No Brasil, frango sem medicamento ainda é para poucos

São poucas as iniciativas de criação sem antibióticos no país. Segundo especialistas, o cenário tende a se alterar no longo prazo, o que deve motivar adaptações na indústria e inovações em nutrição e saúde animal. Entre os grandes nomes da indústria nacional de carnes, apenas a JBS já explora nichos de mercado com a venda de carne de frango criado sem qualquer tipo de antibiótico. Na prática, a companhia obtém preço melhor com a venda do produto diferenciado e ainda entende quão mais lento é o ganho de peso do frango tratado sem o medicamento.

Segundo Gilberto Tomazoni, CEO da JBS Foods, subsidiária da JBS que reúne as operações em aves, suínos e alimentos processados no Brasil, esse produto específico, da marca Seara, foi além da eliminação do promotor de crescimento. Também não são usados antibióticos com o objetivo de prevenção, com destaque para os anticoccidianos, que evitam uma doença causada por protozoário. Para isso, a JBS Foods também dedicou uma fábrica de ração apenas para esse fim. Isso acontece porque, normalmente, antibióticos são misturados na ração e a fábrica correria o risco de deixar resíduos dos aditivos. O frango sem antibiótico é produzido em Amparo (SP).

Do ponto de vista operacional, Tomazoni reconhece que o frango leva mais tempo para atingir o peso de abate definido pela empresa. Enquanto o frango convencional leva de 40 a 42 dias para atingir o peso ideal, o sem antibiótico leva 45 dias.

Pioneira na criação livre de antibióticos, há 20 anos a Korin abate seus frangos no país em ciclos de 46 dias, e usa nos animais probióticos e óleos essenciais. Diz que nunca registrou mortes por doença e a razão é o espaço entre as aves, que vivem soltas. Mas o abate é de 18 mil frangos/dia, contra os milhares de grandes produtores.

"Acredito que no futuro você pode ter um substituto para o aditivo antimicrobiano, mas hoje isso ainda não seria possível", diz o professor João Palermo Neto, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP).

Entre as alternativas estão os probióticos. Gerente de eubióticos da DSM para América Latina, Dino Garcez diz que as opções da empresa holandesa podem ter efeito "parecido". Para isso, porém, os produtores teriam de adaptar o pacote tecnológico (manejo, nutrição e sanidade), o que encareceria a produção.

Maior produtora de carne de frango do país, a BRF não concedeu entrevista. Mas informou que utiliza os antibióticos conforme recomendação veterinária e a lei – a empresa tem quatro antibióticos registrados para uso no Ministério da Agricultura. E disse que "monitora possibilidades de redução gradual de seu uso na cadeia".

Fonte: Valor | Por Luiz Henrique Mendes e Bettina Barros | De São Paulo