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Oferta de salmão da Noruega em xeque

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AP

Produção de salmão na Noruega: problemas sanitários limitaram a produção, e crise poderá durar mais alguns anos

Os criadores noruegueses de salmão estão recorrendo a técnicas de criação mais radicais para enfrentar as inúmeras ameaças que pairam sobre sua produção. Para enfrentar problemas como os "piolhos do mar", a fuga de peixes e a falta de uma costa apropriada para a aquicultura, o governo da Noruega vem liberando o uso de estruturas submersas parecidas com supertanques e, também, de "ovos marinhos", esferas futurísticas que ficam boiando sobre as águas.

Um dos problemas do maior produtor mundial de salmão é o aumento na incidência de piolhos do mar, parasita que se gruda ao corpo do peixe. O problema não é novo, mas ficou mais grave porque os piolhos se tornaram resistentes aos tratamentos químicos. Assim, os criadores passaram a recorrer a meios mecânicos para tentar eliminá-los, como a lavagem do peixe – com água fresca ou aquecida a 30°C – com uma escova macia. O processo, no entanto, levou a uma maior taxa de mortalidade. Os produtores também passaram a recolher os peixes antes de estarem totalmente crescidos. A produção norueguesa, em volume, recuou cerca de 5% em 2016.

Com esses problemas e a redução da oferta no Chile, segundo maior produtor global – que foi afetado por um surto de algas tóxicas -, o preço internacional do salmão subiu para níveis recorde em 2016, próximo a US$ 9,50 o quilo. A Marine Harvest, uma das maiores empresas produtoras de salmão do mundo, apoia os "ovos marinhos", cuja ideia é proteger os peixes dentro de uma unidade fechada. Mas sua rival, a SalMar, prefere os supertanques, que mantêm os peixes a profundidades em que os piolhos do mar não conseguem sobreviver. Ambas as técnicas ganharam licenças de desenvolvimento do Ministério da Pesca da Noruega, abrindo espaço para que outras companhias sigam o mesmo caminho, já que é difícil ampliar a criação diante do número limitado de licenças tradicionais de produção concedidas pelo governo.

"Cerca de 50 empresas pediram licenças de desenvolvimento", disse o ministro da Pesca, Per Sandeberg, durante Fórum do Mar Atlântico Norte (Nasf) realizado na cidade de Bergen na semana passada. Para pressionar os produtores a resolver o problema dos piolhos do mar, o governo federal, em Oslo, vem liberando poucas licenças de produção ultimamente. "Não houve crescimento na oferta nos últimos cinco anos", disse o analista Henning Lund, da Pareto Securities, corretora e banco de investimento norueguês, para quem os futuros incrementos não deverão ser muito grandes. Novas regras que entrarão em vigor neste ano vão restringir as licenças apenas às regiões que controlarem a infestação. O número máximo de piolhos do mar permitido é de 0,5 por peixe. Isso significa que o crescimento da produção anual vai estar limitado a 3%.

O aumento nos preços ajudou a impulsionar os lucros. A Marine Harvest registrou lucro operacional recorde (antes dos juros e dos impostos) no quarto trimestre de seu exercício, de € 259 milhões. O lucro líquido mais do que duplicou em relação ao mesmo período do ano anterior, para € 211 milhões. A cotação das ações da empresa subiu cerca de 30% em 2016. "É fantástico ganhar dinheiro, mas no longo prazo precisamos continuar a crescer pensando no volume", disse o executivo-chefe da Marine Harvest, Alf-Helge Aarskog, durante a Nasf. Embora os preços à vista tenham diminuído em relação ao recorde de 2016, ainda giram em torno de US$ 7 por quilo.

O crescimento da oferta mundial deverá cair drasticamente em comparação aos aumentos superiores a 10% observados há alguns anos. A questão é de que forma a alta nos preços vai afetar a demanda. Um executivo da Aquimer, associação setorial francesa, disse na mesma conferência que a demanda dos consumidores por salmão teve forte queda no mercado da França. E, em muitos supermercados europeus, os preços ainda vão sofrer uma alta pesada neste ano, segundo o analista Kolbjorn Giskeodegard, do banco Nordea. "Se você remarcar o preço entre 20% e 50%, necessariamente vai haver uma reação negativa".

A Kontali, consultoria especializada no segmento, projeta que o consumo de salmão ficará estagnado em 2017. Em 2016, a Pareto Securities sondou executivos da área perguntando por quanto tempo eles achavam que os piolhos do mar limitariam o crescimento da produção na Noruega. Três anos foi a resposta da maior parte deles. Agora, passaram a prever seis anos ou mais. Até lá, acredita-se que Oslo vai manter a rédea curta. Os produtores de salmão reconhecem que o rigor da regulamentação foi benéfico para o segmento até agora. "Não há como fugir disso. Quando você lida com biologia, você precisa de regulamentação estrita", disse Aarskog, da Marine Harvest. (Tradução de Sabino Ahumada)

Por Emiko Terazono | Financial Times

Fonte : Valor