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Nova safra de cacau do Pará deve crescer 10%

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Se a tradicional região produtora de cacau do país, o sul da Bahia, amarga perdas em decorrência de uma seca que se arrastou por ao menos quatro meses, o Pará promete aliviar o aperto da oferta nacional neste ano. Embora o Estado do Norte continue como vice na produção brasileira da amêndoa, a colheita do fruto deve voltar a crescer em 2016 no mesmo ritmo dos últimos anos, favorecida por um clima adequado e por investimentos em tratos culturais, possibilitados pela capitalização dos produtores no ano passado.

De acordo com o cálculo preliminar do escritório paraense da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) para a produção deste ano, antecipado ao Valor, o Estado deve colher 120 mil toneladas de cacau. Segundo Fernando Mendes, chefe do centro de pesquisa da Ceplac no Pará, o levantamento foi feito com base na situação das lavouras em outubro do ano passado, e a estimativa será oficializada em março.

Se confirmada a projeção, a safra paraense deverá ter um crescimento de quase 10% em relação ao total apurado no ano passado, de 109,1 mil toneladas. Seria o mesmo crescimento verificado no ano anterior.

Após registrar níveis de precipitação menores que a média no fim do ano passado, o Pará voltou a receber chuvas intensas nas últimas semanas, o que possibilita a recuperação da umidade do solo e promove a abertura das primeiras flores do cacaueiro de 2016. Porém, como as chuvas atrasaram, os frutos só estarão maduros o suficiente para a colheita em junho. Normalmente, os agricultores começam a retirar o cacau das lavouras entre o fim de abril e início de maio.

O investimento em novos plantios e em tratos culturais também tem sido determinante para manter a produção com um crescimento constante, segundo Mendes. Em 2015, os preços internos foram impulsionados pela valorização do cacau no mercado internacional e pela elevação do dólar ante o real, que encareceu ainda mais amêndoa de outros países para as indústrias nacionais.

"Os preços pagos ao produtor estão mais do que compensando os custos. Os produtores estão aplicando tratos culturais, aplicaram fungicida para controlar a vassoura-de-bruxa. Agora eles têm que controlar a podridão parda, que ocorre no primeiro trimestre", afirmou Mendes.

O representante da Ceplac acredita inclusive que o nível de produtividade das lavouras de cacau no Pará possa alcançar neste ano os mil quilos por hectare, bem distante do rendimento médio da última safra na Bahia, que foi de 277 quilos por hectare, segundo levantamentos privados. No ano passado, os cacaueiros paraenses renderam em média 940 quilos por hectare.

Segundo Mendes, o alto patamar de produtividade explica-se pelo avanço do plantio a cada ano, já que o rendimento do cacaueiro é maior em seus primeiros anos produtivos. Neste ano, a Ceplac entregará aos produtores do Pará mais 13 milhões de sementes, o que deverá resultar em um acréscimo de área plantada na ordem de 8 mil a 9 mil hectares. Com esse acréscimo, o Estado deverá encerrar este ano com 167 mil hectares com cacaueiros, sendo que 126 mil hectares de lavouras já deverão estar dando frutos.

Na avaliação de setores da indústria, o potencial de crescimento da produção do Pará pode ser o fator responsável por garantir a autossuficiência do Brasil em cacau. "Creio que entre dois a três anos o Brasil será totalmente autossuficiente e vai começar a exportar, porque a produção tem aumentado principalmente no Estado do Pará", afirmou Ubiracy Fonseca, vice-presidente de chocolate da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab). (Colaborou Tatiana Schnoor)

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo
Fonte : Valor