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Melhoram as margens dos frigoríficos no mercado interno

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Intensificada após a divulgação da delação premiada dos irmãos Batista, a redução dos preços do boi gordo no Brasil recompôs a margem dos frigoríficos no mercado interno. A melhora de margens ocorre no momento em que a rentabilidade e as vendas na exportação patinam, enquanto no mercado doméstico a demanda segue fraca.

Levantamento da consultoria MB Agro – braço da MB Associados – mostra que a diferença entre o preço da carcaça bovina casada no atacado do Estado de São Paulo e a cotação do boi gordo está 5% mais alta. Normalmente, esse indicador é negativo porque não estão incluídos os subprodutos do abate bovino (couro, sebo, entre outros). Chamada de spread, a diferença entre a carcaça e o boi gordo é um indicador de margem bruta.

Segundo o analista César Castro Alves, da MB Agro, a recuperação da margem dos frigoríficos decorre da queda dos preços do boi gordo. "O spread no mercado interno está bom", afirmou ele, ponderando que, no caso da JBS, o ritmo de abates mais fraco por causa da delação limita os ganhos pois a companhia tem mais custos fixos.

Mas os concorrentes da JBS podem aproveitar o momento favorável no mercado interno, acrescentou. "Os concorrentes aproveitam o vácuo. Os maiores frigoríficos aproveitam muito porque são considerados mais sólidos", disse Alves, em alusão a Marfrig Global Foods e Minerva Foods.

No caso dos pequenos frigoríficos, também há oportunidades. Ainda que não gozem da mesma confiança perante os pecuaristas se comparados aos maiores frigoríficos, a redução das escalas da JBS é uma oportunidade para os pequenos acelerarem os abates. "Os pequenos vão tentar produzir mais enquanto sobra boi", disse.

De certa forma, isso já está acontecendo. Conforme o informou ontem o Valor, a escala de abates – programação da produção futura de carne – da JBS caiu 65% desde a divulgação da delação. Se antes da delação a empresa tinha assegurada a compra de boi necessária para o abate dos cinco dias seguintes, agora só assegura a compra de dois dias. Por outro lado, os concorrentes aumentaram a média de cinco dias para até sete dias.

Se no mercado interno a margem dos frigoríficos melhorou por causa da queda dos preços do boi gordo, na exportação o cenário ainda é ruim, embora também haja recuperação.

Conforme a MB Agro, o spread na exportação – diferença entre o preço da carne vendida e o do boi gordo – atingiu 6% em abril, último dado disponível.

Na comparação com o primeiro trimestre, trata-se de uma sensível melhora tendo em vista que o spread de janeiro, fevereiro e março ficou próximo de 1%. "Mas ainda não está bom. Está arrastando", avaliou o analista. A média histórica do spread na exportação é de 26%, segundo a MB Agro. O levantamento da consultoria teve início no ano de 1997.

De acordo com Alves, a margem da exportação melhorou por conta da alta do preço em dólar. Até abril, o câmbio não ajudava. Em maio, o real se desvalorizou em decorrência da crise política detonada pela delação da JBS, o que pode ser positivo para as exportações.

Embora não tenha fechado os dados do spread de maio, o analista ponderou que a margem da exportação precisa de um câmbio estável. Em um cenário volátil, também há espaço para que os importadores pressionem por uma queda dos preços da carne exportada.

De toda maneira, a desvalorização do real é positiva para a exportação, ressaltou. No início de 2016, quando o dólar estava próximo de R$ 4, o spread dos frigoríficos brasileiros na exportação oscilou entre 30% e 40%, lembrou Alves.

  • Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo
  • Fonte : Valor