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Mudanças climáticas podem mudar geografia agrícola do Brasil

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Alterações, que devem gerar prejuízo de R$ 7 bilhões até 2020, incluem ainda migração da zona rural e aumento da incidência de pragas

por Luciana Franco

  shutterstock

Mudanças climáticas podem mudar o quadro da agricultura brasileira e gerar prejuízos de R$ 7 bilhões

“É possível que o Brasil tenha uma nova geografia da produção agrícola nos próximos anos”. A frase é de Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa, que participa da Primeira Conferencia Nacional de Mudanças Climáticas (Conclima) que acontece esta semana em São Paulo.

O novo mapeamento poderá surgir em resposta às mudanças climáticas que estão acontecendo no país, em que regiões muito quentes vão, por exemplo, desfavorecer a produção de café. “A temperatura elevada faz com a flor seja abortada e há uma frequência maior de dias com temperatura elevada principalmente em São Paulo e Minas Gerais, que deve reduzir a expansão de café nestas áreas”, diz. De acordo com o pesquisador o feijão também tem sofrido muito com abortamento de flor.

“No Brasil de maneira geral nos últimos dez anos a intensidade das chuvas aumentou, as temperaturas máximas aconteceram com maior frequência e as temperaturas mínimas também”, descreve. Além disso, os veranicos estão sendo maiores e estas plantas que estão no campo tem pouca capacidade para tolerar o veranico. “O resultado é que o aumento de temperatura deve derrubar a produtividade”. A solução existe e é simples: abandonar o monocultivo.

As mudanças climáticas não tem prejudicado apenas as lavouras, mas também a incidência de pragas: o bicho mineiro do café aparece com intensidade muito forte com o aumento das temperaturas e a sigatoka negra da banana também. “Quando começarmos a recuperar a reserva legal e mantivermos a biodiversidade passaremos a ter o que chamamos de função ecossistêmica da biodiversidade, e uma delas é controlar pragas”

Pelos cálculos de Assad as perdas agrícolas por conta de efeitos climáticos devem somar R$ 7 bilhões até 2020. “Temos que evitar isso com um bom manejo, conservação de solo e água e uso de sistemas que mantenham a água no solo”, diz. A proposta de Assad é que sejam pesquisadas na biodiversidade plantas que no passado já existiam e resistiam a temperaturas maiores. “No momento que fizermos o mapeamento genético destas plantas – em especial nos cerrados – podemos tirar o gene tolerante dela e colocar na soja ou no milho”, diz.

Outro efeito será a migração da zona rural para a zona urbana. “No momento em que você começa a ter secas intensas e sua área perde produtividade não há o que fazer”, diz.

Segundo ele, a solução é o cultivo de variedades que sejam adaptadas ao local, ou seja, ao invés de produzir arroz, feijão e milho no semiárido o agricultor passe a produzir umbu, seriguela, cajá, cajá-manga, anjico porque são culturas adaptadas aquela situação, “mas ninguém financia isso e projetos estruturantes para manter o agricultor nestas regiões comtemplam mudas, financiamento e comercialização. Se conseguirmos isso vamos fixar o homem na terra”, diz. 

Fonte: Globo Rural