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O desafio de alimentar 9 bilhões

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Usados há quinze anos sem registros de malefícios à saúde, os transgênicos ampliaram a produtividade no campo e salvaram os mais pobres da inanição

A população mundial, que acabou de superar a marca de 7 bilhões de pessoas, ganhará 2 bilhões de habitantes até 2050. A necessidade de nutrir 9 bilhões de bocas, somada ao aumento no apetite por proteína nos países em desenvolvimento, significa que a produção de comida terá de dobrar nos próximos quarenta anos, segundo projeções da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Como há relativamente poucas fronteiras aráveis novas para ser exploradas pela agricultura. os fazendeiros mundiais terão de, praticamente, dobrar a produção nas áreas usadas atualmente. A resposta a esse desafio exigirá uma nova revolução verde, similar à da década de 60, quando houve um salto na produtividade graças à utilização de defensivos, fertilizantes e técnicas modernas de plantio. Para muitos especialistas, a segunda revolução já está em curso. Essa é a avaliação do presidente mundial da Monsanto, o zoólogo escocês Hugh Grant. Os avanços, agora, concentram-se na melhoria genética das sementes. sobretudo com o desenvolvimento de variedades transgênicas resistentes à seca e às pragas. Com sede em St. Louis, às margens do Mississippi e no coração do Meio-Oeste americano, a Monsanto desenvolveu a primeira semente transgênica vendida comercialmente, a soja resistente ao pesticida glifosato, que chegou ao mercado há quinze anos. A seguir, um resumo da entrevista concedida por Grant.

FOME GLOBAL Talvez seja modesta a meta de dobrar a produção de comida nos próximos quarenta anos. O consumo de proteína tem crescido rapidamente nos grandes países em desenvolvimento, principalmente na China e na Índia. O aumento na demanda não perdeu vigor nem mesmo com a crise econômica e a retração na atividade da economia mundial. Mas tenho confiança em que conseguiremos suprir essa demanda. Isso dependerá da redução no desperdício e também da modernização da agricultura em países mais atrasados. Mas não imagino que isso baste. Dependeremos também dos avanços na biotecnologia. Para isso, concentramos nossos trabalhos em duas frentes. A primeira é o melhoramento genético convencional, por meio de cruzamentos das espécies existentes e da seleção de sementes mais produtivas. A segunda é o desenvolvimento de sementes transgênicas. Graças a essa tecnologia, conseguimos desenvolver variedades com características como a resistência à seca ou com mais nutrientes. É com ela que podemos manter afastados da lavoura os predadores e as ervas daninhas.

RISCO À SAÚDE Nada é 100% seguro. Sempre que surge uma nova tecnologia, como os telefones celulares, surgem desconfianças. Mas, se estivéssemos tendo essa conversa há vinte anos, a segurança com relação ao consumo de transgênicos para a saúde humana seria uma questão hipotética. Acabamos de completar quinze anos de uso comercial em larga escala dessa tecnologia. Nesse período, não houve registro de nenhum problema de saúde. Possuímos hoje um amplo histórico de utilização dessas sementes. Existem aproximadamente 150 milhões de hectares com lavouras transgênicas no mundo, o equivalente a 10% da área mundial. Nos Estados Unidos, mais de 9.0% da soja é transgênica. No Brasil, o porcentual é de 85%. Repito: nunca houve registro de danos à saúde. O fato é que o mundo precisa de mais comida, e não penso que seja possível atingir esse objetivo sem os transgênicos.

AMEAÇA À BIODIVERSIDADE Nos primeiros anos, as vozes contrárias aos transgênicos se concentravam na questão do risco à saúde. Como nada ficou provado nesse sentido, agora os ecologistas dizem que o avanço das lavouras transgênicas reduz a biodiversidade. A verdade é que, em agricultura, não existe muita diversidade. São milhões e milhões de hectares em que as variações genéticas entre as, plantas de cada cultura são mínimas. É assim que se produzem commodities agrícolas. A questão é como ampliar a produtividade das áreas agrícolas para assim preservar a biodiversidade onde ela de fato existe: nas florestas, nas reservas naturais e nas margens dos rios. O Brasil, por exemplo, poderia dobrar a área destinada à agricultura. Mas para isso teria de derrubar florestas. Penso ser mais inteligente dobrar a colheita nas áreas que já são utilizadas para o plantio.

BRASIL O futuro da agricultura passa pelo Brasil. E o único país que ainda possui grandes extensões de terras cultiváveis virgens. Mas essas áreas não precisam ser utilizadas. Há muito a ser ganho em produtividade – e isso vem ocorrendo. Na média, a produtividade das lavouras de milho nos Estados Unidos é o triplo da média brasileira. Mas no cerrado já existem produtores que se aproximam da média americana. O Brasil conta hoje com uma boa legislação para as sementes modificadas geneticamente, baseada em critérios científicos. O avanço no uso dos transgênicos tem sido rápido – o que é ótimo, porque contribui para aumentar a produtividade e assim preservar a Amazônia. A importância crescente do Brasil fez com que desenvolvêssemos uma semente de soja exclusiva para o país. Nos Estados Unidos, as ervas daninhas são os principais predadores das lavouras. Já no Brasil o maior problema dos agricultores são insetos e parasitas. Estamos também fazendo pesquisa com cana-de-açúcar. Mas trata-se de um vegetal com genética mais complexa. Levará tempo para chegarmos a uma variedade comercial.

O FIM DA AGRICULTURA? Existem algumas pesquisas sendo feitas com algas, na busca de tentar sintetizar alimentos em laboratório. Mas os vegetais são organismos muito elegantes e sofisticados em seu processo de transformar energia solar nos carboidratos, proteínas e óleos de que necessitamos em nossa alimentação. Ainda há muito a avançar no estudo das plantas e de seu potencial pleno. Podemos também desenvolver variedades mais produtivas e mais nutritivas. Em resumo. é cedo para pensarmos em produzir comida no laboratório, sem a ajuda dos vegetais. Tenho certeza de que precisaremos dos agricultores por um bom tempo ainda.

Fonte:  VEJA | Giuliano Guandalini