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Maus resultados e incertezas pressionam novo CEO da BRF

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Leo Pinheiro/Valor

No comando BRF, Drummond terá de resgatar a confiança dos investidores

Com pouco mais de uma semana no cargo de CEO da BRF, maior exportadora mundial de carne de frango, José Aurélio Drummond Jr. já pode ter uma prévia do desafio que aceitou. Em meio à conturbada relação entre os principais sócios e à falta de confiança dos investidores, as ações da BRF atingiram no meio do pregão de ontem o menor valor em cinco anos, mas se recuperam um pouco e encerraram a sessão no menor nível desde março.

A desvalorização das ações que tanto aflige os fundos de pensão Petros e Previ, os dois maiores acionistas da companhia, não foi estancada sequer com a indicação do novo CEO, diferentemente do que muitos analistas e acionistas imaginavam.

Desde 22 de novembro, quando Drummond foi aprovado pelo conselho de administração da BRF – a posse do executivo ocorreu em 11 de dezembro -, as ações caíram 13,6%, o que fez a companhia perder R$ 4,6 bilhões em valor de mercado na B3, para R$ 28,9 bilhões.

No ano, o desempenho negativo chama atenção. A dona da Sadia e Perdigão já caiu mais do que a rival JBS, mergulhada em uma crise de grandes proporções depois da delação premiada dos irmãos Batista.

No acumulado de 2017, as ações da BRF caíram 26,2%, o que retirou R$ 10,3 bilhões do valor de mercado da companhia. Os papéis da JBS, por sua vez, caíram 20,3%. A empresa dos Batista perdeu R$ 7,9 bilhões em valor de mercado, encerrando o pregão de ontem avaliada em R$ 24,7 bilhões. Com esse desempenho, as duas empresas se distanciaram do Ibovespa, que já se valorizou mais de 20% este ano.

Procurada pelo Valor, a Petros informou que "não se pronuncia sobre questões internas das empresas investidas, mas ressalta que está insatisfeita com os resultados até então apresentados pela BRF e com o desempenho dos preços das ações". A Previ não quis comentar. Juntos, os dois fundos de pensão têm 22,1% do capital da empresa. Os dois fundos se opuseram à indicação de Drummond ao cargo de CEO, mas o presidente do conselho de administração da BRF, Abilio Diniz, venceu a queda de braço.

Mas Abilio ainda não conseguiu convencer os investidores. Em relatório de 7 de dezembro, assinado pelos analistas Thiago Duarte e Vito Ferreira, o BTG Pactual avaliou que o movimento de venda dos papéis da BRF reflete a decepção dos investidores com a falta de clareza sobre a estratégia da companhia, que piorou depois da indicação "não consensual" do novo CEO. Procurada, a BRF não comentou.

Ao Valor, uma fonte próxima à BRF também demonstrou desconforto com a decisão de Drummond de seguir como membro do conselho de administração da empresa mesmo depois de se tornar CEO. O argumento é que, em maior ou menor medida, o executivo é parte interessada em todas as decisões do conselho. Mesmo que ele se exima de votar em assuntos de interesse da diretoria, o acúmulo de funções pode denotar falta de governança.

Para essa mesma fonte, a permanência de Drummond pode ser entendida à luz do jogo político na BRF. "Abilio quer manter a maioria no conselho", argumentou. Procurado pela reportagem, o empresário não quis comentar.

Apesar disso, a aposta é que aos poucos Drummond possa mostrar seu trabalho, dando sequência à reestruturação da BRF. "No dia a dia, ele já mudou a clima de pessimismo na empresa", disse a fonte.

  • Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo
  • Fonte : Valor