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Pecuária deverá sofrer por mais um mês

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Diante do acúmulo de estoques provocado pelos embargos impostos às carnes brasileiras e do enfraquecimento da demanda doméstica ocasionado pela Operação Carne Fraca, a cadeia produtiva da carne bovina levará ao menos um mês para se recompor, agravando a situação dos pecuaristas brasileiros.

A súbita parada do mercado na semana passada, quando a indústria pisou no freio e fez pouquíssimos negócios com pecuaristas, levou o Banco do Brasil a prorrogar, por um ano, o prazo de pagamentos de créditos para custeio e investimento que venceriam de março a junho.

"O objetivo do Banco do Brasil é apoiar os produtores rurais pecuaristas que possam apresentar dificuldade momentânea para comercializar sua produção", informou o banco, em nota. A medida pode beneficiar 77 mil clientes que, ao todo, têm R$ 4,7 bilhões em créditos passíveis de prorrogação. Além disso, o banco anunciou a criação de duas linhas de créditos, somando R$ 1 bilhão. O montante pode ser tomado pelos pecuaristas para financiar a retenção de bezerros e a aquisição de gado para recria e engorda.

A decisão do banco representa um respiro para os produtores, especialmente porque a normalização dos abates de bovinos levará mais tempo do que o imaginado. Embora empresas como a Minerva já venham retomando aos poucos o nível de abate – a companhia chegou a reduzir a produção em até 10% -, a líder JBS decidiu estender a paralisação parcial da produção e informou que concederá férias coletivas de 20 dias, a partir de segunda-feira, em dez de suas das 36 unidades de abate de bovinos (ver mapa com a lista de unidades). Na semana passada, 33 frigoríficos da JBS foram parados por três dias, e o nível de abates foi cortado em 35% esta semana.

Com as férias coletivas anunciadas, o mercado de bovinos, que já andava devagar, deve demorar mais para voltar ao normal, com reflexos negativos sobre os preços. "Esse é um dos problemas provocados pela concentração do mercado. Pagaremos por isso", afirmou Pedro de Camargo Neto, vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), que é pecuarista.

Em nota, a JBS informou ainda que, se necessário, as férias poderão se estender por mais dez dias, o que também provocou apreensão entre os trabalhadores – a companhia tem 125 mil empregados no país.

Em audiência pública na comissão de Direitos Humanos do Senado para debater os impactos da Operação Carne Fraca, a Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação e Afins (CNTA) propôs ontem um compromisso "público-privado" pela manutenção dos empregos no setor pelo prazo mínimo de seis meses.

A entidade também manifestou, em comunicado, sua preocupação com o "grande número" de unidades da JBS que entrarão em férias coletivas. Para a CNTA, não há garantia de manutenção dos empregos e tampouco do retorno das atividades dos dez frigoríficos da JBS.

Ao anunciar as férias coletivas, a JBS ressaltou estar "empenhada na manutenção do emprego dos seus 125 mil colaboradores". De acordo com a empresa, a suspensão do funcionamento das plantas é "imprescindível" para ajustar os volumes de produção e normalizar os níveis de seu estoque.

Embora os embargos mais relevantes – de Hong Kong, China, Egito e Chile – já tenham sido retirados, houve represamento dos embarques na semana passada e agora será preciso "reescalonar a programação de embarques de produtos para os clientes do mercado externo", justificou a JBS, em nota.

Conforme executivos de grandes exportadores de carne bovina ouvidos pelo Valor, escoar a produção que ficou estocada levará de três semanas a um mês. Entre outros motivos, isso acontece porque, embora alguns embargos tenham durado apenas uma semana, a burocracia atrasa a retomada das vendas. O Chile, por exemplo, anunciou a reabertura do mercado no sábado, mas o documento que oficializa a liberação só chegou ontem. Com isso, o embargo efetivo foi de quase uma semana e meia. No ano passado, o país foi o sexto maior comprador de carne bovina do Brasil.

Um executivo também observou que é preciso se preocupar com a reação comercial de importadores, que certamente tentarão barganhar e reduzir o valor pago pela carne. Nesse cenário, as exportações podem demorar para voltar ao normal dada a queda de braço por preços.

Por Fernando Lopes e Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor