Moinhos querem mais rigor na classificação do trigo brasileiro

Cláudio Belli/Valor
Produtores de trigo vão iniciar discussões sobre novos critérios de classificaçãoFonte: Valor | Por Fabiana Batista | De São Paulo

A indústria processadora de trigo vai apertar o cerco para elevar os níveis de exigência para a classificação do trigo produzido no Brasil. O presidente da entidade que representa os moinhos, a Abitrigo, Sérgio Amaral, afirmou que nenhuma proposta formal foi entregue até agora ao governo, mas as negociações com a cadeia produtiva do cereal devem começar neste ano. O objetivo é que os novos critérios sejam usados nas políticas governamentais de apoio à comercialização do cereal. Quando ocorrer, a mudança deverá ser implementada de forma gradativa.

Há três anos foi feita uma revisão dos parâmetros de qualidade do trigo, cuja implementação se iniciou em 2012 e deve terminar no ano que vem. Nos parâmetros antigos, por exemplo, era considerado trigo "pão" aquele com a característica de "força de glúten" (essencial na farinha usada no pão francês) de 180. Na última mudança, esse patamar subiu para 220. E a Abitrigo acredita que uma força de glúten adequada aos padrões mundiais é de 250.

O diretor-técnico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar) e presidente da Câmara Setorial do Trigo, ligada ao Ministério da Agricultura, Flávio Turra, disse que o Estado do Paraná consegue atender "relativamente bem" os parâmetros atuais de classificação do cereal, mas que não há hoje um mapeamento de qual seria a condição do trigo paranaense, por exemplo, para se enquadrar em parâmetros mais elevados, como o de 250 de força de glúten.

Em 2012, antes da mudança, 90% do trigo produzido pelo Estado era classificado como da classe "pão", ou seja, de melhor qualidade. Com o aumento do parâmetro de força de glúten para 220, automaticamente, esse percentual caiu para 65%, observou Turra. "Essas discussões na cadeia do cereal vão começar agora. Mas entendemos que os parâmetros atuais já garantem boa qualidade para panificação", disse ele.

Segundo Sérgio Amaral, a questão da classificação é apenas uma das diversas demandas que o setor moageiro nacional tem a equacionar com o governo. No entanto, disse ele, muitas já foram resolvidas, tais como a isenção do PIS/Cofins do produto e a inclusão dos moinhos na linha de crédito de financiamento de armazenagem.

Uma grande preocupação do setor, segundo o presidente da Abitrigo, está centrada na tendência de consumo nos próximos anos, que tem nas "dietas da moda", um risco de impactar o consumo do cereal.

Ele dá como exemplo o caso dos Estados Unidos, onde uma fatia de 3% a 4% dos consumidores já entraram, sem necessariamente ter alergia ou intolerância, nas dietas sem glúten, principal proteína contida no trigo. "Trata-se de uma redução do mercado para o cereal, uma vez que esses produtos são feitos à base de fécula de arroz ou de mandioca e eventualmente, de milho", afirmou.

No Brasil, segundo Amaral, o cenário é diferente, pois a tendência ainda é de aumento de consumo, devido ao crescimento da renda. "Mas as restrições alimentares trazidas por essas dietas da moda estão no horizonte. Temos que nos antecipar e nos posicionar". A entidade realiza entre 19 e 21 de outubro, em Foz do Iguaçu (PR), um congresso para discutir esses e outros temas de interesse do setor. "Estamos formando um comitê científico dentro da Abitrigo para desmistificar questões ligadas à alimentação e à saúde", disse.

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