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Maggi estuda como reerguer setor de carnes

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Rial citou o potencial do Brasil para atrair investimentos do exterior

Rial citou o potencial do Brasil para atrair investimentos do exterior

SANTANDER/SANTANDER/DIVULGAÇÃO/JC

Thiago Copetti, de Cuiabá

Realizado nesta quinta-feira, em Cuiabá, o seminário A Força do Campo, promovido pelo Santander Brasil, teve temas quentes sendo debatidos especialmente fora da programação oficial. Em meio à crise política gerada pelas delações dos irmãos Batista (proprietários do frigorífico JBS), com o mercado ainda se recuperando das perdas causadas pela Operação Carne Fraca e um dia após o tumulto que levou à depredação do prédio do Ministério da Agricultura, em Brasília, a presença do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, foi uma surpresa. O ministro afirmou que o governo acompanha de perto os problemas do setor de carnes e que estuda mecanismos para recuperá-lo.

Apesar de prevista na programação inicial, a presença do político havia sido retirada da agenda poucos dias antes do seminário. Maggi, ex-governador do Mato Grosso e um dos maiores produtores de soja do Brasil, porém, acabou confirmando a ida e deu fôlego a mais para os debates, sobretudo no saguão da área de eventos do hotel Gran Odara, onde se reuniram centenas de empresários, produtores e líderes rurais. Enquanto, no painel de abertura, Maggi falou mais conceitualmente sobre a força do agronegócio e sobre o próximo Plano Safra, a ser lançado nos próximos dias; em conversa com jornalistas, o ministro criticou a JBS e o Bndes, mas assegurou seu apoio ao presidente Michel Temer e o reforço no policiamento durante a invasão e destruição de alguns prédios na Esplanada dos Ministérios, na quarta-feira.

"Acho que se fez necessário o reforço. Eu estava no ministério desde o início da manhã, e a situação foi aos poucos saindo de controle. Muitos estavam depredando, jogando pedras, até atearem fogo. Eu e muitos servidores que estavam trabalhando tivemos de sair às pressas em meio à fumaça preta que tomou conta de parte do prédio. Acho que o reforço até tardou para chegar", contou o ministro.

Sobre o futuro do atual governo, Maggi não se furta de dizer que o governo Temer nunca foi popular e que agora perdeu também o apoio no Congresso. "Eu apoio o governo e vou permanecer no cargo até que se confirme se haverá ou não afastamento do presidente, o que eu espero que não ocorra. Mas é uma situação que impede o avanço de qualquer projeto, porque ninguém consegue pensar sequer em duas semanas adiante", disse o ministro.

Após falar com jornalistas e partir para o primeiro painel do seminário, o foco foi o Plano Safra, que Maggi disse ter sido uma dura queda de braço com o Ministério da Fazenda. E não amenizou o resultado da disputa com a equipe de Henrique Meirelles, que queria aumentar os juros e reduzir o valor oferecido aos produtores. "O que conseguimos foi uma redução média de 1% na taxa de juro, que deve ficar em 7,5%, ante uma inflação próxima de 4%, o que significa um juro real ainda muito alto para o produtor", reconheceu o ministro.

Outra medida que deverá integrar o Plano Safra 2017/2018 é o recuo significativo nos prazos de custeio e de linhas de financiamento de longo prazo. E é na esteira da retração do apoio do governo ao agronegócio que devem crescer os bancos privados, como o Santander, que organizou o seminário e que manteve o tom otimista quanto ao futuro do agronegócio e o avanço do banco no segmento.

"Achamos que o Brasil é uma ilha de instabilidade, mas não é a única no mundo. A Inglaterra saindo da União Europeia é um exemplo dessa instabilidade mundial. Mas essa saída também abre oportunidade para o Brasil e o agronegócio, que agora deverá fechar um acordo de livre comércio entre o Mercosul e o bloco europeu. E a Inglaterra terá que fechar os seus acordos próprios, inclusive com a América Latina", ponderou o presidente do Santander Brasil, Sérgio Rial.

Ainda falando sobre as perspectivas internacionais, Rial citou a China como exemplo de recursos estrangeiros que já aportam no Brasil e que devem ser ampliados, apesar do momento conturbado. "A China está investindo fortemente na área energética, já respondendo por quase 30% da rede de distribuição de energia no Brasil. É o início de um processo que vai chegar ao agronegócio, e não apenas pelo capital, mas também pela possibilidade de fazer um link melhor entre a origem da nossa produção com o destino final, a China, ampliando as possibilidades de negócios", acredita o executivo.

O que Blairo Maggi falou sobre…

O caso JBS

"No ministério, assim como os produtores, que eu também sou, sempre me preocupei com o tamanho que o JBS adquiriu no Brasil e sempre fui um crítico da postura do governo e do Bndes de ter proporcionado essa grande concentração que houve no Brasil. Isso é sempre muito perigoso, e agora vivemos um momento delicado. Não sei o que vai acontecer com essa companhia. Vamos imaginar que aconteça o pior. Como fica o setor produtivo? Já estamos fazendo um estudo no ministério para ver as plantas fechadas e como podemos estimular alguns grupos e empreendimentos individuais, com novos e menores players. Vim do Oriente Médio nesta semana e percebi lá, nos compradores, também o temor com essa situação, de estarem muito concentrados em uma ou duas empresas muito grandes; e se houver problemas aqui, e eles também têm problemas com sua segurança alimentar por lá se houver atrasos em entregas, por exemplo."

Carne Fraca

"Não temos mais embargos, salvo um ou outro, como o Kuwait. Eu diria que, em termos de governo e entre governos, está solucionado. Temos é problemas de mercado agora. A imagem do Brasil e do nosso produto ficou comprometida. Há um ponto de interrogação sobre o produto que não havia antes. Não se questionava a qualidade. Agora, sim. A relação com exportadores, governo, empresas e consumidores se encerrou, mas a Operação Carne Fraca terá novas etapas. E o Ministério da Agricultura apoia a Polícia Federal na busca por eliminar problemas que temos, mas o principal papel do ministério é fiscalizar a qualidade do produto que está sendo oferecido."

Corte de subsídios agrícolas anunciado pelos EUA

"Isso pode ajudar o Brasil, sim. O Brasil, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é o quarto país que menos tem subsídios em toda a sua cadeia produtiva. E os Estados Unidos é um dos que tem mais. Então, todos os subsídios que saem da agricultura em qualquer lugar ajudam o Brasil a ser mais competitivo. Eu sempre me refiro que a agricultura só vai bem se houver renda para o produtor, e isso depende de ter mercados e preços competitivos. E não há como competir com quem tem muitos subsídios. Vamos torcer para que isso se concretize."

Fonte: Jornal do Comércio