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Mercado vê Selic a 12,25% em junho, mas diverge sobre ciclo

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Fonte: Valor | Angela Bittencourt | De São Paulo

Copom: Analistas se dividem entre fim do ajuste na semana que vem e parada técnica

Anna Carolina Negri/Valor

Tatiana Pinheiro, do Santander, espera pausa e retomada da alta no quarto trimestre, com BC comprometido a fazer convergência da inflação em 2012

Tesourarias e economistas fecham questão e projetam, em bloco, alta da taxa Selic em 0,25 ponto percentual pelo Copom na semana que vem. Todos os 33 economistas consultados peloValor trabalham com Selic de 12,25% em junho. Mas não há unanimidade quanto à evolução do ciclo de aperto monetário iniciado em janeiro e que deve puxar em 1,5 ponto percentual a taxa básica no primeiro semestre do ano. Na BM&F, a curva de juro embute mais uma alta da Selic em julho, enquanto os economistas de bancos e consultorias estão divididos. Mas o ajuste já feito na Selic e os efeitos das medidas macroprudenciais ao longo do tempo sinalizam, para a maioria do mercado, que o fim do ciclo de alta do juro está próximo.

A maioria dos economistas -19 entre os 33 pesquisados – está afinada com as tesourarias e aponta Selic de 12,50% em dezembro. Parte dos analistas, porém, acredita no encerramento do ciclo de alta já na semana que vem. Alguns não descartam uma pausa, mas com posterior retomada do ciclo de alta no quarto trimestre, resultando em Selic de até 13,25% em dezembro. Essa escalada é associada à percepção de que as expectativas de inflação para 2012 seguem resistentes acima de 5% e que o Banco Central não vai abandonar o compromisso de fazer a convergência da inflação para a meta no ano que vem.

"Esperamos agora aumento de 0,25 ponto, considerando a última ata, onde o BC sugeriu que os ajustes das condições monetárias ocorreriam por tempo ‘suficientemente longo’. Com essa indicação, não faria sentido o ciclo ser interrompido agora. Mas consideramos uma parada técnica em julho e agosto com retomada em outubro, quando já terá passado a combinação de sazonalidades que pode até levar a inflação à variação negativa em junho e muito baixa em julho e agosto", avalia Tatiana Pinheiro, economista do Santander, para quem a alta da inflação no último trimestre tende a mobilizar o Copom com foco em 2012. "As ações do BC devem ser condizentes com o discurso que vem indicando o compromisso de fazer a convergência da inflação", completa a economista que trabalha com Selic de 13% no fim do ano.

Com arrefecimento da atividade e metas fiscais cumpridas, ciclo de aperto pode ser encerrado em junho

O BNP Paribas , a Rosenberg Consultores Associados e a Tendências Consultoria trabalham com projeção de 13% em dezembro; e o Banif projeta 13,25%. Mauro Schneider, economista-chefe do Banif, pondera que no cenário básico a aplicação do gradualismo por um ‘período suficientemente prolongado para garantir a convergência da inflação para meta em 2012’ significa que a Selic provavelmente continuará a ser elevada em 0,25 ponto, Copom após Copom, passando por 13,25% no final de 2011 e chegando a 13,50% no início de 2012. "Esse cenário está relacionado à força do mercado de trabalho e ao risco de elevação generalizada dos salários", afirma.

Para Marcelo Gusmão Arnosti, gerente da divisão de macroeconomia da BB DTVM, para quem a Selic chegará a 12,75% até dezembro, o fraco resultado da produção industrial de abril, em queda de 2,1%, não alterou a perspectiva para a política monetária. Ele entende que os riscos inflacionários ao longo do segundo semestre são a persistência ainda relativamente elevada dos núcleos e índices de difusão; a reduzida ociosidade no mercado de trabalho com a possibilidade de que os custos salariais, já corrigidos pela produtividade, acelerem consideravelmente; e as expectativas de inflação ainda distantes das metas, limitando a melhora inflacionária mesmo sob a desaceleração do PIB.

Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, concorda com Arnosti e acrescenta entre os riscos inflacionários o peso das tarifas públicas que sofrerão os efeitos dos índices de preços no atacado que, em 12 meses, devem superar 10% até o final do ano.

O Bradesco integra o grupo majoritário de 19 instituições que espera Selic de 12,50% em dezembro. Octávio de Barros, diretor do departamento de pesquisas e estudos econômicos da instituição, não tira a razão dos colegas que estão questionando o cumprimento da meta de inflação em 2012 pelo efeito salário mínimo e pelo impacto dos dissídios. "A preocupação é legítima. Porém eu não vejo porque isso não possa ser acomodado na meta de 4,5%. A economia está desacelerando e prevemos um PIB do segundo trimestre correndo a 0,8% em relação ao primeiro trimestre. Estamos também revisando para baixo o PIB de 2012 de 4,5% para 4%. O carry-over de 2011 para 2012 será baixo e isso explica nossa revisão para baixo do PIB do ano que vem. Com a economia desacelerando, o poder negocial dos sindicatos dificilmente será o mesmo no segundo semestre em relação ao que assistimos até aqui neste ano. Com dois aumentos de 0,25 ponto, com uma política fiscal cumprindo mais do que a meta genuína de R$ 118 bilhões de primário e com o crédito crescendo entre 13% e 15% nesse ano, não me parece um grande desafio chegar no centro da meta em 2012. Não se pode descartar que, em um cenário frustrante, o aperto de juros peça mais rodadas de 0,25%. Mas esse não é o cenário base do Bradesco."

Fábio Akira, economista-chefe do J.P. Morgan, está na mesma corrente e atento às pressões salariais. Em contrapartida, afirma o economista, o cenário externo – que vem sendo enfatizado pelo Copom – deverá continuar no centro das atenções, principalmente se a fraqueza da economia americana levar o Federal Reserve a anunciar a terceira rodada de afrouxamento monetário, com mais impulso às commodities e aumento do fluxo de dólar para emergentes e Brasil.

Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores também vê Selic a 12,50% em dezembro. Ele pondera que a economia rodará cerca de três meses com alívio da inflação para além da sazonalidade típica do período, graças à descompressão de combustíveis e alimentação. E acrescenta que alguns itens menos voláteis também surpreendem para baixo. José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, relata que os riscos para a inflação são os de sempre: velocidade de desaceleração da economia e do crédito, eventuais pressões no mercado de trabalho e commodities. "A parte fiscal vai indo muito bem, mas ainda há desconfiança, principalmente se o tal mercado fizer a associação altamente questionável entre [o ministro da Casa Civil] Antonio Palocci e racionalidade econômica", comenta Gonçalves.

Felipe Tâmega, economista-chefe do Modal, está no grupo de quatro instituições que espera para a semana que vem a última alta da Selic em 2011. Ele pondera que o cenário é de desaceleração econômica. "Acreditamos que as metas fiscais estão sendo entregues e o crédito está se desacelerando. Com a inflação baixando e a atividade dando sinais cada vez mais claros de desaceleração, não haverá muito porque não parar o ciclo de juros muito em breve."