Margens do produtor nos EUA devem cair

Conforme a colheita de grãos nos Estados Unidos avança e reforça as perspectivas de uma safra histórica, os produtores americanos começam a vislumbrar um temporada de vacas mais magras, após um ciclo de lucros recorde nos últimos quatro anos. Desde o começo do ano, quando o plantio começou a ser planejado, os preços da soja e do milho têm enfrentado forte desvalorização, e muitos agricultores do país já compartilham com seus pares brasileiros o temor de um rentabilidade menor em 2014/15 – em alguns casos até mesmo negativa.

Desde o início do ano até a última sexta-feira, os contratos de segunda posição (geralmente, os mais negociados) da soja na bolsa de Chicago já sofreram uma desvalorização de 25,3%, fechando a US$ 9,6225 o bushel, enquanto os do milho já caíram 20%, a US$ 3,4425 o bushel, segundo cálculos do Valor Data. Ambos os grãos estão sendo negociados nos menores valores em quatro anos, e os analistas são unânimes em dizer que o mercado ainda deve recuar mais.

Esses valores já estão abaixo dos custos de produção desta safra. Em Iowa, um dos principais polos de grãos dos Estados Unidos, os produtores desembolsaram para a cultura da soja em média US$ 11,13 o bushel e, para o milho, US$ 4,30 o bushel, segundo Stefan Tomkiw, vice-presidente da mesa de derivativos para a América Latina da Jefferies Bache, em Chicago.

No último ciclo, a margem dos produtores americanos com a soja girou em torno de 30%, considerando um custo médio de US$ 12,50 o bushel e um preço médio de vendas de US$ 16 o bushel, calcula Tomkiw. "Neste ano, com certeza vai haver uma bela deterioração da renda do produtor", afirma o analista.

De acordo com um levantamento da consultoria AGR Brasil, de Chicago, o retorno financeiro em 2014 deve cair ao menor patamar desde 2010, em paralelo com o desempenho dos preços. A perspectiva é que o resultado líquido médio para soja e milho fique um pouco acima dos US$ 50 por acre (0,4046 hectare). Em 2013, a rentabilidade ficou acima de US$ 175 o acre.

A perspectiva de margens mais apertadas foi reforçada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em relatório publicado no fim de agosto. Em seus cálculos, o valor bruto de produção da soja em 2014 deve cair 14,3%, para US$ 36,856 bilhões, enquanto o do milho deve ceder 29,3%, para US$ 50,148 bilhões.

O pessimismo com a rentabilidade é ainda maior porque muitos americanos repetiram a estratégia dos produtores brasileiros e seguraram as vendas, apostando na reação das cotações. "A postura do americano não está diferente do brasileiro. Eles estão rezando para que aconteça algo com o clima para salvar os preços", diz Alvaro Ancede, corretor do The Laifa Group, em Chicago.

Não há levantamento oficial sobre o ritmo de comercialização da safra nos Estados Unidos, mas o mercado estima que os produtores tenham vendido, até agora, 50% da safra estimada de soja e milho, afirma Tomkiw. "Normalmente, como a colheita está iniciando, já deveria estar em 60%".

Ao segurarem a oferta, os produtores tentam criar um cabo de guerra com os compradores, mas até agora sem sucesso. Segundo Ancede, "o comprador vê a perspectiva de preço e não corre atrás. Em períodos de abundância, o comprador faz negócio à medida que precisa".

Porém, lucros menores na conta não significam automaticamente um investimento reduzido para a próxima safra. "Pelo histórico, em anos de rentabilidade menor, o produtor continua produzindo", assegura Pedro Dejneka, sócio-diretor da AGR Brasil. Na última vez em que houve recuo das margens, entre 2008 e 2009, o plantio de soja e milho manteve-se praticamente estável. Neste ano, o analista projeta um avanço da área com a oleaginosa nos Estados Unidos na próxima safra e uma leve redução da extensão semeada com milho.

Além disso, o bolso dos produtores americanos ainda guardam parte da renda dos últimos anos. "É essa gordura que eles estão queimando nos últimos meses", ressalta Tomkiw.

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Fonte: Valor | Por Camila Souza Ramos | De São Paulo