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Muito mais do que ‘apenas’ máquinas

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Silvia Zamboni/Valor

Valdir Piccinini, agricultor de Passo Fundo (RS): evolução do maquinário colabora para o aumento da produtividade

O tapete formado pela folhagem de soja já começou a mudar de cor na "Fazenda Patrão Velho", em Passo Fundo, no interior do Rio Grande do Sul. Em mais alguns dias, parte dessa lavoura terá amarelado, sinal de que o ciclo de maturação da planta terminou e é hora de iniciar a colheita.

Valdir Piccinini parece otimista nesta safra: o clima bom dos últimos meses e a ajuda de tecnologias digitais embutidas nas máquinas agrícolas devem contribuir para que ele colha, em média, 70 sacas de soja por hectare, patamar de fazer inveja à grande maioria dos produtores rurais do país.

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  1. Contexto

Aos 55 anos de idade, 43 deles dirigindo tratores, o agricultor gaúcho faz parte de um projeto-piloto da montadora americana AGCO, que testa novas ferramentas de captação e análise de dados da produção através de colheitadeiras, pulverizadores e tratores fabricados no Brasil.

Piccinini é também um exemplo real de como o setor têm se voltado à Agricultura 4.0 – o universo algorítmico do "big data", que promete elevar a produtividade das plantações e racionalizar os gastos operacionais.

Assim como os recentes avanços agronômicos digitais – a identificação rápida via aplicativos de pragas, a análise do solo e mais uma dezena de variáveis já monitoradas -, o segmento de máquinas acelera os passos na mesma direção. Grandes montadoras como AGCO, Deere & Co e CNH passaram a dedicar nos últimos anos dinheiro e tempo expressivos para a criação de softwares de alta complexidade.

"As pesquisas de novos modelos de máquinas ainda não terminaram, mas não vamos ter mais grandes saltos como tivemos no passado", afirma Rafael Antonio Costa, gerente de marketing de tecnologias para a América do Sul da AGCO, dona das marcas Massey Ferguson – utilizada por Piccinini – e Valtra.

Dito de outra forma, o que Costa sinaliza é que a disputa comercial entrou em uma nova fase de inovação. Mais do que lançar máquinas maiores e ainda mais potentes, será a capacidade das companhias de coletar e interpretar as informações do campo que determinará a vantagem competitiva no segmento.

Desde que assumiu, há nove anos, a presidência global da americana Deere, a maior fabricante mundial de máquinas para o agronegócio, Samuel Allen tem explicitado a marca que deseja deixar em sua gestão: tornar a Deere uma empresa mais de software, e menos de hardware.

A aposta digital é, acima de tudo, uma alternativa financeira para fazer face a oscilações do mercado

A cada dia, a montadora de Illinois investe US$ 4 milhões em pesquisas. No caso da AGCO, o montante chega a quase US$ 1 milhão. Embora seja difícil discriminar quanto desse dinheiro é destinado ao lançamento de máquinas ou em tecnologias embutidas, alguns dados indicam uma profunda mudança em curso.

A partir desse ano, 100% das máquinas Massey Ferguson e Valtra produzidas no Brasil pela AGCO sairão de fábrica com o pacote em telemetria, a tecnologia sem fio de transmissão e coleta de dados para monitoramento remoto dos equipamentos. Se fosse em 2016, isso teria representado quase 20 mil tratores – que hoje já podem ultrapassar R$ 1 milhão cada um -, sem contar as demais categorias.

Nesta semana, a Deere inaugura em Campinas, no interior paulista, seu Centro de Agricultura de Precisão e Inovação, que reunirá em um só lugar quase 100 desenvolvedores de três áreas hoje fragmentadas na companhia – Latic, o centro de inovação da América Latina, o Grupo de Soluções Inteligentes (sediado em Urban Dale e que realocará três profissionais ao Brasil) e a Auteq, empresa de software e computadores de bordo adquirida pela múlti em 2014.

A inteligência por trás das máquinas não é uma resposta apenas à demanda do agricultor, pressionado pelo aumento populacional e pelas mudanças na dieta da sociedade. A aposta digital é, acima de tudo, uma alternativa financeira para fazer face a oscilações do mercado.

