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No Norte do país, pecuária começa a reagir após baque da crise da JBS

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Por Luiz Henrique Mendes | De Ji Paraná (RO) e Nova Lacerda (MT)

Giovane Rocha/Rally da Pecuária

Boi na propriedade de Paulo Tripoloni, no porção noroeste de Mato Grosso

"O tufão está diminuindo". Mesmo vindas de um funcionário da JBS, as palavras representam bem o sentimento de pecuaristas da região Norte do país. Há dois meses, o clima no Acre e em Rondônia era de muita preocupação, e poucos confiavam que a empresa honraria compromissos. Aos poucos, no entanto, a percepção está mudando e muitos já torcem abertamente pela normalização de seus abates, o que aparentemente está em curso.

Quando a delação premiada dos controladores da JBS veio a público, o Rancho Pé de Serra, fazenda de pequeno porte de Ji-Paraná, programava-se para enviar 72 animais para o frigorífico da companhia em São Miguel do Guaporé (RO). Receoso, o pecuarista Alexandre Neto desistiu do negócio, mas não sem custos.

Para segurar o rebanho na fazenda e ao mesmo tempo não prejudicar a condição das pastagens, Neto e o filho Michael Gularte gastaram em ração. Mas o preço do boi gordo caiu drasticamente, e o pecuarista agora calcula o prejuízo. "Estou perdendo R$ 24 mil", lamentou, citando que poderia ter comercializado o boi a R$ 130 por arroba – hoje, o preço está abaixo de R$ 120. Diante disso, o produtor deseja vender para a JBS, mesmo porque o pasto só deve se degradar em razão do período sem chuvas.

"Sabemos que isso é coisa política. Podemos voltar a vender. Temos que acreditar que vai fluir, porque a JBS é a alavanca da pecuária", disse Neto, dando o tom do sentimento de boa parte dos pecuaristas ouvidos pelo Valor entre os dias 18 e 23 de julho. Nesse período, a reportagem percorreu 2,6 mil quilômetros pelos Estados do Acre, Rondônia e Mato Grosso a convite da expedição técnica "Rally da Pecuária", organizada pela Agroconsult.

Também no Acre, a confiança está voltando. Um dos poucos que não desistiram de vender à JBS em maio – auge da delação -, o fazendeiro Mauro Sérgio Andrade, de Senador Guiomard (AC), já vê os colegas mais resistentes voltarem a fechar negócios com a companhia.

O ponto de inflexão, lembrou ele, aconteceu em meados de junho. Foi quando a decisão da JBS de só pagar os pecuaristas a prazo, e não mais à vista, completou um mês. Como os primeiros pagamentos sob a nova sistemática foram realizados em dia, a expectativa de calote diminuiu.

Para Andrade, o fato de ter mantido as vendas se mostrou um "duplo acerto". Além de receber no dia combinado, ele escapou da queda dos preços do boi gordo desde então e, em meio ao cenário de oferta mais restrita para a JBS no "pós-delação", conseguiu vender a arroba das novilhas pelo mesma cotação dos machos – em geral, as vacas têm um rendimento de carne inferior.

"Já que muita gente estava tirando gado da escala, resolvi correr esse risco e coloquei mais 80 fêmeas para morrer junto com 170 bois", afirmou o pecuarista. De quebra, ele "ganhou pontos" com a JBS, o que espera que renda frutos no futuro. Com um rebanho de 4,2 mil cabeças, Andrade vende lotes de boi gordo a cada 60 dias.

Pecuarista e dono de um frigorífico que comercializa carne de vaca só em Rondônia, o empresário Carlos Lira também acredita que é inevitável voltar a vender para a JBS. "Fiquei represando gado, mas está chegando a hora", afirmou, ressaltando o impacto negativo do clima sobre as pastagens, o que o obrigará a comercializar os bois que já atingiram o peso de abate. Ainda que a preocupação permaneça, Lira já se sentiu "aliviado" ao ver a regularidade dos pagamentos da JBS aos pecuaristas.

Mas há também quem não queira ver a JBS nem pintada de ouro. "Não vou matar lá nunca mais. Estou perdendo dinheiro, mas não vou vender. Sou anti-PT", disparou Sávio Martins, pecuarista de Castanheiras (RO). Ao Valor, ele afirmou liderar um movimento de boicote à empresa, mas admitiu que grandes produtores, como os confinamentos do grupo Fertipar, que vendem cerca de 80 mil cabeças ao ano, já negociam com a JBS, o que já estimulou outros pecuaristas a seguirem caminho semelhante.

Nesse processo, os abates da JBS caminham rumo à normalização. Nos cinco frigoríficos que tem no Acre e em Rondônia – em Porto Velho, Vilhena, São Miguel do Guaporé e Pimenta Bueno, em Rondônia, em Rio Branco, no Acre -, a empresa está abatendo 4 mil cabeças por dia. Em todo o Brasil, os abates semanais já estão perto dos 27 mil bois diários – 135 mil por semana, apurou o Valor.

Segundo fontes que conhecem as operações da empresa, ainda não é o ideal. Para voltar à normalidade, a JBS teria de abater 180 mil bois por semana, ou 30 mil animais por dia, incluindo os sábados.

Quem vivenciou os desafios da companhia na compra de boi nas duas últimas semanas de maio, no entanto, garante que o cenário é de franca evolução. E não só na originação de gado. Poucas vezes na história a rentabilidade da produção da carne bovina foi tão alta.

Como os preços da carne bovina oscilaram pouco na comparação com os do boi gordo – desde janeiro, a arroba recuou 17,6%, pressionada pelos efeitos da maior oferta de gado, da Operação Carne Fraca e da delação dos irmãos Batista -, o indicador de margem bruta dos frigoríficos brasileiros calculado pela Agroconsult atingiu 39,4% na parcial deste mês, o maior nível desde 2007, segundo Maurício Nogueira, que coordena o Rally da Pecuária.

O momento mais favorável para a JBS na pecuária, no entanto, não significa que tudo seja positivo. Por causa da delação, o pecuarista Paulo Tripoloni abandonou as conversas que mantinha com a companhia dos Batista e fechou a venda de mais de 10 mil bois neste ano para a concorrente Minerva Foods, que decidiu reabrir o frigorífico de Mirassol D’Oeste, em Mato Grosso.

O jornalista viajou a convite da Agroconsult

Fonte : Valor