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“O Brasil precisa ter senso de oportunidade”

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Luiz Carlos Corrêa Carvalho, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag)

por Sérgio de Oliveira

Editora Globo

"Eu me preocupo muito mais com o equilíbrio da política tributária do que com o equilíbrio da sustentabilidade agrícola"

Engenheiro agrônomo formado pela Escola Superior de Agronomia da Universidade de São Paulo, com curso de pós-graduação em economia e administração de empresas, especializado na área de cana, açúcar e álcool, Luiz Carlos Corrêa Carvalho foi um dos criadores e primeiro executivo da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Atualmente é presidente da Abag, diretor do Grupo Alto Alegre – que comanda cinco usinas de açúcar e álcool – e diretor da Canaplan, uma empresa de consultoria. Para ele, o Brasil precisa ter senso de oportunidade para tirar o melhor proveito das condições “excepcionais” do momento em relação à enorme demanda mundial por alimentos e energia renovável daqui para a frente. “Ninguém está tão preparado para uma resposta desse tamanho como nós.”
Globo Rural > Ultimamente, alguns analistas estão questionando a capacidade de o Brasil assumir a liderança mundial da produção de alimentos.
Luiz Carlos Corrêa Carvalho >
O Brasil tem uma condição na geopolítica global muitíssimo interessante. Há 30 anos não víamos ninguém falar que o país era uma região importante e teria uma posição de destaque graças à sua capacidade de, com competitividade, de forma sustentável, produzir em larga escala alimentos e energia renovável. O crescimento populacional e de renda per capita e o processo de urbanização na Ásia literalmente mudaram o patamar e o padrão de consumo, de demanda. Precisamos levantar os gargalos que temos, para de fato poder caracterizar o Brasil como grande fornecedor de produtos do agronegócio. Nos últimos dez anos, no mínimo, a gente viu muito pouca evolução nos grandes temas que dizem respeito às nossas limitações. A questão do crédito, do seguro rural, os limites do modal rodoviário, os limites de portos, todas essas questões pesam demais e todas elas têm de ser enfrentadas e discutidas. Se analisarmos os outros países, todos estão num certo limite. À exceção da África, se tivessem um Código Florestal como o nosso, teriam de devolver terras, porque não têm mais condição de expansão. Poucos países têm alguma área para expandir.
GR >Um dos gargalos é a comunicação do agronegócio com a sociedade urbana e com o exterior. O que representou o Sou Agro e quais resultados ele trouxe na prática?
Carvalho >
A mensagem foi colocada, uma semente importante, marcou uma posição, deu para sentir que houve uma melhoria sensível no nível do debate. Estamos discutindo a continuidade do programa de forma perene, não apenas para marcar posição. Nosso objetivo é melhorar essa discussão da imagem trabalhando nas redes sociais, coordenando, sentindo delas o retorno de avaliação dessa imagem, porque, até então, tínhamos uma avaliação subjetiva. Agora, vamos fazer um trabalho no dia a dia, buscando, de forma massiva, entender quais são os pontos fracos, como é que essa comunicação pode melhorar. Não se trata de uma campanha, mas de um modelo de trabalho perene.
GR > A agricultura tropical usa intensivamente agrotóxicos, em função das várias pragas e doenças. Dá para falar em segurança alimentar?
Carvalho >
A Embrapa e várias outras entidades de pesquisa passaram a trabalhar na busca por sistemas mais sustentáveis para, de alguma forma, ter uma produção eficaz, reduzindo os inimigos que operam – pragas, doenças e ervas daninhas, que competem pelos fertilizantes utilizados. O grande volume de produtos que carregam uma carga de materiais fósseis, como os nitrogenados ou alguns insumos modernos de controle, continuarão a ser utilizados, porque temos um nível de temperatura e de umidade muito propício ao desenvolvimento das pragas e doenças. Temos trabalhado duas questões: a primeira, num processo de modernização realmente espetacular, é a produção de novas variedades, seja pelo melhoramento genético ou pela transgenia. Vamos dar grandes saltos na produção eficaz. Por outro lado, temos os orgânicos, um nicho de mercado que pode crescer, e a questão dos inimigos naturais. Temos de buscar o controle das pragas por meio dos inimigos dessas pragas. Há várias culturas em que os inimigos naturais são utilizados com resultados extraordinários. Eu me preocupo muito mais com a política tributária do que com a sustentabilidade agrícola, que é muito importante no Brasil. Hoje, somos exemplo para outros países que abusam no uso de determinados produtos que nós já abolimos por aqui. O nível de controle e de preocupação com isso é muito grande
