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Monsanto amplia a aposta em agricultura digital no Brasil

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Ana Paula Paiva/Valor

Mateus Barros, líder comercial da Climate Corporation para a América do Sul

Após um ano e meio de testes e adaptações para o Brasil, a Climate Corporation, divisão de agricultura digital da Monsanto, iniciará no fim deste mês a comercialização oficial de suas tecnologias no país. A multinacional americana apresentará ao mercado no dia 30, em um evento em São Paulo que reunirá 250 produtores, seus primeiros sensores para máquinas agrícolas. O braço de tecnologia digital se tornou um importante caminho de expansão da companhia, diante da tendência global de queda no uso de agrotóxicos no campo e do alto custo de pesquisas envolvendo biotecnologia.

"Nossa ambição é grande", diz Mateus Barros, líder comercial da Climate Corporation para a América do Sul, referindo-se ao potencial de vendas no país do negócio, que auxilia os agricultores a aperfeiçoar suas operações com software e hardware único que combina monitoramento de clima, simulações climáticas e modelagem agronômica. Diferentemente da tecnologia elaborada para o mercado americano, voltada aos mercados de soja e milho, a versão brasileira dos sensores da Climate também será trabalhada comercialmente com produtores de arroz, feijão, trigo e cevada. A força de venda mais expressiva, porém, continua no Cerrado, onde a agricultura tem maior área apta a ser convertida.

Paralelamente ao lançamento nacional, a companhia anuncia o início de testes com produtores da Argentina e diz que planeja chegar ao Paraguai no ciclo 2018/19, diz Barros. No Brasil, 115 agricultores de Mato Grosso, Goiás e do oeste baiano usaram os sensores no último ano. A Monsanto não divulga metas de longo prazo, mas quer atingir no fim deste ano 1 milhão de hectares no país, ante os 310 mil atuais. Nos EUA, são 100 mil produtores, ou 35 milhões de hectares, e agricultores com o equivalente 7 milhões de hectares já pagam pela tecnologia.

Adquirida em 2013 por quase US$ 1 bilhão, a Climate Corporation chegou a São Paulo dois anos depois para iniciar o processo de "tropicalização" da tecnologia, importada dos EUA. "A primeira etapa para essa tropicalização foi adaptar a tecnologia para trabalhar em um ambiente offline. Nos EUA, todas as propriedades têm conexão, algumas melhores que muita cidade no Brasil. Foram seis meses para que a nossa equipe de engenharia conseguisse superar esse obstáculo", afirma Barros.

O lançamento oficial, no entanto, chega com pouco mais de seis meses de atraso em relação a softwares similares lançados pelas próprias montadoras de máquinas atuando no país, como AGCO, Deere & Co. e CNH Industrial, que oferecem, além do software, o serviço de interpretação de dados coletados. A Climate não está disposta a entrar nisso.

"Nosso papel é trabalhar o dado. Somos uma empresa de inteligência artificial. Simplesmente traduzimos as informações da maneira mais intuitiva para facilitar para o produtor. Nosso papel não é ser consultor", diz Barros, na contramão do entendimento das empresas de máquinas. Conforme o executivo, uma vantagem em relação aos demais softwares de máquinas é que ele é compatível com equipamentos de diferentes marcas. Mas um desafio será reduzir o preço da tecnologia, já que cada sensor custa cerca de R$ 1,2 mil.

Aos 36 anos, metade deles na Monsanto, Barros afirma manter na Climate a cultura de startup, segundo a qual um produto não fica pronto. "Escutamos feedbacks e melhoramos. Nesta safra fizemos 15 atualizações de software". Sobre os rumos da agricultura digital após a conclusão da aquisição da Monsanto pela Bayer, o executivo é mais discreto. "Será bom, as soluções são complementares. A Bayer foca em soluções digitais em defensivos".

Por Bettina Barros | De São Paulo

Fonte : Valor