Modo de calcular as vendas na Expointer gera polêmica

Centro da polêmica desde o encerramento da Expointer, no último domingo, o faturamento do evento pode se reverter em apenas uma fatia do total de R$ 3,292 bilhões anunciado pelo governo estadual. Situação semelhante ocorreu na edição de 2012, mas desta vez duas federações agrícolas estranharam a cifra elevada.

No ano passado, quatro em cada 10 pedidos de financiamento feitos a Banco do Brasil, Banrisul e BRDE – que responderam por 41% dos negócios anunciados na feira – não saíram do papel. Ou seja, R$ 378 milhões que haviam sido contabilizados como vendas jamais existiram, conforme informações dos próprios bancos.

A explicação está na mecânica dos pedidos de financiamento, que começam na Expointer, mas só têm desfecho algumas semanas depois. A organização da feira consegue registrar apenas os pedidos de financiamento, pois não recebe informações se o negócio saiu ou não. Além disso, os agricultores podem fazer mais de um pedido para a mesma compra, o que acaba inflando os números finais.

O recorde de negócios na edição deste ano, informado pelo secretário da Agricultura, Luiz Fernando Mainardi, causou reação de entidades como Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag) e Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul).

– Só metade dos negócios que começam na Expointer realmente se tornam venda. Quando o governo anuncia as negociações como vendas, está causando uma falsa sensação de otimismo no setor – critica Carlos Joel da Silva, vice-presidente da Fetag.

Mainardi afirmou que esse critério de cálculo é usado desde o início da Expointer e nas principais feiras, e se disse surpreendido com a crítica:

– Tive duas surpresas no domingo, uma com os negócios recordes, outra com a polêmica. Informamos os números que os bancos nos passam.

Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas do Estado, Claudio Bier, o potencial de que os negócios articulados neste ano se revertam em entregas é maior, em razão da safra recorde e dos preços altos dos grãos, que colocam mais dinheiro na mão do agricultor, e às linhas com juros menores:

– O agricultor está chegando à feira com o crédito pré-aprovado. A maioria dos negócios deverá sair do papel.

Ofensiva de bancos pode explicar alta

Ações mais agressivas de marketing e contato prévio dos bancos com clientes podem explicar parte da alta de 61,69% dos negócios encaminhados nesta edição da Expointer em relação à 2012. Conforme o superintendente do Banco do Brasil no Estado, Tarcísio Hübner, houve ligação dos gerentes para clientes anunciando as condições para crédito, o que teria levado o banco a dobrar o número de pedidos, de R$ 513 milhões para R$ 1,032 bilhão. A chegada de alguns clientes cujos contratos já estavam encaminhados também contribuiu para os resultados do banco.

O BRDE, que ampliou os pedidos de crédito de R$ 179 milhões em 2012 para R$ 706 milhões neste ano, isentou todas as tarifas para abertura de protocolos durante a feira, que chegam a 0,2% do valor pretendido. O abatimento é expressivo, avalia o banco, visto que os contratos são, em média, de R$ 20 milhões a R$ 30 milhões. A Expointer teve neste ano, no entanto, a perda de uma importante fonte de recursos: o Badesul, que em 2012 havia recebido R$ 589 milhões em pedidos.

Como funcionam os pedidos de financiamento

1 Agricultor se interessa em comprar uma máquina ou implemento exposto em concessionária na Expointer.

2 Um vendedor ou agente financeiro na concessionária encaminha o pedido de financiamento ao banco. O mesmo pedido pode ser remetido a mais de uma instituição financeira.

3 É gerado um protocolo por pedido, com cópia para o agricultor, a concessionária e a instituição financeira.

4 Geralmente, em até uma semana o banco responde à solicitação. A decisão costuma ocorrer após o encerramento da Expointer, quando há a entrega dos documentos e garantias.

5 Se o financiamento for aprovado e o agricultor mantiver o interesse na máquina, o negócio é fechado.

6 Como esse desfecho ocorre após o fim da Expointer, o evento contabiliza apenas os negócios encaminhados.

7 Há bancos que informam que até metade dos negócios encaminhados não saem do papel.

Como foi em 2012
Exemplo de três bancos que informaram os dados pedidos

Banco do Brasil
Negócios encaminhados: R$ 513 milhões
Negócios fechados: R$ 256,2 milhões
Percentual: 49,9%

BRDE
Negócios encaminhados: R$ 179 milhões
Negócios fechados: R$ 75 milhões
Percentual: 41,9%

Banrisul
Negócios encaminhados: R$ 172,5 milhões
Negócios fechados: R$ 155,3 milhões
Percentual: 90%

No final das contas
No ano passado, o volume de negócios na feira chegou a R$ 2,02 bilhões. Se forem retirados os pedidos de financiamento não fechados dos três bancos acima, R$ 378 milhões, o total cairia para R$ 1,642 bilhão.
Esses pedidos de crédito encaminhados e não concluídos representam cerca de 18% dos negócios anunciados na feira em 2012.

Fonte : Zero Hora | Erik Farina