Me considero um otimista realista, diz Pratini

Ex-ministro da Agricultura defende a adoção de estímulos para alavancar o mercado brasileiro de máquinas agrícolas

Marina Schmidt

FREDY VIEIRA/JC

Pratini afirma que setor é pujante e tem potencial para crescer

Pratini afirma que setor é pujante e tem potencial para crescer

O crescimento do segmento de máquinas e implementos agrícolas acompanha o momento positivo do agronegócio no Brasil, mas ainda assim depende de ações para superar o período de retração econômica do mercado internacional. A análise é do ex-ministro da Agricultura Marcus Vinícius Pratini de Moraes, que, no próximo dia 4 de setembro, participa do 6º Simpósio SAE Brasil de Máquinas Agrícolas, no Centro de Eventos da Fiergs.

Além de Pratini de Moraes, o simpósio contará com palestra do consultor Carlos Cogo, que falará sobre o perfil atual e as tendências futuras para o agronegócio. O evento está organizado em dois eixos de discussão. Um deles debaterá o cenário agroeconômico a curto e longo prazo, além de avaliar as perspectivas de mercado sob a ótica dos fabricantes. O outro apresentará tendências em certificações internacionais de tratores e oportunidades para o setor agrícola brasileiro, além de abordar novidades em pulverização.

No encontro, Pratini de Moraes abordará as oportunidades do agronegócio nacional e internacional para o setor. Otimista convicto, o ex-ministro assegura que o segmento é pujante e congrega todos os artifícios necessários para crescer ainda mais, por mais que a situação atual não esteja tão favorável. Nesse contexto, o mercado interno é o grande expoente de oportunidades.

Jornal do Comércio – Muitas entidades do setor de máquinas agrícolas têm se queixado do atual cenário da economia internacional, inclusive um dos principais parceiros de negócios, a Argentina, enfrenta uma crise bastante complexa. É possível sustentar crescimento diante desse contexto?

Marcus Vinícius Pratini de Moraes – Se compararmos a produção, vendas e exportações deste ano com as da década de 1960, quando a indústria de máquinas agrícolas do Brasil começou a despontar, vamos ter uma ideia do desenvolvimento desse segmento. Em 1960, nós produzimos 37 tratores de rodas, que era um fator importante para mostrar o grau de modernização e adoção de tecnologia. A última estatística mostra que nossa produção chegou a 77 mil unidades. Foram produzidos três tratores de esteiras, em 1966, e agora são 2 mil unidades. Isso indica o desenvolvimento nas últimas décadas, o que mostra a pujança dessa indústria, que, de fato, passou por altos e baixos, enfrentou dificuldade em alguns momentos, só que nenhuma queda mede o futuro. O importante é o mercado brasileiro. Dos números que indiquei, se somarmos todos os equipamentos chegamos a 100 mil unidades hoje contra 37 unidades em 1960. Ao mesmo tempo, temos um grande crescimento do agronegócio em geral, apesar das dificuldades gerais com os vizinhos que não conseguem organizar a economia. O crescimento que vivemos em menos de 40 anos é prova do potencial da expansão brasileira. Por isso, eu digo que o mercado interno é o grande mercado da nossa indústria de maquinas agrícolas.

JC – A perspectiva, então, é positiva?

Pratini de Moraes – Eu sempre fui acusado de ser otimista e continuo sendo otimista. Apesar da atual inconsistência da política econômica e industrial, as coisas vão continuar acontecendo. Continuarei sendo otimista, só que um otimista realista. O mundo precisa do Brasil para comer, a verdade é essa. Então, antes de ser otimista minha visão é realista. A realidade brasileira é de consistente crescimento do mercado interno, já o mercado externo está sofrendo oscilações. O mundo precisa do Brasil para comer e ao mesmo tempo não vivemos uma relação de dependência estamos com o mercado externo para continuarmos crescendo.

JC – Os recordes de safras contribuem para esse cenário? E continuarão em expansão?

