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Na BRF, é hora de deixar as diferenças de lado

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Silvia Costanti/Valor

Pedro Faria, CEO global da BRF: executivo continuará no comando na empresa

O processo de reestruturação da gestão da BRF, iniciado após a sucessão de resultados negativos que culminou com o primeiro prejuízo anual da companhia brasileira, em 2016, deve ter novos capítulos nesta semana. A tendência é que o conselho de administração, que busca superar as divergências que se aprofundaram no último ano, reúna-se nos próximos dias para avançar no processo de definição de cargos e nomes que ficarão na linha de frente da administração da companhia.

A expectativa no escritório central da BRF, no bairro paulistano do Jardim Europa, é que finalmente sejam definidos os substitutos do vice-presidente de Finanças e de Relações com Investidores, Alexandre Borges, e do vice-presidente de Marketing, Rodrigo Reghini Vieira. Demitidos no dia 9, os dois são ligados à Tarpon, gestora que tem 12% da BRF e que, em 2013, teve papel crucial na chegada de Abilio Diniz ao comando do conselho de administração de empresa brasileira.

Outras mudanças, como a criação de novos cargos e a alteração de função de executivos, também são estudadas, de acordo com fontes a par do assunto. Ainda não foi definido se todas as mudanças serão anunciadas esta semana ou se farão parte de um pacote maior de reformulação da gestão, que está sendo conduzido por um "steering committee" e auxiliado pela consultoria BCG.

A intenção da BRF é que esse plano maior seja anunciado nas próximas semanas, até para que possa ser dissociado da Operação Carne Fraca. "Hoje, todo mundo quer saber é se Hong Kong reabriu [o mercado para as carnes brasileiras] ou não", afirmou uma fonte ligada à empresa.

A crise deflagrada pela Carne Fraca acabou servindo para consolidar o reagrupamento dos principais acionistas, reconheceram fontes ouvidas pelo Valor. "A maneira mais inteligente de sair da crise é se unindo, e a empresa não teve condição de produzir essa união ao longo do ano passado", observou uma fonte. Com faturamento superior a R$ 30 bilhões, a BRF sofreu em 2016 com a forte alta do milho.

Na política interna, o desligamento dos vice-presidentes já foi interpretado como um sinal desse rearranjo entre os principais acionistas – a Tarpon e os fundos de pensão Previ e Petros que, juntos, têm quase 35% do capital da BRF.

Um segundo sinal, mais evidente, apareceu sexta-feira. Em meio ao cenário adverso enfrentado pela companhia, que viu as tradicionais marcas Sadia e Perdigão perderem participação de mercado, a insatisfação entres os maiores acionistas era tamanha que se aventou que duas chapas pudessem rivalizar na assembleia de acionistas da BRF que elegerá, em 26 de abril, o novo conselho de administração.

Com o reaproximação entre os principais acionistas, o conselho de administração apresentou na sexta-feira uma chapa única, com a continuidade do empresário Abilio Diniz na presidência, para a eleição. Na chapa, despontam a presença de Walter Fontana Filho e Luiz Fernando Furlan, herdeiros dos fundadores da Sadia. Ambos ganharam influência nas decisões. Fontana participa do comitê que atua na reformulação da BRF, e Furlan lidera o comitê de resposta aos efeitos da Carne Fraca.

No processo, a Tarpon também cedeu, disse uma fonte, citando a saída dos dois executivos. Antes de chegar à BRF, Borges comandou a Cremer, fabricante de produtos farmacêuticos que tem na Tarpon um dos principais investidores. Já Vieira, antes da BRF, comandou a área de recursos humanos da Tarpon.

Na avaliação de uma fonte que acompanhou a aproximação entre a Tarpon e Abilio no fim de 2012, a saída dos dois executivos representa uma inflexão no movimento que a gestora vinha fazendo desde então, no sentido de buscar se aproximar da gestão das empresas em que investe, como Cremer e Somos Educação. Na BRF, foi a chegada de Abilio que pavimentou a ascensão de Pedro Faria, um dos fundadores da Tarpon, ao cargo de CEO global.

Outra fonte observou que a nova fase entre os acionistas significa o fim do "matiz" – ou carimbo – que alguns executivos recebiam por sua origem, sejam elas Tarpon, as antigas Sadia e Perdigão, Ambev ou JBS.

Para a Tarpon, a saída dos executivos não significa uma reversão completa. Na verdade, a permanência do CEO Pedro Faria foi chancelada. E não só. Outros executivos ligados à gestora devem permanecer, embora o espírito agora seja diluir esse identificação – "É união", reforçou uma fonte.

Nesse cenário, o gerente-geral da BRF na Ásia, Simon Cheng, poderá ganhar novas funções. Anteriormente, Cheng representou a Tarpon no conselho de administração da empresa. A tendência é que Leonardo Byrro, executivo também ligado à Tarpon e que hoje divide o comando da BRF no Brasil com Rafael Ivanisk – este último está de saída – continue, ainda que em função diferente.

A maior parte das mudanças ressaltou uma fonte, será feita internamente. "A minoria da minoria virá de fora", explicou. Nesse rol, está o recém-contratado Alexandre Almeida, ex-presidente da Itambé.

  • Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo
  • Fonte : Valor