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Oferta limitada já acentua escalada do preço do trigo

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Diego Giudice/Bloomberg / Diego Giudice/Bloomberg
Colheita de trigo na Argentina no ano passado: foi uma das menores safras do cereal da história do país, que restringiu as exportações do cereal e de farinha

Prevista desde meados do ano passado, quando era evidente que a safra argentina que se desenvolvia seria pequena, a escassez de trigo neste segundo semestre no Brasil já se tornou uma realidade. O aperto começa a fortalecer uma tendência de aumento de preços do cereal que pressiona as margens dos moinhos e promete pesar também no bolso dos consumidores pelo menos até setembro, quando o escoamento da produção brasileira desta temporada 2013/14 tende a se fortalecer.

Termômetros desse movimento são os indicadores Cepea/Esalq para a tonelada de trigo negociada no Paraná e no Rio Grande do Sul, os dois principais Estados produtores do país. Mesmo com uma baixa de 0,63% registrada ontem, para R$ 877,61, o indicador do mercado paranaense acumula valorização de 1,51% em julho. Em relação ao dia 10 de julho de 2012, a alta chega a 73,4%. Já o indicador do mercado gaúcho, que ontem também caiu – 3,88%, para R$ 702,40 -, ainda sobe 4,67% neste mês e a alta em relação há um ano é de 42,6%.

O cenário "altista" começou a ser desenhado quando problemas climáticas derrubaram, no segundo semestre do ano passado, a colheita brasileira da safra 2012/13 para 4,38 milhões de toneladas, 24,3% abaixo de 2011/12 e menor volume desde 2001/02, segundo dados da Conab. Já no quarto trimestre de 2012, também ficou claro que a Argentina não só não compensaria a queda brasileira como agravaria o quadro de escassez. O país colheu 9 milhões de toneladas em 2012/13, uma queda de quase 40% sobre 2011/12 e uma das menores safras de sua história.

Nunca é demais lembrar que, apesar da força que tem em soja e milho, o Brasil é um dos maiores importadores de trigo do planeta. E que a Argentina, grande país exportador, tradicionalmente complementa a demanda dos moinhos brasileiros. Assim, o governo federal abriu, em março, uma cota de importação de 2 milhões de toneladas de países de fora do Mercosul sem a cobrança da Tarifa Externa Comum (TEC), o que aliviou temporariamente o aperto. A janela está aberta até o fim deste mês, mas o volume já foi praticamente todo absorvido.

Diante disso, diz o presidente do Moinho Anaconda, José Honório Gonçalves de Tófoli, a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) pleiteia uma cota de mais 1 milhão de toneladas de fora do Mercosul sem TEC, a ser internalizada até agosto por empresas do Sul e do Sudeste e até novembro pelas companhias do Norte e do Nordeste.

Um dos maiores moinhos do país, o Anaconda já recebeu uma encomenda do Canadá e ainda receberá outra dos EUA. Cerca de 50% do trigo moído pela empresa, que tem capacidade para processar 600 mil toneladas por ano, é importado, conforme o executivo. Em 2012, a companhia moeu cerca de 570 mil toneladas de trigo em suas duas unidades, localizadas em São Paulo e Curitiba. Sem a cota extra, afirma, os custos vão aumentar pelo menos 10%.

"A situação é preocupante", afirma Marcos Pereira, gerente nacional de vendas da Nita Alimentos, com sede em Santos (SP). Com as restrições argentinas – com a queda da produção, o governo do país vizinho também restringiu exportações de trigo e farinha -, a empresa fez compras nos EUA e está prospectando Uruguai e Paraguai para atender sua demanda, que soma entre 270 mil e 300 mil toneladas por ano. "Em países como Rússia e Ucrânia, o trigo não tem força e não serve aos padrões brasileiros para uso em panificação. E 55% da demanda de trigo do país é para panificação", afirma ele.

No fim de junho, leilão promovido pela Conab registrou ágio de 17% e a tonelada chegou a quase R$ 1.000, mostrando que ainda há espaço para valorizações mais agudas nas próximas semanas. "Teremos dificuldade até a segunda quinzena de setembro, quando entra a safra nacional".

Conforme a Conab, a colheita brasileira subirá para 5,6 milhões neste ciclo 2013/14, mais esse aumento permitirá apenas uma leve queda de 200 mil toneladas nas importações da temporada, para 6,8 milhões. Sim, porque o Brasil, paradoxalmente, tem se firmado como exportador nas últimas safras e deverá embarcar 1,5 milhão de toneladas em 2013/14. Já a nova safra argentina, que também será maior, estará disponível no último trimestre.

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Fonte: Valor | Por Fernando Lopes, Mariana Caetano e Luiz Henrique Mendes | De São Paulo