Mais grãos da Argentina no mercado

Os produtores de grãos da Argentina começaram a comemorar esta semana uma notícia pela qual esperaram 13 anos. Como prometido em campanha, em seu primeiro dia de governo, dia 11, o presidente eleito da Argentina, Mauricio Macri, eliminará totalmente as taxas cobradas na exportação de trigo, milho e carne e iniciará o processo de redução gradativa na soja. A boa nova para os produtores foi anunciada pelo futuro ministro da Agricultura, Ricardo Buryaile.

No caso da soja, a taxa vai cair de 35% para 30%. A cada ano serão retirados cinco pontos percentuais até chegar a zero em sete anos. Trigo, milho e carne, com 23%, 20% e 15%, respectivamente, estarão livres já na véspera do Natal. As medidas incluem, ainda, a liberação da cobrança em sementes de girassol, taxadas em 32%.

"Há uma mudança de expectativas muito grande, que traz um clima de investimento no campo que há muitos anos não tínhamos na Argentina", afirma o produtor Santiago Soler, também diretor da Consórcios Regionais de Experimentação Agrícola (CREA).

A taxa da soja levará mais tempo para ser extinta em razão do reforço financeiro que esse mecanismo ainda representa para os cofres públicos. A Argentina é o terceiro maior produtos de soja do mundo, com expectativa de exportar 10,75 milhões de toneladas de grãos na safra 2015/16, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). "Mas no atual contexto, uma redução inicial de cinco pontos já representa uma significativa melhora", destaca Soler.

O produtor está aliviado por poder, como diz, devolver ao solo onde cultiva, as sementes de trigo e milho, que nos últimos anos deram lugar à soja. Isso porque, além das taxas, em vigor desde 2002, em 2008 o governo decidiu também limitar os volumes de exportação de trigo, milho e carne na tentativa de evitar aumentos de preços desses produtos no mercado interno. Embora não tenha sido anunciado ainda depois da eleição, os produtores esperam que as limitações à venda externa também sejam extintas no novo governo.

"Estou em dívida com meu solo. Por isso, vou voltar a cultivar trigo e milho", diz Soler. Ele estima que logo nas próximas safras desses produtos haverá um significativo salto em relação a 2015 e, como muitos do setor, o produtor espera que o Brasil volte a ser um comprador importante do trigo argentino. O norte da África, afirma, é outro foco dos exportadores na fase de recuperação da competitividade argentina no mercado mundial.

A Associação Argentina de Trigo (ArgenTrigo) estima que o próximo plantio do cereal poderá somar 7 milhões de hectares, quase o dobro da extensão atual.

Um estudo do CREA realizado em setembro mostrou que 83% das áreas agrícolas argentinas dedicadas ao cultivo de trigo e milho estavam inviáveis.

Os produtores esperam, agora, pelo programa de medidas macroeconômicas que deverá ser anunciado em breve. A maior expectativa está em torno de uma desvalorização do peso, o que elevaria ainda mais a competitividade do país. "Está claro que o câmbio está defasado", observa Soler.

O dólar no mercado paralelo é vendido por uma diferença de cerca de 50% em relação ao câmbio oficial. A moeda americana fechou ontem a 9,7 pesos para venda no oficial e 14,7 no paralelo. Mas o anúncio do fim das taxas para exportação já provocou queda no paralelo. As casas de câmbio chegaram a vender o dólar a 15 na semana passada.

A soma do fim das taxas de exportação com a expectativa de desvalorização cambial devolve aos produtores a esperança de melhorar a sua competitividade. "Eliminar as taxas equipara as regras de jogo com nossos competidores. Nenhum dos países vizinhos cobra direitos de exportação em produtos agropecuários e, consequentemente, cresceram muito mais que a Argentina nesse aspecto", destaca a Sociedade Rural Argentina por meio de nota.

A Sociedade Rural estima que sem as atuais travas a Argentina poderia produzir alimentos para 680 milhões de pessoas num prazo de cinco anos. Isso significa o dobro de hoje.

Os empresários do setor também estão entusiasmados com o ministro da Agricultura escolhido por Macri. Ricardo Buryaile vem do agronegócio. É dirigente de uma das entidades do setor, a Confederação Rural Argentina (CRA) e, ao mesmo tempo, já atua na política como deputado federal. No Congresso, foi presidente da comissão de agricultura.

Por Marli Olmos | De Buenos Aires

Fonte : Valor