Pé no freio – Dólar alto e juro maior às vésperas do plantio deixam agricultores cautelosos para a safra de verão

Cenário econômico faz produtores reverem projetos e adiarem negócios para reduzir risco de prejuízos

Dólar alto e juro maior às vésperas do plantio deixam agricultores cautelosos para a safra de verão Diogo Zanatta/Especial

Wagner adiou a compra de maquinário novo, como havia planejado em 2014Foto: Diogo Zanatta / Especial

A colheita de safra recorde de grãos no primeiro semestre conseguiu manter o agronegócio – diferentemente da indústria e do comércio – a uma boa distância da crise que assola a economia brasileira em 2015. Mas a inflação alta, o juro salgado e a disparada do dólar às vésperas do próximo plantio tiram o otimismo do produtor, que promete segurar investimentos e adotar cautela na segunda metade do ano.

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Só no último mês, a moeda americana subiu 10,16% e atingiu o maior valor em 12 anos. A escalada repentina preocupa, principalmente a quem deixou a compra de insumos para a última hora. A maior parte da matéria-prima, como agroquímicos, por exemplo, é importada, e os custos de produção deram um salto.

Os fertilizantes estão entre os itens que encareceram em um ano entre 20% e 32% dependendo da cultura, segundo dados da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).

– O produtor compra hoje insumo com dólar a R$ 3,40, mas com a forte oscilação cambial que vivemos não faz ideia a quanto vai colher a produção seis meses depois. Isso gera grande insegurança e inibe gastos futuros – explica o agrônomo Alencar Rugeri, da Emater.

O preço mais alto do diesel e da energia elétrica também pesa no orçamento e mina a confiança dos produtores, que vêem o custo operacional de suas lavouras aumentar em aspectos que têm pouca ou nenhuma margem para fazer economia.


(Foto Diogo Zanatta, Especial)

Foi justamente o aumento das despesas e a incerteza dos ganhos que fez o produtor Antônio Augusto Wagner, de Passo Fundo, no norte do Estado, decidir segurar os investimentos nos próximos meses. O projeto de comprar máquinas novas, acalentado desde 2014, ficou para o ano que vem. Isso se a economia “dar sinais de melhora”, conta.

– Começou a complicar. Aquelas condições que pareciam muito favoráveis já não são mais. O juro está alto e não dá para saber quando a crise política vai melhorar. É hora de botar o pé no chão – conta.

A prudência em fazer novos gastos não é apenas do sojicultor do norte do Estado.
A queda brusca na venda de máquinas agrícolas em todo o país deixa empresários do setor em sinal de alerta. E nem mesmo o reforço no volume de crédito agrícola disponibilizado por meio do Plano Safra no início de junho deste ano foi suficiente para afastar a desconfiança de agricultores e pecuaristas, sentimento que já acompanhava empresários e donos de indústria há pelo menos dois anos.

Apesar da ampliação de 20% nas cifras em relação ao programa de 2014 – o montante passou de R$ 156,1 bilhões para R$ 187,7 bilhões –, boa parte do aumento de recursos oferecidos é a juros de mercado, geralmente acima da taxa básica, hoje em 14,25%, nada atraente para custeio nem para investimento e comercialização das várias atividades no campo.

O volume de crédito com juros controlados teve avanço bem menor. Além disso, o acesso ficou mais restrito.

– O agronegócio brasileiro mostrou que responde muito bem à oferta sistemática de crédito. Nos últimos 15 anos, aumentamos a produtividade em 65%, e isso não é pouca coisa.

O volume subsidiado no país ainda não é suficiente, cobre cerca de 40% das necessidades, mas o produtor conseguiu outras maneiras de se financiar e criou alternativas, como a troca antecipada – afirma Pedro Arantes, economista da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (FAEG), responsável por um amplo estudo sobre o crédito agrícola praticado no Brasil nas últimas décadas.

Além da piora no ambiente de negócios no país, a maior oferta de grãos no Brasil e no mundo e preços mais baixos ditam agora margens de rentabilidade apertadas.

– O clima para o segundo semestre é de preocupação. Temos de encontrar maneiras de aumentar a produção e a rentabilidade, diminuindo custos. Não podemos contar com a quebra na safra americana para ter um preço atrativo – alerta Antônio da Luz, economista-chefe do sistema Farsul.

