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Mais um mês de quedas para as commodities

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Os preços da maior parte das principais commodities agrícolas exportadas pelo Brasil voltaram a recuar em junho nas principais bolsas americanas. De acordo com cálculos do Valor Data baseados nas médias mensais dos contratos futuros de segunda posição de entrega, em Nova York (o levantamento foi fechado no dia 29), açúcar e café registram a quinta queda consecutiva e descem aos menores patamares desde fevereiro e maio do ano passado, respectivamente, enquanto suco de laranja e algodão têm a terceira retração seguida e estacionam nos menores níveis desde março e dezembro de 2016. Na bolsa de Chicago, a média mensal da soja, é a menor também desde março do ano passado.

Como o Brasil lidera as exportações globais de açúcar, café, suco e soja, e é o quarto maior no ranking do algodão, a desvalorização do real em relação ao dólar – derivada das turbulências políticas do país – ajuda a explicar parte das baixas das cinco commodities. Afinal, esse comportamento cambial estimula as exportações brasileiras e, teoricamente, é um fator de ampliação de oferta. Mas não é só isso. De forma geral, são confortáveis as relações entre oferta e demanda globais desses produtos, o que restringe o espaço para valorizações expressivas.

Mesmo assim, as cinco commodities agrícolas cujas cotações perderam sustentação em junho encerram o primeiro semestre com médias superiores às do mesmo período de 2016. Na comparação de médias semestrais, a maior alta é do algodão (23,5%), seguida pela do suco de laranja (12,1%), do café (11,2%), do açúcar (10,3%) e da soja (1,6%). Como o viés é de baixa, contudo, a tendência é que esses ganhos sejam diluídos até o fim do ano. Em relação às médias do segundo semestre do ano passado, os resultados de janeiro a junho de 2017 já são inferiores nos mercados de suco de laranja (19,6%), açúcar (15,5%), café (7,7%) e soja (1,6%). Nesse grupo, só o algodão sobe (8%) na comparação entre o primeiro semestre de 2017 e o segundo de 2016 (ver Itaú BBA projeta cotações ainda atraentes para algodão, mas aponta riscos em 2018).

Outro destaque entre as commodities agrícolas mais exportadas pelo país, o milho foge à regra e encerra junho com média mensal 1,9% superior à de maio em Chicago, no melhor resultado desde o mesmo mês do ano passado. Mesmo com essa recuperação, a média do primeiro semestre ainda é 2% menor que a de igual período de 2016, mas na comparação com o resultado do segundo semestre do ano passado a alta chega a 7,2%. Boa parte da sustentação do cereal, porém, vem de ameaças à produção americana na safra 2017/18, que poderão arrefecer com o desenvolvimento das lavouras.

E, para os próximos dias e semanas, a tendência é de queda. Não por coincidência, os fundos que operam em Chicago triplicaram as apostas na queda do cereal na semana encerrada no dia 20. Conforme dados da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC, na sigla em inglês), o saldo líquido vendido dos gestores de recursos ("managed money") aumentou 200% em relação à semana anterior. O saldo líquido vendido também cresceu no mercado de soja, mas a alta foi de menos de 10% na mesma comparação.

Na bolsa de Nova York, também cresceram as apostas em novas baixas de açúcar e café. Como destaca recente relatório do Itaú, no mercado de açúcar há um excesso de oferta provocado pelo consumo fraco no Brasil e pela safra maior que a prevista inicialmente na Tailândia, por um lado, e pelo relativo enfraquecimento das importações chinesas e indianas. Em sua análise, o banco lembra que o etanol também tem influência na queda do açúcar. "Com o declínio da cotação do petróleo, a gasolina ficou bem mais barata no Brasil, o que aumentou a demanda pelo combustível e reduziu o consumo de etanol, afetando seu preço", diz o relatório O movimento ajuda a explicar a elevação do volume da moagem de cana destinada à produção de açúcar no Centro-Sul do país nas últimas semanas.

No mercado de suco de laranja, como já informou o Valor, pesa sobre as cotações internacionais a recuperação da produção da fruta no cinturão formado por São Paulo e Minas Gerais – a colheita, muito prejudicada por problemas climáticos no ciclo 2016/17, deverá crescer quase 50% em 2017/18. No caso do café, contudo, há receios com o efeito do clima sobre a safra 2017/18, de bienalidade negativa, portanto já inferior à passada.

Por Fernando Lopes, Cleyton Vilarino e Fernanda Pressinott | De São Paulo

Fonte : Valor