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‘O código florestal é um retrocesso’, diz Marina Silva

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De grande influência política, Marina arrasta legiões de admiradores por onde passa. Por isso, virou alvo de disputa em todo o país, entre candidatos desta eleição Foto: Diego Janatã

De grande influência política, Marina arrasta legiões de admiradores por onde passa. Por isso, virou alvo de disputa em todo o país, entre candidatos desta eleição Foto: Diego Janatã

Maria Osmarina Silva de Lima, a Marina Silva, saiu dos seringais do Acre, onde viveu até os 16 anos, analfabeta, para ganhar reconhecimento internacional na defesa do meio ambiente. Ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina é apontada como umas das maiores defensoras da sustentabilidade no mundo.

De grande influência política, arrasta legiões de admiradores por onde passa. Por isso, virou alvo de disputa em todo o país, entre candidatos desta eleição. Essa semana Marina visitou Manaus para apoiar a campanha política do candidato Serafim Corrêa.

A ex-senadora, que não está coligada a nenhum partido político, afirma que tem caminhado ‘Brasil adentro, Brasil a fora’, lutando pelo movimento da preservação ambiental e apoiando candidatos que estão realmente comprometidos com a causa da sustentabilidade, pois acredita que o povo brasileiro está cansado de políticos que estão no meio apenas para provar quem são poderosos.

Em entrevista ao EM TEMPO, a ambientalista, que chegou em 1996 ao Senado Federal como a mais jovem senadora do país, falou sobre o seu trabalho ‘missionário’ de apresentar apoio aos candidatos que tenham interesses em defender agendas éticas; da sua participação nas Olimpíadas deste ano; do julgamento do mensalão; e de seu futuro político.

EM TEMPO – Como aconteceu esse convite para a senhora apoiar a candidatura da coligação “Agora somos nós e o povo”, que tem como candidato ao cargo majoritário Serafim Corrêa?

Marina Silva – Para mim, é uma alegria estar ao lado desses amigos. Desde a primeira campanha, em 1996, quando Serafim se candidatou ao cargo de prefeito de Manaus estive apoiando o trabalho desse companheiro. E, desde então, iniciamos essa parceria. Este ano, Serafim foi me procurar em Brasília e prontamente aceitei o convite de vir fazer essa afirmação à campanha dele. ‘Sarafa’ é uma pessoa correta e comprometida com o crescimento de sua cidade e melhoria na qualidade de vida das pessoas que aqui habitam.  É muito bom fazer a campanha de uma pessoa leve, tranquila, que combina com o meu estilo, como é o caso do Serafim. Nessa campanha não será preciso falar dos adversários do Serafim, apenas exaltar as qualidades do meu candidato, porque isso basta. Deixo minha solidariedade e companheirismo à campanha do ‘Sarafa’, porque sei que iremos surpreender nessas eleições.

EM TEMPO – A senhora está sem partido político desde o ano passado, quando saiu do Partido Verde, o PV. Como está a sua posição política. Já simpatizou com alguma outra sigla?

MS – Ainda não estou avaliando isso. Por estar sem partido tenho essa liberdade política de apoiar em todos os Estados, aqueles candidatos que tenham um compromisso de abraçar candidaturas que estejam com a agenda compatível com a sustentabilidade e a ética política. Estou fazendo um apoio programático, e não pragmático. Ainda não estou pensando em novo partido político ou em me aliar a alguma outra sigla. Quero fortalecer o movimento sustentável. Tenho apoiado candidatos do PSOL, do PSB, do PV e até do PT. Meu apoio será para aqueles que estejam com um olho no progresso, e outro na sustentabilidade, sem interesse de futuras coligações.

EM TEMPO – Como a senhora vê o Amazonas, quando se trata de projetos voltados para a sustentabilidade?

MS – Vejo como uma grande oportunidade. A Amazônia tem um peso por sua importância geográfica e não deve ser vista como um problema para o Brasil, e sim um grande avanço. As dificuldades que temos são porque não foram feitos investimentos de forma estratégica. A Amazônia é uma grande produtora de energia, e essa energia pode ser produzida de forma sustentável. Temos um potencial de eletricidade que se mantém 63% na Amazônia, mas precisamos ganhar com isso.  Desenvolvemos espaços para o manejo sustentável e a exploração madeireira, porém esse trabalho precisa ser feito com responsabilidade. É preciso investimento. Percebo que a grande vontade dos amazônidas é que a Amazônia se desenvolva, mas sem perder a identidade.

EM TEMPO – Qual a sua posição política sobre o envolvimento do Partido dos Trabalhadores (PT) nesse julgamento do mensalão, já que a senhora marchou tanto tempo com os petistas?

MS – Minha posição é de que seja feita a justiça. Nesse momento, o Brasil inteiro está olhando para esse julgamento com o olhar de quem acredita no amadurecimento de nossas instituições, e nesse caso, na mais alta corte do país. Se tiver alguém que pareça inocente, mas é culpado, que o processo culpe e julguem todos esses. Se tiver alguém que parece ser culpado, mas é inocente, que o processo o inocente de fato. Não sou aquele tipo de pessoa que quer ver alguém ser enviado para o sacrifício. Quero que seja feita apenas a justiça. Sempre repito as palavras de William Shakespeare: “o contrário de injustiça não é justiça, e sim amor”. E toda justiça que se pratica sem amor, é vingança. Não encaro esse julgamento como processo de vingança contra ninguém.

EM TEMPO – Como a senhora avalia essa implantação do novo Código Florestal no país?

MS – Achei uma coisa terrível. É um dos piores retrocessos da história ambiental. O Brasil, depois de 20 anos de avanços, está vivendo um atraso nessa agenda. É o Código Florestal, a retirada do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) na fiscalização do desmatamento, implantação de medida provisória que dá poderes à presidente da República, em diminuir a unidades de conservações já criadas, é a ameaça de que terras indígenas só podem ser criadas com uma lei aprovada no Congresso. Agora imagina, se formos contar, no Congresso Nacional, no máximo, 60 parlamentares são favoráveis às terras indígenas, e no Senado, apenas meia duzia debatem esse tema. Corremos o risco de nunca mais se criar uma terra indígena nesse país. O governo não tem a dimensão para perceber a importância da sustentabilidade e isso é lamentável.

EM TEMPO – Nas Olimpíadas deste ano, a senhora teve uma participação muito importante, que, segundo a mídia nacional, até ofuscou a presença da presidente Dilma Rousseff. Como foi essa experiência em Londres?

MS – Eu e a Dilma tivemos participações em esferas diferentes. Nossa presidente estava na tribuna de honra com a monarquia londrina, cumprindo o papel dela como chefe de uma confederação, e eu senti muito orgulho de ter uma mulher como representante. E eu estava, simbolicamente, representando uma causa, junto com pessoas que também desempenham papéis importantes em seus países. Estava ali representando a potência ambiental que é o Brasil e o desafio que é a sustentabilidade. Obviamente, vivi um momento de muita felicidade, o Brasil ficou feliz por ser representado pela minha imagem, e essa será a reação que prefiro guardar.

EM TEMPO – Podemos esperar Marina Silva nas próximas eleições para presidente da República?

MS – Esse não é o foco que debato no momento. A única coisa que sei agora é que a causa da sustentabilidade precisa ser um processo relevante. Por isso, estou fazendo um trabalho quase que “missionário” em todo país, dando esse apoio político a candidatos que queiram abraçar essa agenda da sustentabilidade. Faço isso sem interesse político ou retorno financeiro para campanhas. Quero apenas ajudar a criar um Brasil melhor.

Fonte: emtempo.com.br | Isabella Siqueira