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México abre as portas ao arroz brasileiro

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Depois de dois anos de negociações, o México finalmente abriu seu mercado para o arroz brasileiro. A medida tende a favorecer sobretudo as exportações do cereal em casca realizadas por produtores e tradings. O mercado mexicano é o maior para o produto da América Latina. O consumo chega a cerca de 900 mil toneladas por ano, e 75% desse total é importado.

Segundo produtores e tradings, os mais favorecidos pela abertura, o Brasil tem capacidade para atender entre 20% e 30% dessa demanda, a depender da safra e do câmbio. Em 2016, os embarques nacionais somaram 894,7 mil toneladas. Mas, com a quebra da safra 2015/16 e a valorização do real, as importações superaram esse volume em 292,5 mil toneladas, conforme a Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic).

De acordo com Tiago Barata, diretor comercial do Instituto Rio Grandense de Arroz (Irga), as conversas em torno da abertura do mercado mexicano vinham se arrastando, sem muito interesse do governo daquele país em responder à demanda brasileira. Mas a situação mudou com a política do presidente dos EUA, Donald Trump, contra os imigrantes.

Além disso, afirma, "os mexicanos buscam arroz de melhor qualidade e, por isso, fecharam recentemente acordos com Argentina e Uruguai e agora estão negociando com o Paraguai". O Brasil, segundo ele, também pode melhorar a qualidade das importações do México – ainda que em 2016, as exportações nacionais tenham sido dominadas por arroz em casca quebrado, por conta do excesso de chuvas na colheita que derrubou a produção na safra 2015/16.

A participação da iniciativa privada – do Irga e da Federação da Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) – ajudou a agilizar as negociações, que ganharam ritmo durante a ExpoDireto, feira realizada em Não-Me-Toque (RS) no início de março. Foi quando Alexandre Velho, vice-presidente da Federarroz, e Barata, conversaram com o embaixador mexicano no Brasil, Eleasar Velasco, e criaram uma "linha direta" de tratativas. Agora, diz Barata, falta a abertura ao arroz beneficiado.

Num primeiro momento, o comércio do cereal em casca será particularmente favorável para a Trading Rice Company (TRC), que já atende o mercado latino. Junto com Louis Dreyfus Company, Euricom e Rivelin, a trading americana domina as exportações de arroz a partir do porto de Rio Grande (RS), com vendas de 190 mil toneladas em 2016.

A italiana Euricom também diz ter capacidade e interesse de vender ao México, mas Thais Pandolfo, responsável pela área de importação e exportação da trading, acredita que haverá inicialmente algum receio por parte das empresas locais. "É natural que elas aguardem todas as resoluções internas. O México demorou a liberar o arroz brasileiro porque há pragas aqui que não existem lá e que podem contaminar as lavouras do país", afirma ela.

O Rio Grande do Sul, que responde por mais de 85% da produção nacional do cereal, deve dominar as exportações. No ano passado, mesmo com a quebra da safra 2015/16, os embarques do Estado somaram 855,74 mil toneladas – 15% da colheita nacional e 96% do total embarcado pelo país.

A abertura do México também pode servir para "corrigir" os preços domésticos, há muito tempo sem grandes reajuste, diz Henrique Dornelles, presidente da Federarroz. "Os 18 mil produtores de arroz não têm poder contra as 200 indústrias beneficiadoras do país, são desorganizados e acabam vendendo o produto com preços abaixo do custo porque ficam sem opção. O México e a abertura de outros mercados trariam mais opções ao produtor", diz.

Segundo a Federarroz e o Centro de Estudos em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), a saca de arroz em casca é comercializada hoje por cerca de R$ 40 no Rio Grande do Sul. No fim de fevereiro, antes do início da colheita do ciclo 2016/17, estava em R$ 50. "Com o câmbio de hoje, a saca pode ser vendida ao México a R$ 41", afirma Dornelles.

Mas o câmbio e o grande mercado consumidor são entraves à competitividade do Brasil. Guilher Gadret da Silva, da Expoente, que negocia em nome da TRC no Brasil, diz que, atualmente, o arroz americano está cotado a US$ 12 a saca nos EUA, enquanto o brasileiro sai por US 15.

Hoje, os maiores importadores do arroz brasileiro são Cuba, Serra Leoa e Senegal, sendo que os dois países africanos compram o cereal quebrado, com valor mais baixo. A Suíça aparece no ranking de maiores compradores, mas segundo Barata apenas por ser sede da trading Rivelin. "De lá, vendem quantias menores de arroz quebrado para a África".

Além do México, o Brasil negocia a redução das tarifas de importação pela Nigéria, que já foi o maior cliente brasileiro há cinco anos resolveu proteger o mercado interno.

Por Fernanda Pressinott | De São Paulo

Fonte : Valor