Pratini de Moraes – Acredito que essa expansão vai prosseguir e acredito também que a capacidade produtiva vai aumentar, com adoção de tecnologia. Há gente reclamando, mas eu acho que tudo pode ser vencido. O grande instrumento ao qual precisamos recorrer, neste momento, é ampliar o mercado para além de suas fronteiras, chegar a novos parceiros externos. Não é um bom momento internacional, mas vamos superar. Precisaremos, no entanto, instituir novos instrumentos de incentivo para a exportação. O mundo inteiro está consumindo mais proteína vegetal e animal. Falta apoio, incentivo, crédito e condições de operação de crédito para ampliar o quadro de compradores do Brasil. Está chegando a hora de o Brasil financiar, de maneira mais rápida, volumes e taxas de juros para os nossos compradores. Aliado a isso temos que fazer um esforço de promoção e marketing nos países emergentes.

JC – E os estímulos aos produtores? As políticas de incentivo têm sido suficientes para melhorar o nível de modernização dos agricultores?

Pratini de Moraes – Quando criamos o Moderfrota, programa que representou um avanço para máquinas agrícolas, tivemos um aumento significativo e consistente nas vendas, sem que fossem necessárias grandes mudanças. Espero que isso prossiga. Temos que cobrar consistência e estabilidade política. Não pode haver tantas mudanças nas políticas, como acontece atualmente. Com o programa, conseguimos manter a consistência para reestabelecer a adimplência dos produtores. As dívidas foram renegociadas e continuam sendo. Eu proponho agora um novo passo: financiar a exportação, com prazos compatíveis para que a produção, reduzir as dívidas dos produtores e conceder prazos e condições de financiamento mais viáveis. Um dos maiores problemas do Brasil é o custo financeiro abusivo, isso tem que mudar e precisa estender essa necessidade aos nossos vizinhos. O Brasil tem taxa de juros que são as mais altas do mundo.

Em evento na Fiergs, SAE Brasil debate inovações tecnológicas e perspectivas setoriais

Em razão das safras recordes no Brasil, os produtores agrícolas têm elevado o índice de área semeada e investido em tecnologias para ganhos de produtividade. Este cenário norteará as discussões do 6º Simpósio SAE Brasil de Máquinas Agrícolas, que debaterá as perspectivas de mercado e as inovações tecnológicas no Centro de Eventos da Fiergs, no dia 4 de setembro.

De acordo com Roseane Campos, chairperson do encontro, o ano é positivo para o segmento de máquinas e implementos agrícolas em razão das safras recordes no Brasil. “Toda uma cadeia acaba sendo beneficiada com a demanda crescente de alimentos”, afirma. Para Roseane, os bons preços e a melhoria da renda têm possibilitado a produção de grãos alcançar patamares jamais atingidos.

A expectativa é maior inserção de tecnologia, que atenda às crescentes necessidades agroeconômicas, para elevar a produtividade no campo. “Neste ano, os planos de financiamento do governo foram lançados com atraso, já no segundo trimestre. Este atraso impactou na produção, porque o segmento de máquinas agrícolas trabalha diretamente com planos de financiamento”, afirma.

Organizado em dois eixos, o encontro contará com lideranças da engenharia mundial e dos principais fabricantes de máquinas e implementos agrícolas. Um dos eixos debaterá o cenário agroeconômico a curto e longo prazo, além de avaliar as perspectivas de mercado sob a ótica dos fabricantes.

Centrado nos avanços da tecnologia de equipamentos, o outro eixo de discussão apresentará as tendências em certificações internacionais de tratores e as oportunidades para o setor agrícola brasileiro, além de abordar novidades em pulverização. “Vamos falar sobre a pulverização do futuro, as tendências tecnológicas e os desafios para lidar com as particularidades do Brasil, um país tropical que sempre apresenta umidade e calor”, afirma Roseane.

A expectativa é que o Simpósio SAE Brasil de Máquinas Agrícolas atraia 450 visitantes, sendo o público alvo composto por engenheiros do segmento que buscam atualização e conhecimento sobre o atual cenário do setor. “Os simpósios representam oportunidades para atualização e discussão de temas técnicos conectados com as demandas de uma sociedade ávida por mais segurança, conforto e qualidade de vida”, aponta Ricardo Reimer, presidente da SAE Brasil.

Fonte: Jornal do Comércio |