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Momento crítico

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A equação financeira, definitivamente, desandou. Investir em novas usinas de etanol, a esta altura, parece ser uma má ideia, no curto prazo. Tomando a média de todo o setor, que reúne pouco mais de 400 unidades de produção, pertencentes a duas centenas de grupos econômicos, a receita obtida pela usina com a venda do etanol hidratado, que abastece a frota de veículos flex no país, cobre pouco mais de 80% do seu custo, tornando a produção antieconômica.

Dando formas mais concretas ao desequilíbrio, as contas do presidente do conselho deliberativo da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Pedro Parente, mostram que a indústria recebe atualmente em média 15 centavos de dólar por libra peso de etanol hidratado vendido ao mercado e gasta 18 centavos para produzi-lo. "Isso é uma hemorragia", acentua. Como resultado dessa defasagem, 41 usinas encerraram suas atividades entre 2008 e o primeiro semestre de 2012, significando a perda de 13 mil empregos diretos e perto de 32 milhões de tonelada de cana que deixarão de ser moídas, representando algo próximo a 6% da produção esperada para a safra 2012/2013 na região Centro-Sul.

Otimista, Parente considera que não há razões de natureza estratégica ou econômica que possam sugerir "uma reversão na posição agressiva do país em favor do etanol". Ele lembra que há um processo de diálogo aberto com o governo, por iniciativa da presidente Dilma Rousseff, e que o setor aguarda ser convocado para debater caminhos. Essas soluções, segundo Parente, devem ser tomadas com urgência, diante da "gravidade do momento", e precisam considerar todos os componentes da crise atual. "Sem atacar a equação financeira, o setor vai continuar a sangrar", reforça.

O consultor Plínio Nastari, da Datagro, acrescenta que vinte usinas não iniciaram a safra neste ano, no Centro-Sul, por falta de cana, em alguns casos, ou de recursos em caixa, refletindo os problemas conjunturais e estruturais enfrentados pelo setor e quatro anos sucessivos de dificuldades climáticas geradas pela estiagem ou por excesso de chuvas.

"A política de preços adotada para os combustíveis, com o congelamento virtual dos preços da gasolina, tem causado a asfixia de todo o setor, gerando uma tendência de consumo maior da gasolina e de aumento das importações, que já atingem o limite físico da Petrobras ", considera Nastari. As compras de gasolina A no mercado externo, que já haviam saltado 332,9% entre 2010 e 2011, para 2,187 bilhões de litros, segundo a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), cresceram mais 313% no acumulado dos primeiros cinco meses deste ano, somando 1,715 bilhão de litros.

"Não tem cabimento subsidiar o preço da gasolina, enquanto o etanol é submetido às regras de mercado. O país não tem uma estratégia para o setor de álcool", reclama Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (GV Agro). Rodrigues defende a criação de uma Secretaria Nacional de Agroenergia, preferencialmente ligada à Presidência da República, que passaria a responder pela formulação de políticas e pela articulação entre todos os atores da cadeia do etanol, tratando de temas centrais para o futuro da atividade, como preços, política tributária e de crédito.

Com pouca margem de manobra, o endividamento voltou a ser um dado preocupante para o setor, agravado pela frustração na geração de caixa em 2011/2012, explicada duplamente pelo desencontro entre preços e custos e pela produção abaixo do esperado. "Um sexto das usinas convive com dívida superior a R$ 100 por tonelada de cana processada, num quadro que pode levar ao mesmo desfecho de encerramento da atividade", afirma Parente.

A dívida total do setor, estima Alexandre Figliolino, diretor comercial para a área de agronegócio do Itaú BBA, subiu para R$ 42 bilhões na safra 2011/2012, cerca de 10% acima do valor anteriormente projetado para o mesmo ciclo agrícola no fim do ano passado e 3,7% mais elevado do que no ano agrícola 2010/2011. Na verdade, observa Figliolino, o setor abriga tanto grupos empresariais bem estruturados, com perfil saudável de endividamento, quanto empresas desarranjadas, que cresceram muito e continuam sendo obrigadas a se alavancar um pouco mais para manter investimentos em replantio, mecanização da colheita e manutenção. Na média, a dívida líquida por tonelada de cana moída aumentou 12% entre 2010/2011 e 2011/2012, saindo de R$ 72,70 para R$ 81,50, num avanço influenciado também pelo menor volume de matéria-prima colhida e esmagada. Mas algumas usinas rodam com dívidas de quase R$ 145 por tonelada, com desequilíbrios maiores, portanto.

Os cenários disponíveis para curto e médio prazos têm desestimulado investimentos em novas unidades. Durante o mais recente ciclo de investimentos no setor, entre 2003 e meados 2008, período em que a produção de etanol avançou a um ritmo de 13% ao ano, foram instaladas 117 usinas, das quais 55 apenas nas safras 2007/2008 e 2008/2009. O investimento total ao longo do período aproximou-se de US$ 12,9 bilhões, de acordo com Nastari.

Pegas no contrapé pela crise, as usinas engavetaram projetos e a atividade de renovação dos canaviais, para preservar a produtividade, foi reduzida. Na safra em curso, a produção de etanol deve variar entre 23 bilhões a 24 bilhões de litros, frente a uma capacidade instalada estimada pelo mercado em 36 bilhões de litros. Parente lembra que só três unidades foram inauguradas na safra passada e, neste ciclo, apenas duas passam a operar, resultado de decisões tomadas lá atrás.

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Fonte: Valor | Por Lauro Veiga Filho | Para o Valor, de Goiânia