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Para acelerar avanço, Syngenta sinaliza rigor com custos

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À frente da área de pesquisa e desenvolvimento de proteção de cultivos da suíça Syngenta, responsável por investimentos superiores a US$ 10 bilhões na última década, o uruguaio Geraldo Ramos precisa controlar os custos para ajudar a desenvolver produtos que tornem realidade o projeto ambicioso da empresa de dobrar sua receita em um período de cinco a dez anos.

Ele lidera um dos três maiores centros de pesquisa da Syngenta, o Stein. Localizado na fronteira com a Alemanha, numa área de 6 mil metros quadrados, o centro tem 100 pesquisadores doutores de 27 nacionalidades, trabalhando atualmente em 50 projetos de ativos para novas fórmulas.

Ramos avalia que o maior desafio dos pesquisadores da Syngenta hoje é desenvolver defensivos e sementes que ampliem as vendas, mas não aumentem a relação entre o valor investido em pesquisa e a receita obtida. Entre 2006 e 2015, a Syngenta investiu US$ 11,2 bilhões teve receita acumulada de US$ 119 bilhões, uma relação de 9,4%. "Temos de dobrar o faturamento, mas sem dobrar as despesas. Mas, sim, teremos de gastar mais", admite.

A missão dos pesquisadores da empresa é criar produtos que atendam públicos bem diversos. Como o fazendeiro Patrice Schneider, com uma área de 120 hectares na região da Alsácia, na França, que tem produção de milho, trigo e beterraba, até os grandes produtores do cinturão agrícola dos Estados Unidos ou do Cerrado brasileiro.

Os custos para desenvolver um novo defensivo giram em torno de US$ 200 milhões e, com sorte, em seis anos esse produto chega na fase de registro de patente, segundo Gerardo Ramos. Por ano, a companhia investe US$ 1,3 bilhão em pesquisa e desenvolvimento.

Foi essa necessidade bilionária de investimentos que motivou o redesenho do tabuleiro global do agronegócio. No fim de 2015, a Syngenta deu início ao processo de consolidação no mercado com as negociações com a ChemChina, apenas dois meses após a americana Monsanto tentar comprar a companhia suíça, com uma oferta hostil de US$ 46 bilhões.

Em seguida, as americanas Dow Chemical e DuPont anunciaram uma megafusão e, em setembro, foi a vez de a alemã Bayer anunciar a compra da americana Monsanto. Esses movimentos ocorreram prometendo propiciar investimentos maiores em pesquisas em novas soluções, químicas e biológicas, nas áreas de sementes e defensivos.

"Se queremos manter nossa rentabilidade, então o que quer que seja que a gente faça, não podemos aumentar a porcentagem da receita que investimos", destaca o diretor da Syngenta.

Após a conclusão dessas transações no setor, a Syngenta poderá perder o posto de líder em proteção de cultivos para a concorrente Bayer. As duas estão muito próximas no ranking – a suíça tem 20% do mercado e a alemã, 19%. A Syngenta pretende ampliar a participação de mercado para algo em torno de 25%, segundo o presidente da companhia, Erik Fyrwald. "Se queremos permanecer sendo o número um, temos que desenvolver produtos para todos os cultivos e todos os fazendeiros", disse Ramos.

E esse é outro desafio: desenvolver tanto produtos para a soja no Cerrado brasileiro quanto para as hortaliças na Europa ocidental. "Desenvolvemos produtos aqui que têm um princípio ativo comum para todas as regiões do globo, mas fazemos ajustes. No fim, acaba sendo um produto bem diferente", disse a pesquisadora e diretora de operações Bettina Gsell.

Há vários testes até o produto sair do papel e chegar ao campo. "É um processo longo. Sai daqui do instituto de química, passa por testes em pequenos pedaços de folhas, estufas, salas climatizadas até chegar no teste em campo", explicou Fredrik Cederbaum, diretor químico da área de fungicidas. Todos os fungicidas e inseticidas são testados inicialmente no centro de pesquisa de Stein. As salas climatizadas e estufas do centro simulam ambientes do mundo inteiro para testar a eficácia dos produtos.

A jornalista viajou a convite da Syngenta

Por Kauanna Navarro | De Basileia (Suíça)

Fonte : Valor