Os poderes da aveia

Fonte:  Globo Rural

Reconhecido como alimento funcional, o cereal tem mercado certo e faz safra brasileira superar a da Argentina

por Luciana Franco | Fotos Ernesto de Souza

Editora Globo

A colheita em Tibagi (PR) começou em julho e deve terminar em setembro

O plantio de aveia é relativamente novo no Brasil. Ganhou fôlego na década de 1970, quando as pesquisas para o desenvolvimento de novas variedades foram intensificadas. Nesses 40 anos, o país passou de importador a autossuficiente na produção do cereal e hoje se tornou o maior produtor da América Latina, com safra estimada em 379 mil toneladas neste ano, superando a Argentina, tradicional produtora do cereal, que chegou a colher 695 mil toneladas em 1990, mas assistiu, nas últimas décadas, à derrocada de sua produção interna, para as atuais 345 mil toneladas, volume projetado para este ano. Além do aumento da produção nacional, o perfil das últimas safras também mudou e o cereal, que começou a ser cultivado no país como forrageiro (destinado à nutrição animal), ganhou novo status a partir de 2000, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o reconheceu como alimento funcional. Com isso, o cultivo da aveia preta foi quase integralmente substituído pelo da aveia branca.

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Alimentos funcionais são aqueles que, além de altos valores nutricionais, carregam características que contribuem para a manutenção da saúde e a redução de doenças. No caso da aveia, além de cálcio, ferro, proteínas, vitaminas, carboidratos e fibras, ela contém beta-glucana (fibras solúveis), que contribui para o bom funcionamento intestinal e para a redução do colesterol. Estudos publicados em revistas científicas indicam ainda que o consumo contínuo de aveia controla a quantidade de açúcar do sangue, a pressão arterial e a formação de placas de gorduras, que causam doenças cardiovasculares.

Desde que a aveia foi reconhecida como alimento funcional, sua produção no Brasil cresceu 14,6%. O aumento reflete o ganho de 85% na produtividade das lavouras na última década. Por se tratar de uma planta mais rústica que o trigo e mais resistente ao frio, seu cultivo surgiu como opção de cultura de inverno e se concentra no sul do País, com grandes lavouras no Paraná e no Rio Grande do Sul.
No Paraná, o cultivo do cereal se concentra na região norte central do estado, hoje considerada o maior centro produtor do Brasil. Lá, o plantio da aveia sucedeu ao da aveia preta (forrageira) e ao da cevada cervejeira, que foram testados na rotação entre as culturas de inverno. Um dos pioneiros no cultivo de aveia na região foi o agricultor Deoclides Leopoldo Müller, que em 1978 levou de Passo Fundo (RS) as primeiras mudas que plantou em sua propriedade situada em Marilândia do Sul. Müller mantém hoje 1,2 mil hectares cultivados quase integralmente com aveia no inverno. Apenas 10% são destinados ao cultivo de trigo. “Desde que experimentei a aveia, prefiro ela ao trigo, pois o custo de produção é mais baixo, ela se porta melhor no frio e o rendimento da lavoura é melhor”, avalia o agricultor.
Apesar das inúmeras vantagens no campo, o comércio desse cereal nem sempre foi fácil e, até o final da década de 1990, os agricultores que se arriscavam no cultivo não tinham preço definido para o grão e vendiam sua produção, invariavelmente, para atravessadores. “Foi somente em 1998, quando me tornei fornecedor da SL Alimentos, que passei a receber uma remuneração adequada pelo cereal”, conta Müller. O agricultor é um dos 150 fornecedores da empresa, que comercializa cereais de aveia, trigo, cevada, centeio, arroz, soja e linhaça. A SL produz as marcas próprias das empresas Nestlé, Kraft Foods, Yoki, Kellogg´s, Jasmine e Nutrimental, entre outros clientes. O carro-chefe da companhia é a fabricação de aveia sob a forma de flocos, flocos finos, farinha integral, aveia tostada, oat bran (farelo com maior concentração de fibra solúvel) e oat fiber (farelo com maior concentração de fibra alimentar). A indústria, situada em Mauá da Serra (PR), recebe mensalmente 35 mil toneladas de grãos, dos quais 25 mil toneladas são de aveia.

