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Operação afeta preços de milho e soja no país

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A Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, também resvalou no mercado de grãos do país. Os preços de milho e soja – matérias-primas da ração de aves e suínos – já vinham caindo no mercado externo, e a operação gerou insegurança e desestimulou negociações no mercado doméstico.

"Essa operação gerou uma especulação forte em relação à demanda e colaborou com a pressão no mercado interno ", disse o analista da Scot Consultoria, Rafael Ribeiro.

O milho vinha sofrendo grande pressão em decorrência das previsões de safras abundantes nos principais países produtores e da relação cambial desfavorável ao produto brasileiro, o que desestimula as exportações. Nesse cenário, o mercado doméstico poderia ser um alento para o produtor de grãos brasileiro, mas, após a Operação Carne Fraca, tornou-se vilão em poucos dias.

Com a operação da PF, a qualidade das carnes brasileiras foi posta em questão e as grandes indústrias envolvidas na operação – JBS e BRF – praticamente paralisaram as compras de milho no país. Segundo um analista do setor, as duas empresas compram de 35% a 40% da produção brasileira de milho para a fabricação de ração.

Segundo o indicador da Esalq/BM&FBovespa, desde que a Carne Fraca foi deflagrada, o milho caiu 13%. "Existe uma preocupação. Cerca de 70% do milho produzido vai para o mercado interno. E o comprador está segurando os negócios", disse Ribeiro.

Os receios em relação à demanda de grãos pelo setor de proteínas animais no curto prazo persistem. Na última semana, as cadeias exportadoras de carnes de frango e suína deixaram de exportar US$ 40 milhões, de acordo com cálculo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Mas a tendência é que esse quadro seja revertido à medida que as restrições forem retiradas. China, Egito e Chile, por exemplo, decidiram retomar as compras de carnes do país, mantendo a restrição apenas aos 21 estabelecimentos investigados na operação da Polícia Federal.

A pressão no mercado de soja foi menor. "Claro que há uma pressão, cerca de 38% da demanda total por farelo de soja vem do mercado interno", avaliou o pesquisador do Cepea, Lucilio Alves.

Ainda que as perdas da última semana no mercado de grãos sejam revertidas, a tendência continua sendo de baixa. "Vimos grande volatilidade na última semana. Mas os fundamentos, tanto para o milho quanto para a soja, são de queda", avaliou o analista do Rabobank Brasil, Renato Rasmussen.

No mercado de boi, as negociações também ficaram paradas e os preços cederam mais do que indicavam as tendências, segundo o analista da Scot. "Estamos em período natural de retração de preços, mas vimos muitos frigoríficos deixando de efetuar compras", disse. Ele acrescentou que os pecuaristas estão evitando realizar vendas nos preços ofertados no mercado atualmente.

Ainda que não seja possível mensurar o efeito no médio prazo em relação à confiança no mercado brasileiro de proteína, a expectativa é de que o impacto não seja duradouro. Relatório recente do banco Pine avalia que as restrições internacionais às carnes brasileiras não devem durar por mais que "um ou dois trimestres" e que a crise de confiança no produto deverá terminar ainda neste ano.

Por Kauanna Navarro | De São Paulo

Fonte : Valor