GR > Qual é sua avaliação do setor sucroalcooleiro hoje?
Carvalho >
Passamos por uma situação muito parecida com a que estávamos vivendo agora no final da década de 1990, quando não tínhamos uma clara definição de qual seria o futuro do álcool, porque tínhamos passado por um processo de desregulamentação feroz. Ele foi para o mercado 100%, com o fechamento do Instituto do Açúcar e do Álcool, o fim de toda uma legislação e uma regulação muito forte que havia. Houve a desregulamentação sem nada desenhado como futuro, com perspectiva ou com políticas públicas. Passamos um período longo debatendo muito com o governo de São Paulo, à época comandado pelo Mário Covas, que deu grande suporte para chegarmos ao presidente Fernando Henrique. Aí tivemos as políticas públicas que vieram na virada do ano 2000. Entre essas políticas, por exemplo, foi criada a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), feita pelo governo sobre o negócio de gasolina, diesel e álcool. Mínimo no álcool, mas forte, cerca de 14% de incidência, na gasolina, para viabilizar o álcool na gasolina em condições de mercado, sem nenhum tipo de subsídio. De lá para cá, há exatos dez anos, o governo zerou a Cide, ou seja, hoje o álcool paga basicamente o mesmo imposto que a gasolina. Não se levam em consideração as externalidades positivas que tem o etanol na questão ambiental, na saúde pública. Elas são cada vez mais claras, a tal ponto de os Estados Unidos pagarem um prêmio pelo álcoolbrasileiro. Nós estamos vivendo um período todo indefinido, em que o governo tem discurso, mas não tem uma ação.
GR > Que papel a Associação Brasileira do Agronegócio joga ou pode jogar diante dessa questão de políticas públicas?
Carvalho >
A grande função da Abag é cuidar dos temas transversais, que estão em todas as cadeias produtivas. Tínhamos esse diagnóstico, sabemos dos problemas graves por que o setor passa na questão do endividamento, problema de crédito, falta de capital. O grande crescimento do setor se fez com capital externo, e de repente vieram as medidas de governo segurando um pouco esse capital, criando todas as dificuldades de terras para estrangeiros e coisas assim. Estivemos com o governador Geraldo Alckmin, estamos trabalhando com a Secretaria de Agricultura, juntamente com todos os elos da cadeia produtiva, inclusive com os trabalhadores, para podermos voltar às políticas públicas que possam de fato caracterizar a matriz energética, porque, a cada momento que passa, em função da indefinição, estamos sujando nossa matriz. Essa tem sido nossa função: ajudar a coordenar essa reação. É preciso discutir como as coisas vão caminhar.
GR > O pré-sal tem responsabilidade pelo relativo abandono do álcool?
Carvalho >
Não tenho dúvida disso. Tivemos dois momentos neste governo atual – considerando-se os dois períodos do presidente Lula e este da presidente Dilma Rousseff. Num primeiro momento, o presidente Lula foi o maior defensor do etanol, um caixeiro-viajante da energia renovável. Mas, quando explodiu o pré-sal, sentimos uma mudança de comportamento. Todas as medidas adotadas pelo governo nesse setor são medidas para atender à Petrobras, para que ela se capitalize, se qualifique para fazer o pré-sal. Nós achamos que é isso mesmo, tem de ajudar, mas isso não significa abandonar as outras soluções ou não ter políticas para elas. O que se discute hoje é que não se trata de conceder alguns benefícios, mas de ter uma política pública, porque a cana é uma matéria-prima excepcional. Dela, hoje, se faz praticamente qualquer coisa. O governo tem de se posicionar em relação a isso.

Fonte: Globo Rural