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Mudanças climáticas podem provocar perdas de R$ 7 bilhões para o agronegócio

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Previsão dos especialistas é de que, até o final do século, o clima fique mais quente e seco no Brasil

Sirli Freitas

Foto: Sirli Freitas / Agencia RBS

Até 2100 deverá diminuir significativamente a ocorrência de chuvas em grande parte das regiões Central, Norte e Nordeste

Pesquisadores de todo o Brasil estão reunidos em Campinas na 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais. Um dos destaques do evento é a divulgação de um novo relatório sobre os impactos do aquecimento global na agricultura brasileira, feito pela Embrapa em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O relatório é fruto do trabalho de um dos grupos que fazem parte do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) e trata da vulnerabilidade e da adaptação da agricultura brasileira às mudanças no clima nos próximos anos. Os pesquisadores da Embrapa e da Unicamp apontam que até 2020 as mudanças climáticas podem provocar perdas de R$ 7 bilhões por ano para o setor produtivo.

– É preocupante, mas nós não queremos fazer terrorismo climático. É preocupante no sentido de que nós temos que chamar atenção, principalmente dos nossos governantes, para que haja um maior empenho na área de pesquisa e genética. Precisamos tratar de adaptação, culturas hoje que são sensíveis ao calor, provavelmente podem ser substituídas por material genético que seja tolerante ao calor e à seca, pois o aumento da temperatura vai aumentar a evaporação e, consequentemente, o índice de seca. O que nós queremos é adaptação, ou seja, criação de variedades geneticamente adaptadas ao problema do aquecimento global – explica Hilton Silveira Pinto, pesquisador da Unicamp.

Culturas como café, soja e arroz podem sofrer com o aumento de temperatura. O relatório aponta que a soja teria perdas de até 23% de produtividade até 2020. Para o café a diminuição ficaria entre 9% e 10%. Para Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa e comentarista do Canal Rural, regiões tradicionais na produção de café, como o oeste de São Paulo e o Triângulo Mineiro, teriam que trocar de cultura.

– Possivelmente, com o aumento da temperatura, vai ocorrer um deslocamento de culturas de algumas regiões. Por exemplo, as culturas de inverno terão mais problemas, porque a gente vai ter os extremos, com a temperatura mínima subindo ou os picos de temperatura mínima muito fortes, como vimos este ano. Nós vimos neve em mais de cem cidades brasileiras – aponta Assad.

Adaptação

Uma das soluções apontadas pelos pesquisadores para que a agricultura nã tenha muitas perdas é o melhoramento genético.

– A transgenia pode ser utilizada sim, quando bem dirigida, quando bem aprovada, no melhoramento de plantas que precisarão de melhoramento. Nós temos o feijão, o arroz, o milho, que são facilmente tratados geneticamente. São culturas de subsistência e seria interessante o melhoramento no sentido de defesa para a falta d’água e defesa contra o aquecimento global. A Embrapa já está desenvolvendo pesquisas para mudar essa realidade e afirma que é possível minimizar os problemas desde já – diz Hilton Silveira Pinto, da Unicamp.

O estudo é resultado de anos de pesquisa da Embrapa em parceria com outras instituições. O primeiro volume foi divulgado em 2008, com os cenários para as principais commodities brasileiras.

– São 26 anos de pesquisa, 200 unidades de referências tecnológicas pronta para mostrar como a coisa funciona. No caso das monoculturas, temos um trabalho intenso de melhoramento genético, buscando plantas mais tolerantes. Recentemente a Embrapa, junto com a Unicamp, criou um laboratório chamado Unidade Mista de Pesquisa, Genética e Clima. Antes o pessoal do melhoramento não conversava com o pessoal do clima e vice-versa. É um caminho científico importante e nós temos gente, competência, capacidade pra fazer – diz Assad.

Fim do século será mais quente e seco

Nesta semana também foi divulgado um resumo do primeiro Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. Segundo os levantamentos, o clima no Brasil nas próximas décadas deverá ser mais quente – com aumento gradativo e variável da temperatura média em todas as regiões do país entre 1ºC e 6ºC até 2100, em comparação à registrada no fim do século 20. No mesmo período, também deverá diminuir significativamente a ocorrência de chuvas em grande parte das regiões Central, Norte e Nordeste do país. Nas regiões Sul e Sudeste, por outro lado, haverá um aumento do número de precipitações.

Dividido em três partes, o Relatório 1 – em fase final de elaboração – apresenta projeções regionalizadas das mudanças climáticas que deverão ocorrer nos seis diferentes biomas do Brasil até 2100, e indica quais são seus impactos estimados e as possíveis formas de mitigá-los. As projeções foram feitas com base em revisões de estudos realizados entre 2007 e início de 2013 por 345 pesquisadores de diversas áreas, integrantes do PBMC, e em resultados científicos de modelagem climática global e regional.

Uma das conclusões do relatório é de que os eventos extremos de secas e estiagens prolongadas, principalmente nos biomas da Amazônia, Cerrado e Caatinga, devem aumentar e essas mudanças devem se acentuar a partir da metade e no fim do século 21.

Emissões do transporte e dos fertilizantes tendem a aumentar

As mudanças nos padrões de precipitação nas diferentes regiões do país, causadas pelas mudanças climáticas, deverão ter impactos diretos na agricultura, na geração e distribuição de energia e nos recursos hídricos das regiões, uma vez que a água deve se tornar mais rara nas regiões Norte e Nordeste e mais abundante no Sul e Sudeste, alertam os pesquisadores.

Por isso, será preciso desenvolver ações de adaptação e mitigação específicas e rever decisões de investimento, como a construção de hidrelétricas nas regiões leste da Amazônia, onde os rios poderão ter redução da vazão da ordem de até 20%, ressalvaram os pesquisadores.

Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília (UnB), e uma das coordenadoras do Grupo de Trabalho 3, sobre Mitigação das Mudanças Climáticas, apontou que a redução das taxas de desmatamento entre 2005 e 2010 – de 2,03 bilhões de toneladas de CO² equivalente para 1,25 bilhão de toneladas – já tiveram efeitos positivos na redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) decorrentes do uso da terra.

– As emissões decorrentes da geração de energia e da agricultura, no entanto, aumentaram em termos absolutos e relativos, indicando mudanças no perfil das emissões brasileiras – disse.

Mantidas as políticas atuais, a previsão é de que as emissões decorrentes dos setores de energia e de transportes aumentem 97% até 2030. Será preciso mais eficiência energética, mais inovação tecnológica e políticas de incentivo ao uso de energia renovável para reverter esse quadro.

Na área de transporte, as recomendações vão desde a transformação de um modal – fortemente baseado no transporte rodoviário – e o uso de combustíveis tecnológicos.

O novo perfil das emissões de gases de efeito estuda revela uma participação crescente do metano – de origem animal – e do óxido nitroso – relacionado ao uso de fertilizantes.

– Apesar desses resultados, a agricultura avançou no desenvolvimento de estratégias de mitigação e adaptação – ponderou Mercedes.

CANAL RURAL, COM INFORMAÇÕES DA AGÊNCIA FAPESP

Fonte: Ruralbr