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Levy defende uma nova economia florestal

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Michael Nagle/Bloomberg

Joaquim Levy, diretor do Banco Mundial: "Restauração florestal é vetor de crescimento, não é ônus para a sociedade"

"Florestas podem aumentar a resiliência, contribuir com o gerenciamento de riscos de desastres, têm papel crucial para a segurança alimentar e energética, além de ajudar a reduzir a pobreza". O autor desta frase não é um ambientalista de organização não-governamental, mas Joaquim Levy, ministro da Fazenda de Dilma Rousseff em 2015 e hoje diretor geral e diretor financeiro do Banco Mundial, o segundo na hierarquia da instituição.

Levy, que é engenheiro naval com doutorado em economia, veio ao Brasil dar palestra ontem, durante a 7ª Conferência Mundial sobre Restauração Ecológica que acontece esta semana, em Foz do Iguaçu. O evento, o maior encontro mundial de pesquisadores, estudantes, tomadores de decisão e técnicos que trabalham com restauração, é organizado por instituições brasileiras e internacionais do setor. O encontro recebeu mais de 1.000 inscrições de 60 países.

Levy falou sobre a importância de se estimular uma nova economia florestal no mundo e no Brasil. "Grandes financiamentos virão se atores públicos e privados investirem em pesquisa e desenvolvimento e tiverem estratégias de restauração com impactos que sejam mensuráveis e de longo prazo."

Em entrevista por telefone ao Valor, Levy, disse que no Brasil "há grande potencial econômico na restauração, e o que é preciso é organizar as diversas iniciativas que existem nesta direção."

O ex-ministro salientou o que pesquisadores e ambientalistas costumam repetir, mas o agronegócio brasileiro resiste em aceitar: "A restauração tem impacto importante na produtividade e no manejo de riscos da agricultura", disse. "Restauração é algo positivo para a agricultura", frisou.

O ex-ministro lembrou ainda que uma das metas brasileiras no Acordo de Paris é restaurar 12 milhões de hectares até 2030, e outra, recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas. "Restauração é uma das maneiras mais eficientes, baratas e com benefícios para outras atividades econômicas que a gente tem", continuou. "Isso é um vetor de crescimento, não é algo que seja um ônus para a sociedade. Ao contrário, ajuda a aumentar a produtividade da agricultura e a melhorar a percepção do Brasil nos mercados externos, também porque há impacto no valor dos nossos produtos", seguiu.

Levy lembrou a possibilidade de proprietários rurais com passivos ambientais compensarem déficits através de "cotas de reserva ambiental" no mesmo bioma. "O Código tem esta ideia inteligente que não precisa ter um quadradinho de floresta em cada fazenda, mas pode-ser reunir tudo em uma grande ilha verde. Permite manter a biodiversidade e é mais barato para o fazendeiro", citou. "E onde se tem biodiversidade, a chance de se ter pragas diminui muito", seguiu.

Na agenda das finanças verdes, o Banco Mundial, a ONU e outras instituições começam a se debruçar sobre formas de medir riscos. "Ter biodiversidade e iniciativas de integração da agricultura com reflorestamento diminuem o risco do crédito agrícola", exemplifica. "Porque se diminui o risco de perder safras e, ao mesmo tempo, aquela commodity pode ter valor de mercado mais alto se estiver em uma cadeia de valor diferenciada", segue. "Financiamento sempre aparece quando o projeto é bom, não tem risco de pragas, está adequado às regras ambientais. Cada vez mais o financiador olha isso porque estes dados dão segurança ao empréstimo."

A participação do ex-ministro da Fazenda no evento pode surpreender quem não sabe que há anos Levy compreende os elos entre ambiente e economia. "A degradação ambiental afeta os mais vulneráveis e perpetua a pobreza", disse em sua palestra. "Estima-se que 42% das pessoas mais pobres no mundo vivam em terras classificadas como degradadas. O cenário se agrava a cada ano. Calcula-se que 24 bilhões de toneladas de solos férteis sofrem com processos de erosão e 12 milhões de hectares estão degradados pelas secas."

"Por sorte esses danos podem ser revertidos. Cerca de 2 bilhões de hectares de florestas degradadas podem ser restauradas criando ecossistemas funcionais e produtivos, com perspectiva de desenvolvimento, de ajuda a pessoas e de ajuda ao planeta", continuou.

Por Daniela Chiaretti | De São Paulo

Fonte : Valor