Desconfiança emperra venda de máquinas

Apesar da queda brusca no comércio de máquinas agrícolas no ano passado, as projeções eram de que 2015 pudesse ser de recuperação nas vendas. Não foi o que ocorreu no primeiro semestre. O recuo de 25% nos negócios fez empresários do setor começarem a olhar a segunda metade do ano – quando os produtores já teriam em mãos parte do crédito subsidiado do Plano Safra – como um período de redenção. Mas também não foi o que aconteceu, pelo menos até agora.

– Eu tinha esperança de que o segundo semestre fosse melhor, mas não há reação nas vendas. O produtor está assustado. Contamos com a Expointer para alavancar negócios – diz Claudio Bier, presidente do Sindicato da Indústria de Máquinas e Implementos Agrícolas do Estado (Simers).

Presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Pedro Bastos de Oliveira diz que, além do pessimismo com a crise, há outros dois fatores que contribuem para a retração: a elevação da taxa de juro do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) e do Moderfrota, de 4,5% para 7% e 7,5%, respectivamente, e a redução da rentabilidade da soja.

A política de crédito costuma impactar diretamente nos números do setor e foi um dos responsáveis pelo excepcional resultado de 2013, quando o governo reduziu o custo do empréstimo para 2,5%, estimulando a compra de tratores e colheitadeiras. De lá para cá, a taxa subiu para 4,5% e, desde março deste ano, chegou a 7% para pequenos produtores e 9,5% aos grandes. O aumento acompanhou a taxa básica (Selic) e ocorreu como parte do ajuste fiscal do governo.

Com as vendas em declínio, a indústria reforçará as estratégias para a Expointer, com diversificação de  máquinas e alternativas de crédito, como receber parte do pagamento em grãos. Se a tática der certo, a crise, que em outros setores é uma tempestade, pode ser apenas um vento forte para o agronegócio.

Dólar alto ajuda exportações, mas ganhos podem não ser suficientes


O apetite chinês por grãos e a produção americana dificultam a projeção sobre os preços da oleaginosa (Foto Sâmar Razzak, APPA, Divulgação)

É verdade: o mesmo dólar que torna mais caro a compra de insumos para a lavoura agora poderá tornar a produção gaúcha mais competitiva no mercado internacional em
alguns meses. O ganho obtido com a apreciação cambial, no entanto, não vai parar integralmente no bolso do produtor.

O apetite chinês por grãos e a magnitude da produção americana geram dúvidas, inclusive entre especialistas, e dificultam a projeção de preços no período de colheita. A turbulência vivida no mercado asiático nas últimas semanas – em julho, a Bolsa de Xangai despencou 14% – traz incerteza sobre o ritmo de desaceleração da principal economia asiática.

Tomás Torezani, da Fundação de Economia e Estatística (FEE), ressalta que o sobressalto pode sinalizar recuo na procura e nos preços e, também, redução nos valores em dólar exportados no Brasil, mesmo com avanço do volume.

Outro aspecto relevante é a dimensão do impacto da chuva que atingiram o Meio-Oeste dos Estados Unidos, um dos principais produtores de grãos no mundo, no final de junho. A possibilidade de uma safra de recorde de soja no país é cada vez menos provável, mas o tamanho da queda na produção ainda é incerto.

Para o consultor em agronegócio Farias Toigo, se a oferta americana ficar abaixo de 100 milhões de toneladas, o preço pode subir no Brasil:

– A cotação mais alta do dólar ainda não foi capaz de compensar as recentes quedas no preço da soja na Bolsa de Chicago, que baliza os negócios no mundo. Mas a expectativa é de que o bushel, hoje em torno de US$ 9,50, encerre o ano entre US$ 12 e US$ 13.

Clima exige mais cuidado

Economista-chefe do sistema Farsul, Antônio da Luz é mais ponderado sobre possível queda na produção dos Estados Unidos. O dólar mais alto no Brasil favorece a exportação, e a maior oferta de um dos principais produtores mundiais costuma colocar o preço para baixo:

– De um lado, pode haver menor oferta americana, mas de outro há maior produção brasileira no mercado. Nem toda valorização do dólar se reflete em ganho ao produtor gaúcho. É preciso relativizar.

Além disso, o clima pode ser um complicador também na produção gaúcha. A presença do El Niño exige cuidado, alerta o metereologista Glauco Freitas, da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro):

– Vai ser um período de grande variação climática, com muita chuva em curtos períodos. Vamos ter veranicos, com temperaturas acima da média. Não são condições muito favoráveis e exigem que o produtor se prepare melhor.

Por: Cadu Caldas

Fonte : Zero Hora