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Ofensiva do governo em defesa do produto brasileiro

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O governo aproveitou um evento promovido pelo Conselho das Américas para voltar a defender a carne brasileira e ressaltar que o problema revelado na Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal, é isolado e limitado a um universo muito pequeno dentro da indústria nacional. O presidente Michel Temer iniciou seu discurso já tratando dos "embaraços econômicos" causados pelas restrições de importadores, mas ressaltou a qualidade do produto brasileiro.

"A carne brasileira é sempre enaltecida por aqueles que têm paladar adequado para saboreá-la", disse o presidente, acrescentando que o Brasil é um "país oral" e por isso é necessário repetir que a carne brasileira tem qualidade. "Não basta escrever. Se você não falar várias vezes, as pessoas não dão importância". Temer deixou claro que o governo vai insistir nesse caminho. "Não podemos deixar transitar impunemente um alarde que alcança a totalidade dos frigoríficos e dos exportadores brasileiros", afirmou.

Na mesma linha, o ministro da Indústria e Comércio, Marcos Pereira destacou que as unidades interditadas após a operação da PF exportaram apenas US$ 120 milhões de um universo de quase US$ 14 bilhões de venda de carnes do Brasil ao exterior. Pereira afirmou que o tema da carne não entrará na primeira etapa das negociações de um acordo de comércio do Mercosul com a União Europeia. "Quero dizer que nas sondagens iniciais feitas pelos nossos técnicos aos técnicos europeus, o tema da carne brasileira não será abordado nessa rodada de negociação", disse.

Até o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, entrou na ofensiva pela carne brasileira. Ele disse que o fato de haver investigação grande sobre um único produto (a carne) mostra que o Brasil leva a qualidade do produto a sério. "O Brasil leva a sério não só a questão fiscal, macro, mas a qualidade do produto e isso traz benefícios de longo prazo", afirmou Meirelles.

Apesar do movimento geral do governo, Temer procurou deixar claro que não há tentativa do governo de minimizar a corrupção no setor. "Se há desvios, os desvios devem ser apurados, como estão sendo apurados", disse. Ele classificou como "boa notícia" a suspensão das restrições pela Coreia do Sul e a associou à pronta resposta do governo brasileiro e aos "esclarecimentos cabais" que foram prestados.

O ex-ministro do Desenvolvimento Luiz Fernando Furlan disse, que, apesar dos esforços do governo brasileiro, o estrago causado pela Operação Carne Fraca pode ser duradouro. "Abrir mercado é uma coisa lenta, gradual, sempre tem muita resistência de quem vai ter concorrentes, produtores internos ou outros países fornecedores e qualquer pretexto é um pretexto", disse Furlan. "Infelizmente houve uma imprudência que está sendo corrigida", completou.

Furlan deixou claro que não estava falando pela BRF, na qual é membro do conselho de administração. "Eu não falo pela BRF, não sou porta-voz do BRF".

Ele lembrou que, quando era ministro, assinou um acordo de venda de carne para a China, mas que só depois de dez anos é que o mercado foi efetivamente aberto. Também recordou que em 1978 houve uma crise da peste suína africana que, apesar de não ter registro no Brasil, custou o fechamento do mercado europeu para a carne suína brasileira até hoje. "O estrago é duradouro", comentou Furlan.

Para o ex-ministro, a resposta do governo brasileiro vai inibir algumas sanções duradoura. "O número total de unidades exportadores é muito grande, de regiões e situações diferentes. O Brasil tem essa flexibilidade e agora o trabalho é de frear um pouco isso", afirmou. "Acredito que vamos superar isso, mas vai demandar um trabalho muito grande. O ministro da Agricultura vai ter que pegar uma pastinha e circular, como ele já tem feito", acrescentou Luiz Furlan.

Por Fabio Graner, Daniel Rittner e Eduardo Campos | De Brasília

Fonte : Valor