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Para evitar distorções, Cepea altera cálculos para indicador da soja

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Uma mudança na metodologia para a composição do indicador da soja Esalq/BM&FBovespa em Paranaguá entrará em vigor hoje. Termômetro dos preços da oleaginosa comercializada a partir de armazéns e silos no corredor de exportação do porto paranaense e balizador para liquidação financeira dos contratos SFI (soja financeira) na bolsa paulista, o indicador não vinha refletindo a realidade do mercado como deveria, o que gerou a necessidade de flexibilizar as regras que norteiam sua definição.

Um episódio recente que causou uma distorção reforçou a necessidade de "desengessar" a formação do índice, fator que também vinha prejudicando sua liquidez, disseram corretores ouvidos pelo Valor. Responsável pelo indicador, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), ligado à Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (Esalq/USP), manteve de 30 de março a 24 de abril – portanto, por 18 pregões consecutivos – a mesma cotação para o indicador: R$ 70,65 por saca. Porém, nesse período, os negócios no "mundo real" estavam sendo fechados entre R$ 65 e R$ 67, segundo operadores de mercado.

Esse descolamento da realidade, disseram fontes ao Valor, foi causado pela própria metodologia de cálculo do índice, que determinava a necessidade de ao menos cinco reportes de negócios para a definição da cotação. Essas informações são coletadas diariamente pela equipe do Cepea junto a uma rede formada por vendedores, compradores e intermediários, cujo número exato não é informado pelo centro de estudos. Caso os cinco reportes não fossem atingidos, o valor da data anterior era repetido.

A nova norma estabelece que, nos dias em que o relato de negociações for igual ou inferior a dois, o indicador poderá refletir os preços ofertados para compra ou venda. A expectativa é que, com isso, ainda que a consulta diária do Cepea não detecte o fechamento de negócios, o indicador passe a fazer um retrato mais próximo do que está acontecendo no mercado.

"Sentimos a necessidade de fazer mudanças no indicador desde que o porto começou a exigir o agendamento de entrega dos caminhões conforme os navios atracavam. Essa alteração reduziu o volume de soja em estoque e, consequentemente, o número de negócios no mercado spot no local", explica Lucílio Alves, professor da Esalq/USP responsável pelo indicador do Cepea. Ele garante que não houve pressão por parte da BM&FBovespa ou de participantes do mercado para alterar a metodologia.

O "congelamento" do indicador durante praticamente todo o mês de abril preocupou corretores que tinham clientes com posições vendidas no contrato com vencimento em maio (SFI K15). O valor de liquidação é fixado a partir da média dos três últimos índices antes do vencimento, e como a negociação do papel iria se encerrar em 29 de abril, cresceu o temor desses corretores de que os R$ 70,65 fossem ser mantidos e impusessem um prejuízo "irreal" a seus agentes – uma vez que esse valor chegou a estar quase R$ 4 por saca acima do efetivamente praticado no mercado.

Uma fonte relatou que tinha em sua carteira clientes que estavam com posições vendidas na faixa de US$ 22 por saca, mas que o indicador "artificialmente inflado" puxava esse nível de preços para a casa de US$ 23. "E o mercado estava mais próximo do nível de US$ 22, então eles poderiam até empatar, não ganhar nem perder nada. Mas acabaram expostos ao risco de um prejuízo ‘ilegítimo’", disse. A mesma fonte afirmou que achou "estranho" o Cepea se ver obrigado a repetir o índice, uma vez que a liquidez da soja tende a ser boa no atual período do ano, com a oleaginosa da safra 2014/15 recém-saída do campo.

Mas o indicador do Cepea acabou atualizado a partir do dia 27, segunda-feira, e na quarta, data do vencimento, ficou em R$ 65,01, 7,9% abaixo do valor que vigorou ao longo de boa parte do mês. Essa alteração não foi explicada pelo professor Alves. Procurada, a BM&FBovespa não quis comentar.

Segundo um outro corretor, essa distorção no indicador de preços já ocorreu outras vezes e é um dos fatores responsáveis pelo contrato da BM&FBovespa não ter alcançado grande liquidez. "Esse contrato não reflete os preços reais do mercado há tempos e quem o opera são apenas pequenos produtores que não conseguem abrir conta no exterior, em dólar, para trabalhar em Chicago", explicou.

O contrato SFI com vencimento em maio na bolsa paulista teve, no total, apenas 1.189 negociações. Para efeito de comparação, os lotes de soja para maio na bolsa de Chicago tiveram quase 13 mil negociações apenas na quinta-feira.

Fonte: Valor | Por Mariana Caetano e Fernanda Pressinott | De São Paulo