Outra temporada de fracos resultados para as usinas

Assim como quem corre numa esteira ergométrica, as usinas de cana-de-açúcar do Centro-Sul do Brasil tendem, apesar do esforço, a permanecer no mesmo lugar nesta safra 2013/14. No melhor dos cenários, isso quer dizer repetir os resultados do ciclo anterior. A premissa, válida para os eficientes, significa que as empresas devem novamente ver seus ganhos de escala serem anulados por custos crescentes e preços do açúcar em declínio.

Para especialistas, será uma safra mais desafiadora que a anterior, marcada por baixa geração de caixa e endividamento persistente. Isso porque os preços do açúcar estão 27% mais baixos e a demanda por etanol segue fraca, apesar dos preços mais convidativos ao consumidor. "A safra será mais alcooleira, mas a demanda pelo biocombustível ainda não cresceu como se esperava. A receita das usinas deve ser maior, pois há mais cana para moer. No entanto, a tendência é de margens acanhadas", diz o diretor-executivo do Grupo USJ, Narciso Bertholdi.

Os balanços publicados em diários oficiais pelas usinas de médio porte com capital fechado referentes à safra 2012/13 confirmaram o que já se vinha antevendo a partir dos balanços trimestrais divulgados pelas grandes companhias do setor: a geração de caixa da operação não cresceu. Análise com cinco grupos médios (entre 7 milhões e 10 milhões de toneladas de capacidade/ano) mostrou que a geração de caixa operacional de todos eles caíram, em alguns casos, mais de 50%.

Todos os cinco grupos registraram também dívida líquida de 7% a 51% maior, resultado da necessidade ainda elevada de investimentos na operação. "Na safra passada, os aumentos de custos consumiram ganhos de escala e os custos unitários ficaram no mesmo patamar", explica o sócio da consultoria FGAGRO, Luiz Gustavo Torrano Correa.

Com três usinas que somam capacidade de moagem de 9 milhões de toneladas de cana por safra, o grupo paulista Clealco conseguiu no exercício encerrado em 31 de março deste ano reduzir a R$ 73,58 por tonelada o custo total de seus produtos vendidos – que no ciclo anterior havia sido de R$ 79,72 por tonelada. "O custo subiu, mas ao moer mais cana, conseguimos diluí-lo", explica o contador do grupo Clealco, Mário Henrique Sellis Porteira.

A geração de caixa vinda da operação, no entanto, caiu 36%, para R$ 182,1 milhões em 2012/13. Parte dessa retração, afirma Porteira, pode ser explicada pela diferença de estoques entre as duas safras. Em 31 de março de 2012, os armazéns da empresa estavam vazios. Já em 31 de março deste ano, havia armazenado produtos com custo de R$ 10 milhões e valor de mercado próximo de R$ 30 milhões, segundo o contador.

Além das dificuldades operacionais, um dos grupos avaliados também enfrenta um profundo ajuste financeiro. A Renuka do Brasil, empresa com duas usinas em São Paulo controladas pela indiana Shree Renuka Sugars, conseguiu recuperar a moagem – que saiu de 6 milhões para 7,250 milhões de toneladas- e comemorou redução de custos da ordem de 12% a 15%, segundo o presidente da empresa, Paulo Zanetti.

No entanto, preços mais baixos do açúcar limitaram a geração de caixa operacional a R$ 224 milhões, 54% de queda. Além disso, a necessidade de investimentos ainda é grande. A empresa aplicou, na safra 2012/13, R$ 159 milhões em "ativos imobilizados" e R$ 170 milhões na área agrícola, montantes que, se somados, superam a geração de caixa operacional. Exercem ainda um grande peso as despesas com pagamento de juros. Em 2012/13, a Renuka do Brasil teve prejuízo financeiro de R$ 246 milhões.

Apesar da capitalização de R$ 180 milhões – informada em seu balanço como "adiantamento para futuro aumento de capital", a Renuka do Brasil verificou ao fim de março deste ano um aumento de 7,4% em sua dívida líquida, para R$ 1,4 bilhão – R$ 350 milhões no curto prazo.

Com exceção da Renuka do Brasil, os outros grupos que fazem parte da análise são tradicionais produtores de açúcar e etanol do Centro-Sul. Apesar da presença da família nos negócios, esses grupos são conhecidos no mercado pela boa gestão operacional e financeira, o que, no entanto, não os isentou de resultados mais retraídos.

A Usina Colombo, grupo tradicional com três usinas em São Paulo, teve um lucro 76% menor em 2012 (ano civil) e suas operações acabaram tirando do caixa R$ 180,5 milhões, após o pagamento de juros e impostos sobre o lucro. No exercício anterior, a operação havia gerado R$ 26,6 milhões.

O diretor-superintendente do grupo, Gilberto Colombo, observa que os preços do etanol e principalmente os do açúcar recuaram muito no último ciclo. Para 2013/14, ele não vê melhora de cenário. Colombo espera até um faturamento bruto 10% maior, uma vez que a moagem vai subir para 8 milhões de toneladas, ante as 7,250 milhões de 2012/13. "Mas a lucratividade não será melhor", afirma.

O caixa gerado pela operação do grupo USJ também foi menor no ciclo 2012/13 do que no anterior. O grupo, um dos mais tradicionais do país, controla uma usina de cana em São Paulo e tem 50% de uma joint venture (SJC Bioenergia) também em processamento de cana-de-açúcar, em Goiás, com a multinacional Cargill.

No exercício encerrado em 31 de março deste ano, a atividade operacional gerou R$ 151 milhões ao caixa do USJ, queda de 48%. A redução da geração de caixa operacional está diretamente ligada ao menor lucro do exercício. Foi também impactada pelo fato de que, na segunda metade da safra, a unidade de Goiás passou a ser apenas 50% consolidada no balanço da empresa.

Da mesma forma, o grupo Zilor também teve um menor caixa líquido gerado a partir de suas operações. Esse montante recuou para R$ 214,7 milhões, 43% de queda em relação ao caixa operacional líquido do ciclo anterior. A empresa informou que a redução se deveu ao fato de no exercício anterior ter havido a contabilidade de 15 meses de operação. Além dessa diferença de três meses, o desempenho também foi impactado pelo ajuste de seu ativo biológico (canavial), que foi negativo em R$ 89,4 milhões.

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Fonte: Valor | Por Fabiana Batista | De São Paulo