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O sucesso nadando contra a corrente

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Jorge Lucki

Vinhedos de Marlborough, no norte da Ilha Sul: região abriga 2/3 da área de cultivada no país

A fórmula do Novo Mundo para ganhar espaço no concorrido mercado vinícola internacional, na década de 1990, pressupunha vinhos tintos (gênero estimulado pela divulgação, em 1991, de estudos comprovando seus efeitos benéficos para a saúde) encorpados e amadeirados para impressionar a leva de consumidores com paladar em formação e elaborados, sobretudo, com cabernet sauvigon, merlot e syrah (as chamadas "uvas internacionais"), para facilitar sua identificação, valendo-se ainda, invariavelmente, do clima quente onde as regiões estavam localizadas, que favoreciam tal padrão de vinhos.

A entrada da Nova Zelândia no cenário vinícola mundial (timidamente no princípio, quando exportou US$ 35 milhões em 1992, galgando posições de forma consistente ao longo dos anos, até alcançar mais de US$ 1,5 bilhão em 2015) desafiou todos os conceitos e previsões: é o país mais meridional do Hemisfério Sul – portanto, com tendência a um clima frio -, não tinha cultura e tradição na área, conseguiu projeção em razão de vinhos brancos numa época em que só se vendia tintos e ofereceu produtos elaborados com uvas e estilos fora daquele padrão batido que pressupunha a utilização das castas triviais, tudo carregado com muito carvalho. Tiveram sucesso e de quebra colocaram em evidência, mundialmente, a sauvignon blanc, uva que andava meio ofuscada e sem o respeito que merecia, mesmo em sua terra natal, o Vale do Loire e Bordeaux.

Embora existissem fatores aparentemente adversos, há algumas "coincidências" positivas que podem explicar a boa aceitação dos vinhos da Nova Zelândia. Os afáveis, educados e alegres neozelandeses – "cool" é a palavra, o que mais ou menos quer dizer "na boa" – não tinham uma ligação especial com o vinho até 1970, quando despertou um interesse maior por tintos e brancos. Começaram a plantar indiscriminadamente Muller-Thurgau, uma uva originária da Alemanha, por indicação de um professor de enologia daquele pais. A relativa euforia resultou em excesso de produção, todo voltado para consumo local, dando origem a uma nova fase, com o plantio de variedades nobres e técnicas apropriadas, visando a produção de vinhos de qualidade, tanto para o mercado interno quanto externo. Uma boa aclimatação de mudas selecionadas na Borgonha e no Vale do Loire das castas sauvignon blanc, chardonnay, e pinot noir, afinadas ao clima fresco da Ilha Sul deram ótimos resultados, raramente encontrados fora de suas regiões de origem.

Muita coisa mudou (positivamente) de lá para cá. Por mera curiosidade fui olhar uma edição de meados da década de 1990 do mais importante guia de vinhos da Nova Zelândia, de Michael Cooper. Na época, a seção que contemplava vinhos à base de cabernet ocupava três vezes a destinada a pinot noir. Neste ano, 2017, em que a publicação completa 25 anos, acontece o inverso. Outro aspecto importante que mereceu especial atenção do setor vitivinícola neozelandês nesse espaço de tempo foi o cuidado com o meio ambiente, resultando, atualmente, em 94% de vinhedos certificados em produção sustentável, com parcela crescente de produtores adotando procedimentos orgânicos e biodinâmicos.

Este me parece ter sido um dos segredos do sucesso dos neozelandeses: seus sauvignons blancs têm frescor e sabor bastante limpos e equilibrados, sem serem excessivamente herbáceos ou terem o frutado enjoativo que adquirem em regiões quentes (a rigor, houve certo desvirtuamento desses aspectos, com a produção de vinhos muito aromáticos e simplórios, tema a ser abordado em uma próxima coluna); os chardonnays são puros, não precisam de adição suplementar de ácido tartárico para dar vivacidade e têm suficiente açúcar para manter a graduação alcoólica; os vinhos provenientes de pinot noir – uva sensível, de difícil adaptação -, conseguem elegância, sua grande característica, com a boa diferença de temperatura entre o dia e a noite ali existente. São de fato condições muito próximas dos vinhos originais, a que os produtores do Novo Mundo não deram a devida importância no começo, mas agora estão buscando.

Foi na região de Marlborough, no norte da Ilha Sul, onde tudo começou. Nem era uma zona vitícola quando a Montana Wines plantou os primeiros pés de sauvignon blanc, em 1973. Cerca de dez anos mais tarde, chegou a Cloudy Bay, que abriu as portas do mercado internacional para estes vinhos, ganhando inclusive reputação para se posicionar entre os melhores do mundo. Com o tempo a Montana, que se tornou um dos maiores produtores do país, foi vendida à multinacional Pernod Ricard e a Cloudy Bay ao grupo Louis Vuitton Möet Hennessy, em 2003. Pode-se inferir daí parte da importância que Marlborough tem no mapa vitivinícola da Nova Zelândia, tendo crescido em reputação e área: ocupa na atualidade quase 2/3 dos mais de 36 mil hectares de vinhedos do país, com amplo domínio da sauvignon blanc (quase 18 mil hectares), seguida da pinot noir com 2,5 mil hectares e da chardonnay com pouco mais de mil hectares.

O assunto Nova Zelândia continua nas próximas semanas, com a proposta de transmitir parte do que foram os 20 dias que passei por lá a convite da New Zealand Winegrowers, organização fundada em 2002 e que congrega 850 produtores e 700 vinícolas de todo o país.

Jorge Lucki escreve neste espaço semanalmente

E-mail: Colaborador-jorge.lucki@valor.com.br

Por Jorge Lucki

Fonte: Valor