Com a queda nos preços das commodities nos últimos anos, que arrefeceu a demanda por tecnologia, as montadoras viram seus números definhar. A Deere, por exemplo, registrou retração de 21% no resultado líquido no ano passado, para US$ 1,52 bilhão. Entre 2014 e 2016, as vendas da companhia saíram do patamar de US$ 36 bilhões para US$ 26 bilhões.

Ainda que a situação já apresente sinais de melhora, com uma reação das vendas, Allen, faz o seguinte raciocínio de longo prazo: o produtor rural não precisa comprar um novo equipamento todo ano, mas ele necessita de informações sobre a produção todos os anos. Essa parte do negócio, portanto, garantiria receitas constantes.

Do lado da produção, os ganhos também seriam expressivos. Cálculos da consultoria Bain & Company mostram que as novas tecnologias devem elevar em ao menos 10% a produtividade por hectare, ao mesmo tempo em que reduzirão custos devido à precisão no uso de sementes, agroquímicos, etc. "Com o Valor Bruto da Produção entre R$ 500 bilhões e R$ 600 bilhões, falamos de um acréscimo de R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões", diz Luis Oliveira, sócio da consultoria.

Em Passo Fundo, Piccinini já tenta espelhar esses ganhos na sua propriedade. Como outros 19 produtores, ele começou há dois anos a adotar, em caráter experimental, os primeiros serviços de telemetria apresentados pela AGCO no país.

Ana Paula Paiva / Valor

Alex Foessel, diretor da Deere: investimentos ampliam eficiência das máquinas

Através de uma estratégia global denominada "Fuse", que visa alinhar o desenvolvimento de novas tecnologias, a AGCO criou três tipos de pacotes de informação para o produtor, do mais básico (coleta de dados) até a gestão completa das máquinas por meio das concessionárias parceiras da montadora. É essa, aliás, a lógica de serviços a que se referiu o CEO da Deere ao falar em constância de receita.

"Não há mais a opção de a maquina vir sem um modem, por exemplo", diz Alex Foessel, diretor do Centro de Tecnologia e Inovação da Deere na América Latina. A opção de usar ou não a tecnologia, porém, é de decisão do produtor.

Piccinini está com o pacote mais completo. O diagnóstico apresentado pela montadora ao fim da primeira safra, em 2015/16, identificou perdas pelo mau uso de máquinas – velocidade acima do recomendado, manobras desnecessárias, entre outros erros. A colheitadeira, diz ele, teve eficiência de 70% – ou seja, consumiu 30% do combustível sem colher. "É absurdo. Quer dizer que a máquina estava ligada parada ou manobrando. Pense o que representa nos 150 litros de diesel que vão por dia".

Entre uma safra e outra, o produtor gaúcho diz ter conseguido reduzir também perdas médias de 100 kg/hectare para 25 kg/ hectare, graças ao monitoramento da concessionária da AGCO na região.

O pulo do gato está em antecipar problemas. Se as ferramentas agronômicas tentam capturar o assédio da lagarta antes que o estrago esteja feito, no mundo das máquinas o desafio é monitorar seu uso para prevenir desgastes ou a quebra do equipamento na safra, assim como otimizar a operação, diminuindo custos em várias frentes. O desafio, porém, continua sendo a conectividade – as montadoras prometem alternativas de conexão integral na propriedade.

Por enquanto, os serviços não estão sendo cobrados. Isso deverá ocorrer a partir da próxima safra, quando a comprovação dos ganhos no campo com a telemetria caírem no gosto do produtor.

Grasielle Silva, especialista de marketing da New Holland no Brasil, diz que a rejeição do produtor brasileiro a tecnologias já é menor. "Ele percebeu que elas resolvem a questão de mão de obra no país e garante qualidade nas operações".

Piccinini, como outros, sabe que é caminho sem volta. Mas, por ora, ele diz que os resultados da safra precisam provar a valia do pacote tecnológico, ainda que ele tenha facilitado um bocado a sua vida.

Por Bettina Barros | De Passo Fundo (RS) e São Paulo

Fonte : Valor