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Mais perto da BRF, Lactalis poderá virar gigante em captação de leite

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Reuters/Max Rossi
Produtos com a marca Parmalat na Itália; francesa Lactalis, que recuperou uso da marca no Brasil após compra de ativos da LBR, também deve ter em seu portfólio as marcas Batavo e Elegê, da BRF

Depois de adquirir ativos da LBR – Lácteos Brasil e recuperar o controle da marca Parmalat no Brasil, a francesa Lactalis está próxima de fechar a aquisição da divisão de lácteos da BRF, por cerca de R$ 1,6 bilhão, segundo fontes do setor. Conforme antecipou oValor PRO, serviço em tempo real do Valor, se a operação for concretizada – as negociações ainda estão em curso -, a Lactalis, até pouco tempo quase desconhecida no Brasil, deve se tornar a segunda maior empresa do setor no país em captação de leite, com um volume estimado de 5,2 milhões de litros por dia ou cerca de 1,9 bilhão por ano.

Procurada, a BRF disse que não comentaria. A Lactalis do Brasil não respondeu ao e-mail enviado pela reportagem.

Conforme fontes do setor, a transação da Lactalis com a BRF envolve 11 unidades de lácteos da empresa brasileira, para produção de leites UHT, refrigerados, como iogurtes, e queijos.

Assim, considerando as unidades adquiridas pela Lactalis da LBR – em venda aprovada pelos credores no processo de recuperação judicial da brasileira em agosto passado – e as da Balkis (comprada há um ano), a Lactalis já terá, de imediato, 17 fábricas no Brasil se a compra dos ativos da BRF se confirmar. As unidades estão espalhadas pelos Estados Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Rio de Janeiro.

Os números da captação de leite – a compra de matéria-prima dos produtores – que a empresa francesa pode alcançar no Brasil levam em conta a capacidade de cada unidade adquirida pela Lactalis da LBR e os números de captação de leite da BRF no ano passado, conforme o ranking da associação Leite Brasil.

Em 2013, a BRF foi a segunda no ranking de captação de leite no país, com 1,377 bilhão de litros no período. Ficou atrás da DPA Manufacturing Brasil, que captou 2,033 bilhões de litros de matéria-prima. A DPA Manufacturing Brasil adquiria leite para Nestlé, Fonterra, DPA Brasil, DPA Nordeste e Nestlé Waters.

Em maio passado, a Fonterra e a Nestlé desfizeram a parceria na captação de leite, o que deverá se refletir parcialmente no próximo levantamento. Isso significa, segundo estimativas do mercado, que a Lactalis poderia até mesmo ficar em primeiro lugar no ranking de captação de leite, considerando dados anualizados.

O número de fábricas que a Lactalis deve ter no país pode ser maior que as 17 previstas agora. Isso porque há indicações de que a empresa francesa poderia arrendar unidade adquirida pela ARC Medical Logística no processo de venda de ativos da LBR aprovado pelos credores no mês passado. Trata-se da operação da Líder, que tem plantas em Lobato (PR) e Presidente Prudente (SP), além da marca Líder.

Tanto a aquisição dos ativos da LBR pela Lactalis como a provável compra daqueles da BRF pela empresa francesa têm de ser submetidas ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), já que envolvem empresas com faturamento superior a R$ 750 milhões por ano.

Além de unidades em bacias leiteiras importantes do Brasil, a Lactalis também terá um portfólio invejável de marcas se fechar a compra dos ativos da BRF. Sua marca nacional deve ser Parmalat, que pertence à italiana Parmalat SpA, sua controlada desde 2011. A marca, que foi sucesso no Brasil nos anos 1990, estava em uso pela LBR sob licença até 2017. No entanto, para comprar os ativos da LBR no processo de recuperação judicial, a Lactalis impôs como condição o fim dos contratos de licenciamento com a empresa brasileira.

Na prática, conforme uma fonte próxima à Lactalis, a companhia francesa pagou R$ 250 milhões – valor da compra dos ativos da LBR – para antecipar em três anos a retomada da marca Parmalat no mercado brasileiro.

Afora a Parmalat, a Lactalis vai operar ainda com marcas fortes como Batavo, Elegê, que pertencem à BRF, e Poços de Caldas (comprada da LBR), e outras regionais como Boa Nata e DaMatta, também compradas da LBR.

Como informou o Valor em agosto, BRF e Lactalis negociam há cerca de sete meses. As conversas têm sido complexas por conta da quantidade de ativos envolvida e também porque, inicialmente, a BRF não queria se desfazer de seu negócio de queijos. A razão é que a BRF considera o produto importante dentro de seu portfólio, já que é comercializado junto com outros frios com a marca Sadia.

A BRF também recebeu propostas por seus ativos de lácteos da francesa Danone, da canadense Saputo e da mexicana Lala, segundo fontes do setor. A Danone teria feito uma proposta "quase irrecusável" pelos ativos de refrigerados da BRF, ouviu o Valor de fontes do mercado.

A questão é que a BRF deseja vender todos os ativos de lácteos – inclusive leite longa vida, que tem margens mais baixas – e não apenas os refrigerados. No fim de julho passado, Cláudio Galeazzi, CEO da BRF, chegou a dizer que a empresa poderia fazer um spin-off da divisão de lácteos, caso a venda da operação não se concretizasse.

A divisão, que faturou R$ 2,8 bilhões no ano passado, virou "patinho feio" dentro da BRF, principalmente com a chegada de Abilio Diniz ao conselho de administração da companhia. A Tarpon, acionista da BRF que patrocinou a ida de Abilio à empresa, sempre foi avessa à operação de lácteos da companhia.

A Lactalis tornou-se uma das maiores de lácteos do mundo depois de adquirir o controle da italiana Parmalat S.p.A em julho de 2011. A empresa faturou € 16 bilhões ano passado, sendo que 61% dessa receita veio das unidades da Europa, 18% das Américas e o restante de África, Ásia e Comunidade dos Estados Independentes (CEI).

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Fonte: Valor | Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo