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Mudanças atreladas a resultados

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Claudio Belli/Valor

Presidente do conselho da BRF, o empresário Abilio Diniz nega que tenha deixado de apoiar o CEO da empresa, Pedro Faria

Divergências entre os principais acionistas da BRF continuam a atrasar a reestruturação da gestão da companhia e a frustrar expectativas positivas criadas após a Operação Carne Fraca, quando a união de forças foi apontada como única saída para superar as dificuldades que culminaram com um prejuízo líquido de R$ 372 milhões no ano passado.

O Valor apurou que a falta de sintonia entre acionistas como os fundos de pensão Petros e Previ e a gestora de recursos Tarpon atrapalhou, por exemplo, a definição de executivos para ocupar duas das vice-presidências mais importantes da empresa (Finanças e Marketing), que estão sendo comandadas interinamente há quatro meses. E, com isso, tornou mais difícil que as marcas Sadia e Perdigão aproveitem melhor eventuais reflexos da crise que cerca a JBS – que, com a marca Seara, vinha ganhando mercados em embutidos e alimentos processados.

Embora a reação imediata à Carne Fraca – deflagrada pela Polícia Federal em 17 de março com foco em casos de corrupção entre fiscais agropecuários e funcionários de frigoríficos – tenha sido de união, com um acordo para a reeleição do empresário Abilio Diniz à presidência do conselho de administração da empresa, o clima na BRF voltou a piorar devido ao fracos resultados do segundo trimestre, que ainda não foram divulgados. Nesse contexto, o CEO Pedro Faria, que já era questionado, passou a não contar mais com apoio integral de Abilio, segundo fontes ouvidas pelas reportagem. "Abilio dá sinais de que está decepcionado", afirmou uma delas.

Recentemente, o empresário condicionou a permanência de Faria aos resultados da empresa neste terceiro trimestre, segundo uma pessoa que acompanha de perto o dia a dia da BRF. Se a companhia não mostrar reação mesmo após a forte queda do preço do milho – os grãos representam 30% dos custos da empresa-, o cargo de Faria estará ameaçado. Em nota enviada ao Valor, Abilio afirmou que as informações sobre "não apoiar o management da BRF são infundadas".

Em recente relatório, o Credit Suisse destacou que a retomada da BRF está mais lenta do que o mercado esperava. O banco também considera que o terceiro trimestre servirá como "parâmetro" para o desempenho nos meses seguintes. É o primeiro trimestre "normalizado" após os diversos obstáculos enfrentados pela empresa desde 2016 – milho caro, real apreciado e Carne Fraca.

No Brasil, onde a BRF não vinha conseguindo conter a perda de fatias de mercados para a Seara, o desemprego elevado ainda atrapalha a recuperação, notou o analista Victor Saragiotto, do Credit Suisse. No Oriente Médio, onde a empresa domina o mercado de frango, o momento também é negativo em decorrência dos estoques elevados. Além disso, a Arábia Saudita, principal comprador da região, quadruplicou a tarifa de importação, de 5% para 20%.

Outras fontes argumentam que os problemas fortalecem a chance de os fundos Petros e Previ, que têm pouco mais de 10% das ações da BRF, ampliarem a pressão sobre Pedro Faria do comando. Mas se a empresa deslanchar e aproveitar o ciclo favorável, com o milho mais barato e a JBS em dificuldades depois da delação de seus executivos, o CEO poderá finalmente se firmar no cargo.

Segundo interlocutores de Faria, que não quis dar entrevista, a BRF está em recuperação e as metas financeiras acordadas com o conselho de administração foram atingidas nos últimos dois meses. Assim, disseram, o desempenho do segundo trimestre só não foi melhor em decorrência de um "catastrófico" abril, primeiro mês depois da Operação Carne Fraca e seus efeitos deletérios sobre as exportações de carnes do país.

Conforme diversas fontes, a possível saída de Faria também seria a confirmação da deterioração da relação entre a Tarpon, que tem 8,5% das ações da BRF, e Abilio Diniz, que tem quase 4%. Faria é sócio da Tarpon e, ao lado de José Carlos Reis de Magalhães Neto, foi responsável por liderar o movimento que, em 2013, levou Abilio ao comando do conselho da BRF e tornou a Tarpon hegemônica na gestão da companhia.

Mas, sobretudo em razão dos fracos resultados de 2016, os sinais de desgaste começaram a aparecer, e executivos ligados à gestora perderam espaço na BRF no primeiro semestre deste ano. Mas Faria, que antes comandou a área de relações de investidores da Tarpon e foi sócio da Pátria Investimentos, permaneceu.

Em fevereiro, a relação entre eles parecia ter atingido o pior momento. Foi quando Faria se desentendeu com o vice-presidente de Relações Institucionais da BRF, José Roberto Rodrigues, indicado por Abilio ao cargo. Em meio a divergências, Faria chegou a sugerir a transferência de JR, como é conhecido, para a área jurídica da empresa no Oriente Médio. Ante a recusa do executivo, Faria tentou demiti-lo, mas Abilio Diniz bancou Rodrigues na vice-presidência.

Mas semanas depois veio a Carne Fraca e a urgência em debelar os impactos da operação apaziguou momentaneamente os ânimos. Nas últimas semanas, contudo, a crise entre os sócios voltou a incomodar.

É nesse cenário que a BRF ainda não conseguiu preencher os cargos de vice-presidente de Finanças e de vice-presidente de Marketing, vagos há mais de quatro meses, quando Alexandre Borges e Rodrigo Vieira, ambos ligados à Tarpon, foram demitidos. Desde então, Petros e Previ passaram a adotar posturas mais ativas no conselho, deixando de apenas ratificar as decisões de Abilio Diniz e da Tarpon.

De acordo duas fontes, a contratação do novo VP de Finanças está caminhando e uma definição poderá acontecer na semana que vem, em reunião do conselho de administração. "Mas a pessoa que será escolhida não pode ter afinidade com a Tarpon", afirmou uma das fontes.

A contratação do VP de Marketing está mais atrasada, disse essa mesma fonte. Mas, em contrapartida, a BRF confirmou ontem a contratação de Alessandro Bonorino, ex-IBM, para o cargo de vice-presidente de Recursos Humanos. A função também é considerada fundamental, já que a BRF quer reforçar as áreas comercial e de marketing.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor