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México quer comprar grãos no Brasil

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Silvia Costanti / Valor

César Quesada Macías (esq.) e Raúl Urteaga: demanda para rações destinadas à indústria avícola mexicana deve crescer

O México está prospectando oportunidades para ampliar as importações de grãos do Brasil e reduzir sua histórica dependência do milho e da soja produzidos nos Estados Unidos, país com o qual passou a ter uma relação mais turbulenta desde que o empresário Donald Trump chegou à Presidência, em janeiro.

Com esse objetivo principal, missão liderada pelo Ministério de Agricultura do México esteve em maio em alguns Estados brasileiros, onde manteve reuniões bilaterais e conheceu um pouco melhor as características da oferta. E, aparentemente, os representantes do governo e da iniciativa privada que participaram do grupo voltaram para casa satisfeitos.

"Foi um marco de vontade política importante entre os governos do Brasil e do México", disse Raúl Urteaga, coordenador geral de Assuntos Internacionais do Ministério da Agricultura maxicano, ao Valor. Ele observou que, no âmbito do aprofundamento do Acordo de Complementação Econômica nº 53 firmado entre os dois países em 2002, todos os setores são importantes, mas sinalizou particular interesse na área agropecuária.

"Diante da dependência que temos de certos produtos importados dos EUA e dos sinais ambivalentes emanados da Casa Branca, é o momento de acelerarmos a diversificação de nossas relações comerciais", afirmou Urteaga. Segundo ele, o setor primário tem uma participação modesta no Produto Interno Bruto (PIB) do México, mas vem crescendo a um ritmo duas vezes e meia maior que os demais nos últimos anos.

Nesse contexto, uma nova porta pode ser aberta para a soja e o milho do Brasil, que atualmente lidera os embarques globais da oleaginosa, à frente dos EUA, e ocupa a segunda posição no ranking dos exportadores do cereal, atrás apenas dos americanos. E os volumes importados pelos mexicanas, provenientes de seu vizinho, não são desprezíveis.

Conforme as estatísticas mais recentes do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), as importações mexicanas de milho alcançarão 14,8 milhões de toneladas nesta safra 2016/17, que terminará em agosto. A colheita do México no ciclo chegou a 27 milhões de toneladas, mas a demanda deverá atingir 39,8 milhões, de acordo com o órgão americano.

As importações mexicanas de milho amarelo, como o exportado pelo Brasil – os embarques brasileiros deverão somar 34 milhões de toneladas em 2016/17, segundo o USDA -, servem para a produção de ração destinada à indústria avícola local. O segmento ainda se ressente da crise provocada pela descoberta de casos de gripe aviária no México nos últimos anos, mas implementou uma campanha de vacinação de todos os animais e tem a expectativa de, em breve, retomar suas exportações.

Segundo Cesar J. Quesadas Macías, presidente do conselho da União Nacional de Avicultura, a indústria avícola mexicana consome cerca de 10 milhões de toneladas de milho e sorgo por ano e 40% desse volume é importado. Boa parte do sorgo é argentino, mas o milho é comprado sobretudo nos EUA – e normalmente tem problemas de qualidade, disse ele.

No caso da soja, as quantidades são menores. Segundo o USDA, as importações mexicanas do grão, também usado em rações, chegarão a 4,3 milhões de toneladas em 2016/17, já que a produção local foi de apenas 420 mil toneladas e a demanda deverá alcançar 4,76 milhões de toneladas. As exportações brasileiras de soja deverão atingir, conforme o USDA, 63,5 milhões de toneladas em 2016/17, destinadas sobretudo à China.

Por Fernando Lopes | De São Paulo

Fonte : Valor