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Nova operação da PF apura fraudes com servidores

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Marivaldo Oliveira/Codigo19/Agência O Globo

Agentes chegam à PF, em São Paulo; nova operação investiga crimes envolvendo servidores da Agricultura e empresas

A Polícia Federal deflagrou ontem a Operação Lucas para apurar fraudes envolvendo servidores do Ministério da Agricultura, que supostamente anulariam multas a frigoríficos de carnes e laticínios em troca de propina. Na nova operação, quase dois meses após a deflagração da Carne Fraca, cerca de 120 policiais federais cumpriram 62 mandados judiciais, sendo 10 prisões temporárias, 16 mandados de condução coercitiva e 36 mandados de busca e apreensão nos Estados de Tocantins, Pará, Maranhão, São Paulo e Pernambuco.

Conforme a PF, os frigoríficos Masterboi e Minerva, os laticínios Palac e Veneza, e a granja Frango Norte pagaram propina, em valores mensais, para a ex-superintendente federal do Ministério da Agricultura em Tocantins, Adriana Carla Floresta Feitosa, que usava os recursos para pagar despesas pessoais. Representantes das empresas investigadas, Adriana e parentes dela estão entre os presos na operação.

A Operação Carne Fraca, deflagrada em 17 de março, também investigou um esquema de corrupção envolvendo fiscais agropecuários federais e funcionários de frigoríficos entre os quais JBS e BRF. Como resultado da Carne Fraca, 33 servidores federais foram exonerados, 21 plantas chegaram a ser proibidas de exportar e três chegaram a ser interditadas. Ainda hoje, 13 países impõem algum tipo de restrição à carne brasileira em decorrência do episódio.

O ministro da Agricultura Blairo Maggi, que está na Arábia Saudita em missão para tentar restaurar a confiança de países importadores em relação à qualidade da carne brasileira, arranhada pela Carne Fraca, disse, em mensagem em uma rede social que já esperava que outros casos de fraudes surgissem. "Já sabíamos que outros casos viriam à tona, uma vez que, após a Operação Carne Fraca, aumentamos o rigor nas apurações internas, fornecendo inclusive material de apoio à PF e MP [Ministério Público]", afirmou Maggi.

"Temos total interesse em extirpar do corpo de funcionários do Ministério da Agricultura, os servidores que mancham a imagem do órgão, não honram o compromisso de trabalhar pelo bem público e servir à sociedade. Por outro lado, tem muita gente trabalhando para mudar a situação e a imagem", completou.

Em nota no fim do dia, o ministro interino da Agricultura, Eumar Novacki, disse que, a respeito das operações Lucas e Fugu [ver texto ao lado], deflagradas pela PF, todos os servidores envolvidos foram afastados preventivamente por 60 dias e que os que têm cargos comissionados foram exonerados. Ele afirmou que será aberto procedimento administrativo para investigar o envolvimento dos citados nas duas operações.

Novacki disse que a servidora Adriana Feitosa já estava exonerada havia mais de 30 dias e que "as investigações não atingem o sistema como um todo, se referindo a desvio de conduta de uma servidora". "Por fim, o Ministério da Agricultura deixa claro que mantém a mesma postura de transparência e de cooperação com as investigações, como ocorreu durante os trabalhos de investigação da Operação Carne Fraca, deflagrada em março deste ano", concluiu a nota.

Como parte das investigações da Operação Lucas, a PF identificou apenas na conta pessoal da ex-superintendente federal Adriana Feitosa uma diferença de mais de 200% em relação aos valores declarados no imposto de renda. Os delegados responsáveis pela operação identificaram uma movimentação de R$ 13 milhões nas contas da servidora e de seus familiares entre 2010 e 2016.

Adriana Feitosa é servidora do Ministério da Agricultura e foi superintendente federal da Pasta em Tocantins entre março de 2014 e outubro de 2015. A senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), que foi ministra da Agricultura entre 2015 e maio de 2016 e substituiu Adriana por outro servidor no primeiro ano de sua gestão, disse ao Valor que não recebeu nenhuma denúncia contra a ex-superintendente. "Soube que depois que eu saí teve alguma denúncia contra ela", afirmou.

Como parte da Operação Lucas, a Justiça Federal em Palmas (TO) também determinou o bloqueio de contas bancárias e a indisponibilidade de bens móveis e imóveis dos investigados nos valores de R$ 2,2 milhões. Também foi detectado que o esquema criminoso movimentou cerca de R$ 3 milhões, entre os anos de 2010 a 2016. Os investigados na operação, na medida de suas participações, poderão responder pelos crimes de corrupção passiva e ativa, cujas penas podem chegar a 12 anos de reclusão.

Por Murillo Camarotto, Cristiano Zaia e André Guilherme Vieira | De Brasília e São Paulo

Fonte : Valor