabuleiro global de sementes, a Monsanto é líder com 27% de vendas totais que somaram quase US$ 40 bilhões em 2016, segundo a Phillips McDougall. Em seguida vem a também americana DuPont (17%), que já teve o processo de fusão com a compatriota Dow aprovado, e a suíça Syngenta (7%), adquirida recentemente pela ChemChina. A Bayer ocupou no ano passado a quinta posição (ver infográfico). Segundo a Kleffmann, a divisão do mercado brasileiro não é muito diferente.

"A diferença é que para soja a gente tem uma presença maior d marcas regionais, principalmente argentinas", disse Farah. No ano passado, a Monsanto foi a líder no mercado brasileiro de sementes, levando em conta as três principais culturas: soja, milho e algodão. A DuPont veio em seguida, à frente do Grupo Don Mario, da Nidera e da Dow Agrosciences. A Bayer CropScience ficou em sétimo lugar.

No segmento de defensivos, o glufosinato é um importante complemento para a Basf, já que se trata do herbicida ao qual a semente LibertyLink é tolerante. "A diferença do glufosinato para o glifosato [ao qual a tecnologia Roundup Ready, da Monsanto, é tolerante], é o custo por hectare. Mas, se a resistência das ervas daninhas ao glifosato aumentar, o herbicida da Bayer passa a ser a principal alternativa", afirmou o diretor da Kleffmann.

Durante teleconferência com analistas, executivos da Basf afirmaram que as vendas mundiais de glufosinato cresceram 17% ao ano entre 2014 e 2016 e chegaram a € 495 milhões no ano passado, com uma fatia de 10% da receita originada na América Latina e 55% em países da América do Norte.

O pacote de ativos negociado pela Bayer CropScience também inclui a transferência da propriedade intelectual e instalações relevantes. Somente neste ano, a alemã inaugurou no Brasil quatro centros de pesquisas em polos produtores: Sinop (MT), Porto Nacional (TO), Ibiporã (PR) e Trindade (GO). Com eles, já são oito centros no país.

A transação não contempla uma área chamada de "outras frentes de negócio", como a unidade de sementes de frutas e hortaliças e os negócios de sementes de arroz e trigo. No Brasil, os projetos Surecane – projeto integrado para áreas comerciais de cana-de-açúcar e biotecnologia nessa cultura, ainda fazem parte do guarda-chuva da Bayer CropScience.

Por Kauanna Navarro | De São Paulo

Fonte : Valor