Lactalis ‘arruma a casa’ em busca da liderança

“Temos que montar o lego e com isso construir uma companhia que seja competitiva no mercado”, diz Patrick Sauvageot
O CEO da Lactalis para a América Latina, Patrick Sauvageot, não é dado a rodeios. Sim. A francesa, maior empresa de lácteos do mundo, quer ser líder também no Brasil no médio prazo, mas sabe que o desafio não será pequeno. ” A Lactalis está tentando desenvolver um papel, tentando construir uma empresa significativa no mercado brasileiro, mas em tempo reduzido. Então, temos de aprender mais rapidamente”, afirma.

A companhia chegou ao país em julho de 2013 com a compra da pequena Balkis, de queijos. No ano passado, fez dois movimentos quase simultâneos: adquiriu ativos da LBR – Lácteos Brasil – que tinha a licença de uso da marca Parmalat, da qual a Lactalis é dona -, e também os negócios de lácteos da BRF, operação de R$ 1,8 bilhão que foi aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em abril.

Quase nove meses após a aquisição dos ativos da LBR por R$ 250 milhões, num processo de recuperação judicial, e à espera da conclusão da operação de compra da unidade de lácteos da BRF, Sauvageot admite que a Lactalis no Brasil é a uma empresa a ser construída.

“O desafio é enorme. Normalmente, quando se faz uma aquisição, você compra uma companhia que funciona. No nosso caso, estamos comprando coisas que estão para ser construídas. É a diferença entre comprar uma casa e comprar um lego”, admite. E continua: “Aqui está o lego e você não tem recursos para montar. Você tem que montar o lego e com isso construir uma companhia que seja competitiva no mercado e que funcione. Nunca fiz isso antes. Sou bem sincero”, acrescenta, rindo, o executivo, que já foi CEO da Danone na França.

Para ele, numa situação como a que envolve as aquisições da empresa, em que as coisas ainda não estão estruturadas, há riscos. Mas o lado positivo, diz, é que existe a oportunidade de construir a empresa “from the scratch” [do nada]. “Você pode definir como fazer o lego, segundo o que você considera adequado”.

No “lego” que a Lactalis está montando estão três empresas bem diferentes: a primeira, a Balkis, “pequena e que tinha algumas dificuldades”, a segunda, a LBR, “que estava quebrada e precisa ser reconstruída” e a terceira, a BRF, “que precisa ser criada”. Sauvageot explica que a BRF trabalha na criação de uma empresa chamada “Elebat”, a partir de seus negócios de lácteos. É essa empresa que a Lactalis está comprando.

Segundo ele, a BRF está criando áreas de informática, comercial e logística para a “Elebat”, já que até então todas as estruturas da divisão de lácteos funcionavam juntamente com as outras operações da empresa de alimentos. Com isso, a expectativa é que a aquisição seja concluída no segundo semestre.

Num primeiro momento, para se “colocar” no mercado, a Lactalis foca na marca Parmalat, que escolheu para ser sua marca nacional. Para isso, colocou no ar novamente a campanha dos mamíferos, que foi sucesso há 20 anos. “O interesse da Lactalis, quando comprou a LBR, era retomar o controle de marca Parmalat. O grupo considera a marca estratégica e ela havia sofrido bastante nos últimos 10 anos”, afirma o CEO.

Emmanuel Besnier, dono da Lactalis, sabe dos desafios no Brasil, mas, pragmático, está apostando no médio e longo prazos. “O benefício de ter um acionista familiar, privado, que tem visão estratégica forte, é que ele não pensa no curto prazo. Ele está tentando construir uma empresa líder no mercado brasileiro e sabe que é um desafio grande, então pode entender por que é preciso um pouco mais de tempo para construir, provavelmente mais do que um grupo que tem de entregar resultado na bolsa”, diz Sauvageot.

As operações da Lactalis no Brasil estão sob o controle da Parmalat, que tem ações na Bolsa de Milão, mas o principal acionista da Parmalat é a Lactalis. Assim, a visão é influenciada pelo grupo francês, diz.

De todo modo, isso não significa que a Lactalis vai prescindir de ganhar dinheiro no Brasil por muito tempo. “A lógica da Lactalis é de que esse negócio tem de dar lucro. Cada uma das operações tem de dar lucro, separadamente”.

Embora admita que pode haver percalços no caminho, a Lactalis é ambiciosa em seus planos, como já se esperava no mercado. A previsão da companhia é ter uma receita líquida anualizada de R$ 3,5 bilhões, mas o número pode crescer, estima Sauvageot. Boa parte dessa receita, R$ 3 bilhões, virá da “Elebat”. “A “Elebat” fazia mais faturamento historicamente antes. Já a Parmalat perdeu muita posição, então há potencial de fazer mais receita. Mas antes de dizer que vamos crescer, ter uma companhia que funcione, em ordem, seria já um passo importante”, diz, cauteloso. Mas martela: “o objetivo é ser ator rentável, significativo no mercado de lácteos no Brasil, que esteja entre os líderes”.

Um dos rankings que a Lactalis pode liderar, admite Sauvageot, é o da captação de leite no país. A estimativa é de que a empresa irá comprar 1,9 bilhão de litros de leite por ano, pouco abaixo das 2 bilhões de litros adquiridos em 2014 pela primeira do ranking, a DPA, parceria entre Nestlé e Fonterra que não existe mais. “Na compra do leite, teremos posição número um ou dois”, diz, observando, porém, que após o fim da parceria com a Fonterra, a Nestlé deve reduzir a compra de leite. “Seremos um dos líderes”.

Com as aquisições no Brasil, o grupo francês deve ter posição significativa em todos os segmentos de lácteos. Em leite longa vida, a expectativa é ser número “um ou dois” no mercado, posição que também deve ter em queijos, segundo o executivo. Em iogurte, “um mercado competitivo”, a Lactalis acredita que estará em terceiro ou quarto lugar.

A empresa ainda não definiu sua estratégia para as marcas Elegê e Batavo, que virão com os ativos da BRF. “O que é seguro é que as duas [marcas] têm potencial e têm uma base de consumidores significativas, então temos interesse em investir para desenvolvê-las”.

Enquanto isso, a Lactalis busca reanimar a marca Parmalat, “que tem um passado glorioso, que teve quase 20% do mercado de UHT, e tem relação emocional muito forte com o consumidor”, diz o executivo. “O desafio é reconstruir a marca ao nível que alcançou no passado. Isso passa por reconstruir a segurança para o consumidor da qualidade do produto. Antes, o produto era reconhecido e precificado por isso”.

O portfólio da Lactalis no Brasil terá leite com marcas Parmalat, Elegê, Batavo, queijos com marca Balkis e Boa Nata (que era da LBR) e iogurte com marca Batavo.

Produto de margens baixas no Brasil, o leite longa vida deve representar “uma parte importante” da receita da Lactalis no país. Sauvageot reconhece que é “difícil ganhar dinheiro” nesse segmento em decorrência da sazonalidade da produção e da volatilidade dos preços da matéria-prima. Mas rechaça a alegação de que não se ganha dinheiro com a categoria. “Isso é o caso no Brasil. O grupo vende UHT em outros países e ganha dinheiro”, garante.

Com faturamento de € 16 bilhões no mundo em 2013 (último dado disponível), o grupo francês terá 17 fábricas no Brasil e um total de cerca de 6,3 mil funcionários.

Fonte: Valor | Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo