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Mais cerveja no copo, mais cevada no campo

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Maltaria em Passo Fundo estimulou a ampliação da área cultivada com o cereal no Estado

por Joana Colussi

04/11/2014 | 05h01

Mais cerveja no copo, mais cevada no campo Diogo Zanatta/Especial

Operação da Ambev elevou a área plantada com o grão de 45 mil hectares em 2013 para 55 mil neste anoFoto: Diogo Zanatta / Especial

Principal matéria-prima da cerveja, o malte que abastece indústrias no Brasil tem boa parte de sua origem no Rio Grande do Sul, onde é cultivada mais de 50% da área de cevada do país. Além do clima frio, necessário para a cultura de inverno, os gaúchos ganharam recentemente novo estímulo para investir no cereal. Maior cervejaria do Brasil, a Ambev começou neste ano a operar a pleno a nova maltaria de Passo Fundo.

Desde 2011, quando R$ 140 milhões em investimentos foram anunciados na unidade, a área semeada no Estado saltou de 34 mil hectares para 63 mil hectares, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. A escolha pela cidade é estratégica: a região responde por 90% da cevada colhida no Estado.

— A unidade já foi planejada para ser duplicada — ressalta Felipe Duarte, gerente-geral da maltaria.

A hora de ampliar a maltaria será ditada pelo mercado e pela economia, afirma Marcelo Otto, diretor agroindustrial da Ambev. Em Passo Fundo, são produzidas em torno de 110 mil toneladas de malte para distribuição a três fábricas em São Paulo e uma em Lages (SC). As cervejarias gaúchas, em Sapucaia do Sul e Viamão, são abastecidas pela maltaria de Porto Alegre. Outras três unidades de transformação estão no Uruguai e na Argentina.
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As maltarias da empresa no país — duas gaúchas e outra no Paraná — operam com 80% de grãos nacionais. O restante é importado. Com 2 mil produtores parceiros, quase 90% no Estado, a Ambev fomentou o cultivo de 55 mil hectares nesta safra — 10 mil a mais do que em 2013. Para 2015, a meta é chegar a 70 mil hectares.

A autossuficiência será alcançada com 150 mil hectares, calcula Dércio Luis Oppelt, agrônomo da Ambev.

— O cultivo da cevada está associado à indústria cervejeira. Se a demanda aumentar, a área plantada crescerá junto — diz Euclydes Minella, pesquisador da Embrapa Trigo, desenvolvedora de 90% das variedades de cevada produzidas no país.

O Estado já chegou a cultivar mais de 100 mil hectares, na década de 1990, estimulado por Antartica e Brahma, incorporadas pela Ambev.

Excesso de umidade castiga safra gaúcha
Se em anos de clima favorável a cevada costuma alcançar rendimento superior às demais culturas de inverno, em safras adversas as perdas nas lavouras são bem maiores. Sensível ao excesso de umidade combinado com calor, o cereal enfrentou problemas no atual ciclo.

— Neste ano, o clima nos castigou do início ao fim, no plantio e agora, no período da colheita — relata a produtora Celi Webber, de Coxilha, no norte gaúcho.

Com 130 hectares plantados destinados para semente, Celi espera colher pelo menos 60 sacas por hectare. No ano passado, chegou a 90 sacas por hectare. Além da redução no volume, a preocupação é em relação à baixa qualidade do grão.

— A cevada que não tiver qualidade cervejeira vai para ração animal, o que reduz o preço pago ao produtor para menos da metade — lamenta Claudio Dóro, assistente técnico regional de culturas da Emater de Passo Fundo.

Conforme Dóro, produtores rurais de diversos municípios da região já relataram perdas e solicitaram seguro agrícola.

Veja o vídeo sobre a produção de cevada e do malte, em Passo Fundo

Estimulados pela garantia de compra

Com contratos prefixados antes mesmo do plantio, os produtores gaúchos de cevada têm mercado assegurado para a safra — além de sementes e fertilizantes a preços subsidiados pela Ambev. Neste ano, a companhia adotou duas formas de pagamento: R$ 560 a tonelada ou a cotação do trigo na Bolsa de Chicago.

— Temos uma garantia de comercialização, sabemos para quem iremos vender — ressalta William Westermann, 22 anos, produtor rural em Piratini.

A família Westermann cultiva 577 hectares de cevada e estimula o plantio do cereal em outros mil hectares no sul do Estado. A opção pela cultura se dá também pela maior produtividade em relação ao trigo:

— Nas mesmas condições de solo e clima, se colhe 20% mais cevada do que trigo.

Outra vantagem da cultura é liberar os campos mais cedo para o cultivo de verão. O ciclo de produção é 15 dias mais curto na comparação com o trigo.

— Uma semana já faz uma diferença enorme para entrar com o plantio da soja e escapar dos períodos de estiagem — avalia Euclydes Minella, pesquisador da Embrapa Trigo.

Estudos apontam que a produtividade da soja na resteva de cevada chega a cinco sacas a mais do que na de trigo. O sucesso das lavouras, no entanto, depende da germinação mínima de 95% dos grãos para o cereal ser transformado em malte. Caso contrário, o grão é destinado para ração animal, com um valor comercial inferior à metade.

— Em condições adversas, é uma cultura muito mais sensível a perdas — acrescenta Minella.

Fonte: Zero Hora