Notícias – Rural – Fabricação de suco de uva integral cresce mais de 100% no Brasil

Fabricação de suco de uva integral cresce mais de 100% no Brasil | Foto: Carlos Queiroz / Especial / CP Memória

Fabricação de suco de uva integral cresce mais de 100% no Brasil | Foto: Carlos Queiroz / Especial / CP Memória

Uma mudança de comportamento do consumidor, estimulado pela divulgação de pesquisas científicas a buscar alimentação saudável, e um reposicionamento da cadeia produtiva em relação à rentabilidade da vitivinicultura são os principais motivos para o crescimento de mais de 100% na fabricação de suco de uva integral no Brasil nos últimos cinco anos.

Responsável por 90% do abastecimento nacional da bebida, o Rio Grande do Sul deve colocar no mercado 100 milhões de litros em 2017, com um faturamento projetado pelo Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) em R$ 800 milhões. A estimativa para a safra deste ano é de 600 milhões a 700 milhões de quilos de uva, com destinação de 50% do total para a elaboração de suco. Deste volume, 130 milhões de quilos vão se tornar suco integral pronto para beber (na proporção de 1,3 quilo de uva por litro), 120 milhões de quilos em suco concentrado utilizado pela indústria na fabricação néctar e refrescos (na proporção de seis quilos de uva por quilo de concentrado) e em torno de 50 milhões de quilos em mosto (subproduto utilizado para fermentação de outras bebidas).

Em 2016, quando a safra de uva sofreu quebra de 57% em relação a 2015, a comercialização de suco integral caiu para 94 milhões de litros, com processamento de 122 milhões de quilos de uva, 40% do total de uma colheita que atingiu os 304 milhões de quilos. Em 2011, de acordo com o levantamento do Ibravin, a safra de uva gaúcha chegou a 702 milhões de quilos e a venda de suco integral foi de 47,3 milhões de litros, utilizando 61,4 milhões de quilos de uva, menos de 10% do volume colhido.

O vice-presidente do Ibravin e presidente da Federação das Cooperativas Vinícolas do Rio Grande do Sul (Fecovinho), Oscar Ló, explica que até 2011 grande parte da produção de uvas do Estado era utilizada para a fabricação do vinho de mesa para ser vendido a granel, com baixo valor agregado. Desde então o quadro vem mudando. “Com as pesquisas científicas que apontaram o suco de uva como um alimento de grandes propriedades nutritivas e com a possibilidade de agregar valor ao produto, que pode de ser vendido engarrafado, houve um salto”, explicou. Enquanto a comercialização de suco dobrou, a de vinhos de mesa seguiu o caminho inverso, caindo de 230 milhões de litros em 2011 para 165,9 milhões de litros em 2016.

Ló destacou que no Rio Grande Sul estão registradas em torno de 600 vinícolas, a maioria em pequenas propriedades. Destas, dez integram o projeto 100% Suco de Uva Brasil. A estimativa é de que 13 mil famílias se dediquem à atividade vitivinícola, com um contingente total próximo de 52 mil pessoas. “A Fecovinho abriga seis cooperativas vinícolas, correspondendo a 4,5 mil famílias”, destacou.

O dirigente disse que, além do Rio Grande do Sul, os Estados do Nordeste começam a investir na produção do suco de uva integral, produto que não tem concorrente estrangeiro no mercado nacional. “Nosso suco apresenta características de sabor e cor muito diferentes das bebidas fabricadas em outros países da América e da Europa. Usamos uvas híbridas americanas para a fabricação e desenvolvemos variedades específicas para o suco, o que torna o nosso produto único”, garantiu.

Para o enólogo e supervisor da área de Prospecção e Novas Tecnologias da Embrapa Uva e Vinho, João Carlos Taffarel, a diferença primordial entre o suco brasileiro e o europeu, por exemplo, é que na Europa se fabrica suco com uvas viníferas. “Toda a uva é apta à produção de suco e vinho. No entanto, na Europa se fabrica suco com uva Cabernet Sauvignon ou Merlot, que resulta numa bebida muito ácida e com pouca doçura, que não tem espaço no mercado brasileiro”, destacou. Taffarel disse que, apesar da exportação de suco (principalmente o concentrado) ainda ser pequena, inferior a 10% do total comercializado, o Brasil já consegue entrar em mercados como os do Japão e da Rússia. “E pelo melhoramento da uva há espaço para crescer”, acrescentou.

Nesta safra, cuja colheita se encerra em meados de março, o produtor deve receber o preço mínimo de R$ 0,92 centavos pelo quilo da variedade Isabel, que tem perfil específico para a produção de suco. As variedades Concord, Bordô, Niagára Branca e Niágara Rosada, também utilizadas em larga escala para a elaboração da bebida, devem ser remunerada em até 50% acima disso. Estabelecido em acordo do setor antes do início da colheita, o preço mínimo é 18% superior ao praticado no ano passado, quando a variedade Isabel valeu R$ 0,78 o quilo.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Flores da Cunha e coordenador da Comissão Interestadual da Uva, Olir Schiavenin, considera o preço ao produtor ainda insuficiente para cobrir os custos, mas reconhece que há expectativa de crescimento com o avanço no consumo do suco de uva. “O valor ainda é desestimulante, mas o mercado do suco é promissor”, concluiu.

Pesquisa teve papel decisivo

Desde 1978, quando de sua criação, a Embrapa vem pesquisando o melhoramento da uva plantada no Brasil. A unidade Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves, empreendeu dezenas de estudos no sentido de tornar a atividade vitivinícola mais eficiente e preparada para enfrentar os desafios da cultura, em especial as doenças comuns às videiras. Além disso, o trabalho dos pesquisadores conseguiu ampliar o ciclo de colheita da fruta para um período de três meses, que se inicia em janeiro e segue até meados de março. Antes o ciclo era de cerca de 40 dias e se encerrava em fevereiro.

Mais recentemente, a unidade da serra gaúcha desenvolveu cultivares de uva adaptadas ao clima e destinadas à produção do suco, bebida que vem com tendo consumo crescente há quase uma década. O enólogo e supervisor da área de Prospecção e Tecnologia, João Carlos Taffarel, explica que o melhoramento genético permitiu o lançamento de cinco variedades destinadas ao processamento de suco e à apuração de cor e sabor de vinhos. “Desde o inicio dos anos 2000 desenvolvemos as BRS Carmem, Cora, Magna, Margot e Violeta, todas provenientes das uvas híbridas e americanas – Isabel, Bordô, Concord e Niágara, as mais aplicadas na produção de sucos. Todas elas refinaram o sabor, a cor e a densidade do suco, além de melhorar a produtividade dos vinhedos”, afirmou.

A mais recente das cultivares, a Violeta, lançada em 2012, tem características que vão além da produção de suco. “Por ser uma uva muito tinta, ela pode ser usado para acentuar a cor e o saber de alguns vinhos finos, como os Merlot e Cabernet”, acrescenta o enólogo. Taffarel lembra que o Rio Grande do Sul tem 40 mil hectares de vinhedos em seu território. “Não é uma área tão grande, mesmo assim segura a grande maioria da produção nacional graças ao melhoramento genético da nossa uva”, acentuou.

Fonte : Correio do Povo