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Lala acerta compra da Vigor por R$ 5,7 bi

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Susana Gonzalez/Bloomberg via Getty Images

Produtos da Lala no México; após tentativas frustradas, empresa consegue entrar no Brasil com aquisição da Vigor

A fabricante de lácteos mexicana Lala acertou ontem a compra da Vigor Alimentos, controlada pela J&F Investimentos, por R$ 5,7 bilhões, valor que inclui dívidas, segundo uma pessoa a par da negociação. Até o fechamento desta edição, ambas as partes reviam o contrato, mas a assinatura ainda não havia ocorrido.

A Lala atribuiu o valor de R$ 5,7 bilhões por 100% da Vigor e também da Itambé, na qual a controlada da J&F tem participação de 50%. A outra metade da Itambé pertence à Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais (CCPR).

O valor inclui dívidas da empresa brasileira de lácteos, segundo afirmou ao Valor a mesma fonte. A Vigor tem cerca de R$ 900 milhões em dívidas. Portanto, os R$ 5,7 bilhões não representam o montante total que a família Batista, controladora da J&F Investimentos, receberá pela transação.

Levando-se em consideração o valor atribuído à companhia menos a dívida e a participação da CCPR na Itambé, os Batista – controladores da J&F – devem receber pela venda da Vigor um valor abaixo de R$ 4 bilhões. Em uma oferta de compra feita no fim do ano passado – antes da divulgação da delação premiada de Joesley e Wesley Batista – a Lala havia avaliado a Vigor em R$ 5,4 bilhões, sendo R$ 1,5 bilhão pela Itambé, mas a proposta foi recusada.

A formalização do negócio deve ocorrer apenas na quinta-feira, porque a transação ainda vai passar pelos conselhos de administração.

A Lala conta com a assessoria financeira do BTG Pactual, enquanto a J&F Investimentos contratou o Bradesco BBI e o Santander.

O acordo de acionistas entre CCPR e a Vigor na Itambé prevê que a cooperativa central, em caso de venda da Vigor, teria a opção de recomprar suas ações, de vender sua participação ou fatia dela ou de permanecer como sócia.

Procurada ontem, a J&F disse que "não comenta a venda de ativos além das informações públicas". A Lala não respondeu até o fechamento desta edição.

Diante do histórico da Lala, que fez outras tentativas frustradas de entrar no país, havia algum ceticismo entre players do setor de lácteos sobre a concretização do negócio com a Vigor até o último momento. O próprio CEO da empresa, Scot Rank, reconheceu, há alguns dias, em teleconferência com analistas, que a Lala é "muito cuidadosa" em relação aos riscos de uma aquisição.

Uma história, em especial, revela quão conservadora a mexicana pode ser na hora de negociar. Em 2012, a empresa de lácteos esteve muito perto de comprar a Itambé, na época controlada pela CCPR. No entanto, após 11 meses entre negociação, due diligence e a assinatura do memorando de entendimentos entre as duas partes, a transação não vingou pois a Lala quis reduzir o preço, de acordo com uma fonte que acompanhou toda a negociação naquela ocasião. Então, 50% do capital da Itambé acabou sendo vendido para a Vigor, por R$ 410 milhões, no ano seguinte.

A expectativa é que a venda da Vigor para a Lala tenha uma aprovação rápida pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), já que mexicana não tem operações no Brasil.

Uma eventual venda para a francesa Lactalis, que também fez oferta pela Vigor, teria significado um tempo maior para fechar a transação, já que a aprovação pelo Cade seria mais demorada. Isso porque a Lactalis já tem ativos no Brasil. A francesa está no país desde 2013, quando adquiriu ativos da Balkis. No ano seguinte, avançou com a compra de unidades da LBR e dos ativos de lácteos da BRF.

Com a aquisição da Vigor, a Lala cumpre a meta de crescer fora do México, promessa feita em sua abertura de capital em 2013. Chega num momento em que o mercado de lácteos enfrenta queda no consumo em categorias como iogurte, por causa da crise econômica no Brasil.

Mas, segundo analistas, a aposta dos mexicanos é de prazo mais longo e mira o potencial de crescimento no consumo de lácteos no Brasil, que ainda é baixo em comparação a outros países. Além disso, está de olho no tamanho do mercado brasileiro, onde o consumo per capita de lácteos está na casa dos 172 litros por ano, segundo estimativa da consultoria MilkPoint. Na Argentina, esse consumo é de 215 litros e na Europa, de 250 litros.

A Lala tem 22 fábricas, sendo 14 no México, cinco na América Central e três nos EUA. Produz itens como leite, manteiga, iogurtes, queijos, creme de leite, entre outros. Com a aquisição, a empresa terá 15 fábricas no Brasil, onde são produzidos praticamente os mesmos itens. E deve ser terceira no ranking de captação de leite do Brasil, considerando que a Itambé já ocupava a posição com 1,104 bilhão de litros, e a Vigor captou 311 milhões de litros em 2016.

A história da Lala começou em 1949, com a fundação por um grupo de pequenos produtores da União de Produtores de Leite de Torréon, na Comarca Lagunera, região centro-norte do México. No ano seguinte, criaram a La Pasteurizadora Laguna. Em 1956, outro grupo de produtores fundou a Pasteurizadora Nazas, em Gómez Palacio, no Estado de Durango, no noroeste do país. Em 1977, os dois laticínios se uniram dando origem à Lala atual. Depois disso, o grupo fez aquisições no México e na América Central. E, após várias tentativas, finalmente consegue chegar ao mercado brasileiro.

Por Carolina Mandl e Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

Fonte : Valor