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Deoclides Müller, produtor de Marilândia do Sul (PR), entrega sua safra de aveia na SL Alimentos

Com 13 anos no mercado, a SL Alimentos foi a mola propulsora desse segmento. “Como nos Estados Unidos a aveia já era reconhecida como alimento funcional desde 1997, fizemos em 1999, em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), uma petição à Anvisa solicitando que o mesmo acontecesse aqui. Em dezembro de 2010, a Anvisa atendeu a nosso pedido”, conta Thomas Setti, diretor industrial da SL. A decisão da Anvisa tem ajudado a mudar os rumos da cadeia da aveia, “pois as pessoas estão cada vez mais buscando alimentos funcionais para combater doenças e o cereal oferece muitos benefícios contra obesidade e doenças cardíacas”, diz Setti.
Para garantir o fornecimento de matéria-prima, a SL criou um sistema de parceria com os agricultores da região. A empresa pesquisa e desenvolve as variedades de sementes que lhe interessa e as comercializa aos agricultores. Oferece assistência técnica para acompanhar o desenvolvimento das lavouras e se compromete a comprar a produção total do agricultor. O contrato é anual e os preços pagos ao produtor oscilam de acordo com a qualidade do produto. “O principal indicador é o pH (acidez) da aveia. Quanto mais alto, melhor o preço”, conta Müller. Atualmente, os preços da aveia oscilam entre R$ 340 e R$ 360 por tonelada e quem opta pela cultura no inverno garante que os custos de produção são menores que os do trigo. O custo do plantio de um hectare de aveia se situa em torno de R$ 540, enquanto o de trigo é da ordem de R$ 620. “Mas a grande vantagem da aveia é o contrato pré-fixado de venda, o que não existe com o trigo”, avalia Müller.
A SL trabalha em parceria com institutos de pesquisa e universidades para o melhoramento genético das sementes de aveia. “A aprovação de uma nova semente leva em consideração os aspectos agronômicos (produtividade, precocidade e resistência às intempéries climáticas), adequação ao processo industrial e avaliação nutricional, que deve incluir alta quantidade de beta-glucana”, diz Luiz Meneghel Neto, superintendente da SL Alimentos.

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Ivo Arnt Filho fornece sua safra para a Pepsico

Ainda que seja uma cultura de inverno como o trigo, a aveia não é considerada uma commodity agrícola, mas sim um produto de valor agregado, e, depois que ganhou mercado certo, seu cultivo foi impulsionado. Ivo Arnt Filho, de Tibagi (PR), é um dos agricultores que foram beneficiados com a modernização da comercialização. Herdeiro da Fazenda Nhá Tota, que foi de propriedade de sua bisavó, ele iniciou, em 1984, a rotação das culturas de inverno na propriedade. “Plantei cevada, canola, aveia e trigo. Resolvi ficar com trigo e aveia. Hoje, destino 60% da área de cultivo de inverno para a produção de aveia, pois a instabilidade das políticas para o trigo não me anima a investir muito nesse grão”, diz Arnt Filho.
Entre 1995 e 2001, o agricultor vendia sua safra de aveia para atravessadores a preços instáveis, porém, a parceria que firmou com a empresa Pepsico lhe deu segurança para ampliar o cultivo. Atualmente, ele é um dos 14 agricultores que fornecem o cereal para a empresa fabricar a tradicional aveia Quaker, marca criada em 1901 nos EUA. “No campo, a aveia sempre apresentou bons resultados, pois pode ser plantada mais cedo que o trigo, o que ajuda a evitar que as lavouras sejam atingidas por geadas ou chuvas de granizo, e também é mais resistente à seca e ao frio. A parceria com a empresa Pepsico me ajudou muito na comercialização do grão”, diz Arnt Filho.

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Evolução do logotipo da aveia mais antiga do país, com 110 anos

A Pepsico implantou o programa de parceria com agricultores em 1996 para formalizar a operação de compra e venda de matéria-prima. Os primeiros parceiros foram os produtores de batata para os salgadinhos Elma Chips. “Conseguimos uma série de melhorias na cadeia de batatas. Resolvemos então expandir para a aveia”, conta Newton Yorinori, diretor agrícola da Pepsico. Entre os resultados obtidos com as parcerias no campo, a empresa conseguiu reduzir perdas e padronizar a produção de importantes matérias-primas. A Pepsico também investe em pesquisa e desenvolvimento. “Temos um grupo de pesquisadores que trabalha num projeto que busca desenvolver variedades de aveia com maior quantidade de beta-glucana”, diz Yorinori.

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