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Pecuaristas sofrem com mais uma seca

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Assis Moreira/ValorMuitos pecuaristas estão insolventes, lamenta Michael Flynn, de Milbong

Michael Flynn tira o chapéu de caubói e passa a mão na cabeça visivelmente desapontado quando desce do carro para mostrar ao repórter o que afirma ser a melhor parte de sua propriedade no momento: a grama está quase esturricada e o gado, mais magro. Em Milbong, a uma hora de carro da maior planta de processamento de bovinos da JBS Austrália, a situação enfrentada por Flynn ilustra o desafio da empresa brasileira para ampliar a produção no país, que representa quase um quinto do comércio global de carne bovina.

Embora a seca seja um fator corriqueiro na gestão de desafios da indústria australiana de carne, a estiagem atual tem algo de única, afirma Flynn, que tem 5 mil hectares e 5,2 mil cabeças de gado. "Desta vez tem mais pecuaristas vendendo e saindo da produção". Ele diz que, normalmente, produz 1,4 mil bezerros por ano, mas que em 2014 só conseguiu produzir metade disso. "Essa seca em particular tem efeitos mais devastadores, porque coincide com uma década de mercado ruim, onde conseguimos preços muito baixos enquanto os custos continuavam a subir. E a taxa de cambio, com o dólar australiano valorizado, golpeou a lucratividade ainda mais", afirma.

A alguns quilômetros dali, Flynn apresenta seu vizinho Brian Hayes. Sem grama por causa da seca, Hayes é forçado a comprar feno para seus animais. Ele tem 100 cabeças de gado, e conta que gasta 2,40 dólares australianos por animal por dia. "O jeito é vender", diz. O cenário tem motivado um número recorde de abates e a matança de fêmeas aumentou, por causa da falta de alimento e água. Este ano, o abate de fêmeas representou 44% do total, ante uma taxa que normalmente é de 36%. Acima de 40%, o resultado será a redução do rebanho nacional. Enquanto isso, a taxa de produção de bezerros continua baixando.

A seca tem sido tão dura que os pecuaristas têm de esperar até três meses para levar os animais ao abate, já que as indústrias trabalham a plena capacidade. "O problema é que, em três meses, muitos animais estão fracos para viajar ou já morreram", conta Flynn. "Há pecuaristas que levam o gado para a planta de processamento mas não conseguem vender, porque o gado está tão fraco que não se mantém em pé e não satisfaz as exigências".

Como boa parte dos criadores está desesperada para vender, o preço desabou. "Houve um crash no mercado e estamos conseguindo menos da metade do preço que os produtores da Nova Zelândia", diz Flynn.

Também veterinário e personagem influente na região, Michael Flynn diz que a maioria dos pecuaristas está focada em manter o que resta de seu rebanho para recuperá-lo quando voltar a chover. Mas um grande numero de pecuaristas está insolvente, diz.. Outro problema iminente, diz, é que se a seca for subitamente interrompida por muita chuva, como normalmente ocorre na Austrália, muito gado fragilizado poderá morrer, sem forças para se manter na chuva ou sair da lama.

Nesse contexto, o governo conservador engavetou sua resistência aos subsídios e forneceu mais de US$ 300 milhões de ajuda aos pecuaristas. A subvenção é limitada a entre 20 mil e 30 mil dólares australianos por propriedade, a depender da duração da seca. "Para propriedades como a minha, com perdas de meio milhão de dólares, o efeito prático (da ajuda) é limitadíssimo, mas resta o efeito psicológico de saber que o governo pode oferecer socorro em algum momento", afirma Flynn.

A planta da JBS em Dinmore chegou a operar sete dias por semana. Hoje, mesmo com mais animais disponíveis e compras semanais de 35 mil cabeças de gado, opera cinco dias. Abate e exportação cresceram, mas os riscos perduram. A Associação de Produtores de Carne do país prevê que o rebanho cairá 700 mil cabeças este ano, para 27,5 milhões.

Conforme o Abares (instituto de pesquisa agrícola do governo australiano), em 2014/15 os ganhos com a exportação de carnes podem variar de 2%, no caso de carneiro, a 7% no de bovinos, compensando, em parte, as quedas dos preços do trigo, do algodão e de lácteos.

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Fonte: Valor | Por Assis Moreira | De Milbong (Austrália)