Pecuaristas dos EUA ampliam rebanhos e preço do boi recua

Pela primeira vez em quase dez anos, os criadores da principal região de produção de gado bovino dos Estados Unidos estão ampliando seus rebanhos, apostando que a trégua atual numa seca de vários anos vai continuar.

O movimento dos pecuaristas está empurrando para baixo os preços do boi, que atingiram recordes de alta em 2014. Isso pode levar a uma queda nas cotações da carne nos supermercados americanos, embora os preços dos filés e hambúrgueres ainda não tenham recuado dos recordes atuais.

"Três anos atrás, não tínhamos pasto para alimentar uma cabra, quanto mais uma vaca", diz o pecuarista Rex McCloy, enquanto observava os bezerros recém-nascidos em sua ampla fazenda em Morse, no Estado do Texas. Agora, ele e seus filhos estão aumentando o rebanho, no intuito de lucrar com os preços altos do boi e gastos menores com ração.

Tal entusiasmo renovado na região das Grandes Planícies, que corta os EUA a partir do Texas, ajudou o rebanho bovino americano a se expandir em 2014 pela primeira vez em oito anos, embora a oferta permaneça próxima da mínima de 60 anos atingida em 2013.

Os preços do boi e da carne nos EUA dispararam no ano passado, depois que quatro anos de seca severa dizimaram os rebanhos das Grandes Planícies. Mas a expectativa de que os estoques irão crescer está levando alguns investidores a apostar em um período longo de preços menores para gado pronto para o abate.

"Estou pessimista", afirma Dennis Smith, corretor da Archer Financial Services baseado em Chicago. "Em minha opinião, o mercado de boi já atingiu seu pico no futuro previsível."

Os preços no mercado futuro de boi caíram cerca de 9% este ano, em parte devido à melhora no cenário de oferta. A queda no número de animais foi compensada parcialmente por operadores de confinamentos – que engordam bois para o abate e os vendem para os frigoríficos -, que levaram os animais a pesos recorde. Na terça-feira, os futuros do boi para entrega em junho subiram 1,225 centavo de dólar (0,82%), para US$ 1,51475 a libra (cerca de 0,45 quilo), na bolsa de Chicago. Ainda assim, os preços caíram 11,42% desde o recorde de US$ 1,71 registrado no segundo semestre do ano passado.

Até agora, os consumidores americanos ainda não se beneficiaram muito com a expansão do rebanho. Esse fato é ressaltado por um relatório divulgado nesta semana pelo Departamento de Agricultura dos EUA, o USDA, que elevou para cerca de 1,4 milhão de toneladas a previsão de importação de carne do país, 6% a mais que em 2014, uma vez que o suprimento doméstico foi reforçado por carne proveniente da Austrália, Brasil, México e Nova Zelândia. O USDA estima que os preços da carne no varejo ainda subirão entre 5% a 6% este ano, mas já bem abaixo dos 12% registrados em 2014.

O ciclo de vida relativamente longo de um bovino é uma das causas do aperto da oferta de curto prazo. Para cada bezerra que nasce, o pecuarista tem que decidir se envia o animal para a engorda ou o reserva para reprodução. Normalmente, novilhas não são usadas para reprodução até que atinjam uma idade entre 10 e 18 meses, o que faz com que alguns analistas estimem que a produção de carne bovina dos Estados Unidos não começará a crescer antes de 2016.

Mas, mesmo em lugares como o norte do Texas, onde ainda paira a incerteza sobre o fim da seca, o mercado de boi altista de 2014 renovou o otimismo de que criar vacas e novilhas para procriar é novamente um negócio lucrativo.

McCloy, que tem 60 anos, e seus dois filhos investiram cerca de US$ 3 milhões desde meados de 2013 para adicionar 2.100 bovinos ao seu rebanho. Foi uma grande mudança para a família, que antes se dedicava principalmente ao plantio de algodão, milho, trigo e soja. Mas os preços dos grãos despencaram nos últimos três anos devido ao crescimento da produção americana e global.

"Por cinco ou dez anos, os preços foram altos o suficiente para sustentar o foco na lavoura, mas isso acabou", diz Mike McCloy, filho mais velho de Rex. "A margem praticamente acabou, então faz sentido priorizar a pecuária."

Os preços no mercado futuro do boi vendido aos confinamentos saltaram 32% no ano passado, na Bolsa de Chicago. Os preços recorde deram a pecuaristas como os McCloys mais dinheiro para investir na ampliação do rebanho. A cotação dos futuros do boi gordo recuou 2% no acumulado do ano, uma vez que operadores de confinamentos reduziram os preços que estão dispostos a pagar pelos jovens novilhos, em face da queda da receita com o gado bovino pronto para o abate.

"O ano passado, de longe, deu os melhores retornos da história [a este segmento do setor]", diz Jim Robb, diretor do Centro de Informação de Marketing de Pecuária, uma associação do setor.

O rebanho bovino americano caiu 5,5% nos últimos dez anos diante da consolidação do setor de carnes e das secas registradas no centro e no sul dos EUA. Durante os períodos de seca e calor extremo, quando os pastos e as plantações de grãos secam, os custos dos pecuaristas disparam, o que força muitos a reduzir o rebanho para ter menos animais para alimentar.

Mas a seca perdeu força. Até o dia 5 de maio, 29,6% do Texas registrava algum nível de seca, abaixo dos 83,4% do mesmo período do ano anterior, segundo o Monitor de Seca dos EUA. Nacionalmente, 37% do rebanho bovino do país está em uma área afetada pela estiagem, ante 48% um ano atrás.

Nem todos os pecuaristas estão otimistas. Muitos continuam preocupados com o alto custo da terra para criar rebanhos maiores e da reprodução. Outros estão limitados pela escassez de mão de obra em algumas regiões.

Poucos quilômetros além da fazenda dos McCloys, James Lieb diz que provavelmente não aumentará seu rebanho por alguns anos. Lieb, de 48 anos, e sua família possuem cerca de 130 animais, embora esperem, um dia, poder retornar para algo em torno de 175, o número de cabeças que tinham antes de a seca chegar, em 2011. "Não quero gastar US$ 2 mil ou US$ 2.500 por uma novilha de reprodução e não saber se vou poder ter lucro em 2016", diz Lieb. "Não tenho certeza de que a seca acabou."

Fonte: Valor | Por Kelsey Gee | The Wall Street Journal, de Morse (Texas)